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Moda à prova de bala

Nos EUA, a produção de equipamento de proteção individual é uma indústria avaliada em 465 milhões de dólares (cerca de 396 milhões de euros) anuais, de acordo com um relatório de agosto último da Market Research. Espera-se que o mercado global deste tipo de artigos alcance os 5,7 mil milhões de dólares até 2024, segundo um estudo realizado em 2016 pela Grandview Research.

O designer colombiano Miguel Caballero, um dos mais conhecidos neste segmento, fundou a marca epónima na Colômbia, o seu país-natal, em 1992, quando o país convivia com o narcotráfico e a guerrilha armada.

A Colômbia, entretanto, transformou-se e Caballero – muitas chamado de “Armani blindado” – voltou as atenções para outro país assombrado pela violência armada e em busca de segurança: os EUA.

No início deste ano, o designer colombiano abriu um centro de distribuição em Miami para vender a sua linha de vestuário destinada a proteger os americanos. A gama de artigos à prova de bala inclui todos os níveis de proteção normalizados pelo Instituto Nacional de Justiça dos EUA (NIJ na sigla original): IIA, II, IIIA, III e IV. O NIJ estabelece as normas nacionais oficiais para equipamentos de proteção, classificados por nível.

Balas versus luxo

Dentro desta indústria há um segmento pequeno, mas crescente, de marcas e retalhistas que, tal como Miguel Caballero, estão a oferecer vestuário de gama alta à prova de bala que está a anos-luz do tradicional colete, tanto em termos estéticos como técnicos.

Abbas Haider, CEO e presidente da Aspetto, sediada no estado norte-americano de Virgínia, afirma ter sido o primeiro fornecedor norte-americano de moda topo de gama à prova de bala.

Ainda que a Aspetto ofereça vestuário e acessórios tradicionais, o best-seller é o Ballian Suit Level IIIA (fato à prova de bala de 5.000 dólares). O fato protege contra da maioria das armas de mão e cumpre as normas do NIJ, da DEA e do FBI.

Como seria de esperar, algumas empresas posicionadas na indústria de equipamento de proteção individual nasceram a partir de motivações de base emocional.

O empresário Damian Ross, da Self Defense Company, foi levado à ação quando presenciou um tiroteio no Garden State Plaza – um centro comercial que visitava frequentemente com a família – em Nova Jérsia, corria o ano de 2013.

«Percebi que precisava de uma solução e procurei uma solução acessível, efetiva e realista», explica. «Claro, poderia evitar ir ao shopping, mas não era pragmático. Então, agora, apenas visto o meu casaco e vou», acrescenta.

Damian Ross está a referir-se ao Bodyguard Tactical Jacket, casaco disponível nos estilos Street (467 dólares) e Beast (597 dólares).

O primeiro garante proteção Nível IIA para uso diário e o segundo oferece proteção Nível IIIA para situações de alto risco. Ross, com 20 anos de experiência em formação de autodefesa, colaborou com militares israelitas para criar os modelos.

Os entraves

Damian Ross confessa que a maioria das pessoas não percebe que ter vestuário à prova de bala é totalmente legal e não requer uma autorização especial, período de espera ou verificação de antecedentes e que este é um dos principais entraves ao negócio.

Por outro lado, analisando o leque de preços dos artigos, a moda à prova de bala não é barata.

Então, quem são os clientes que fazem fila para comprar os artigos destas marcas?

O designer colombiano Miguel Caballero conta com líderes da América do Sul e do Médio Oriente entre os seus clientes, bem como alguns pesos-pesados dos negócios internacionais.

Abbas Haider aponta que 85% do negócio é garantido por funcionários do governo, incluindo membros do Exército, Força Aérea e Marinha.

Já Damian Ross revela que os seus clientes – com idades entre os 34 e os 75 anos – são apenas indivíduos atentos ao que os rodeia e que procuram proteção. O empresário acredita que muitos dos seus clientes são, também, portadores de armas, observando uma correlação.

«Os portadores de armas aceitam o facto de poderem ter de usar uma arma para protegerem os seus entes queridos ou eles próprios e isso provavelmente significa enfrentar alguém armado», refere. «A lógica determina que, se acharmos que alguém vai atirar em nós, devemos usar proteção», realça.

Todos os empresários concordam que, com o tempo, a procura de moda à prova de bala tenderá a aumentar.

No entanto, existem algumas ressalvas. Abbas Haider, da Aspetto, destaca que os

produtos exigem um alto grau de especialização para serem produzidos. Além disso, a negação pode continuar a impedir a aceitação pública da moda à prova de bala.

«Haverá sempre uma maioria esmagadora que continuará a negar que a violência possa acontecer consigo», reconhece Damian Ross, da Self Defense Company.