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Moda ao ritmo cubano

Reformas económicas, melhores relações com os EUA e até o desfile da coleção Cruise da Chanel são sinais encorajadores para o desenvolvimento do mercado de moda de Cuba, mas, apesar de ser encarado com maior otimismo pelos designers locais, o futuro é ainda uma incógnita.

Ao olhar para a loja no Hotel Nacional de Cuba, em Havana, os turistas dificilmente suspeitariam que a joalharia brilhante na montra da marca cubana Rox 950 é produzida numa “fábrica” num apartamento em Havana a abarrotar com 35 pessoas.

Rosana Vargas, a designer ambiciosa por detrás da marca, produz até 500 peças artesanais por mês no seu espaço na capital cubana, registando um volume de negócios de cerca de 20 mil pesos cubanos (cerca de 17.400 euros). Tendo em conta que a taxa de câmbio do peso está equiparada ao dólar americano, a escala do negócio de joalharia em prata de Vargas é um feito impressionante num país onde o capitalismo era uma palavra feia até há bem pouco tempo.

Vargas explica ao Business of Fashion que a regulação sobre a propriedade operada por negócios privados em Cuba significa que, por agora, ela está confinada ao seu apartamento com três quartos transformado em fábrica. Depois de cinco anos no mercado, Vargas tem os seus designs à venda em 10 lojas em Cuba, incluindo hotéis e a cadeia estatal Artex. Atualmente está em negociações com um distribuidor sediado nos EUA.

«Estamos atualmente a vender apenas cerca de 50% do que estamos a produzir e a produção não está ainda no nível que quero que esteja. O principal objetivo é continuar a aumentar a produção para termos inventário suficiente para exportar. Não posso ir a uma reunião com um potencial distribuidor com as mãos vazias», indica a designer.

Uma nova era

O embargo comercial dos EUA – conhecido localmente como “el bloqueo” – tem arruinado Cuba por mais de meio século e, apesar do recente descongelamento das relações entre os dois países, os efeitos nefastos ainda se fazem sentir. Contudo, depois de Obama ter começado a rever algumas sanções económicas no ano passado, alguns produtos feitos por cuentapropistas (empresários) cubanos independentes estão agora autorizados para exportação.

Ainda assim, o fluxo de bens de consumo que está a sair do país é ainda mínimo e os cuentapropistas têm de obedecer a certas restrições, afirma Marguerite Fitzgerald, parter no Boston Consulting Group (BCG) e autora do mais recente relatório da empresa de consultoria sobre Cuba. «Têm de ser capazes de provar que são, efetivamente, negócios independentes – não podem ter qualquer ligação com o governo cubano e há restrições sobre o tipo de produtos que podem exportar», explica. Artigos artesanais, como vestuário, calçado e acessórios, são permitidos, aponta, enquanto os produtos proibidos incluem bens alimentares, veículos e maquinaria.

Rosana Vargas representa um espírito crescente de empreendedorismo em Cuba, que até há poucos anos atrás tinha um ambiente de negócios bastante mais difícil. Uma série de reformas de mercado iniciadas em 2010 permitiram que os cuentapropistas pudessem contratar mais de 25 empregados em diferentes negócios e que algumas leis do governo fossem menos rígidas.

Segundo o estudo do BCG, o número de cuentapropistas mais do que triplicou desde a nova legislação. A empresa estima que a economia cubana vá crescer 2% a 4% nos próximos cinco anos. E se as reformas significativas continuarem e as restrições americanas forem mais aliviadas, há potencial para um crescimento mais rápido a longo prazo.

A economia de Cuba é pequena – aproximadamente o tamanho da do Sri Lanka ou do estado americano do Havai – e embora ainda seja dominada por empresas estatais, as reformas representam uma enorme mudança para um país que tem uma economia fechada e cujo governo comunista teve uma relação hostil com os EUA durante décadas.

Segundo alguns analistas, o crescente envolvimento de Cuba com o mundo exterior não é apenas uma nova era para os empresários locais, mas também para marcas multinacionais que esperam um dia entrar no mercado. Nos bastidores, muitas empresas grandes estão a explorar cuidadosamente as suas opções ou a fazer inaugurações sem muito alarido. Um dos gestos mais marcantes e simbólicos para o sector da moda é o da marca Chanel, que apresentou no dia 2 de maio a sua coleção Cruise em Havana.

«Penso que é ótimo que a Chanel venha desfilar em Cuba e estou ansioso por ver a visão [de Karl Lagerfeld] da ilha, mas se falar com alguém na rua, há uma grande probabilidade dessa pessoa não ser capaz de dizer quem é a Chanel e provavelmente não vai saber que a Chanel vem cá fazer um desfile», afirma o designer de moda cubano Rolando Rius.

A verdade é que a maioria dos 11 milhões de cubanos que vivem na ilha nunca sonharam em comprar uma marca com os preços elevados da Chanel. A maior parte dos especialistas da indústria concordam que o desfile em Cuba tem mais a ver com o cenário do que com um mercado a explorar em breve.

No entanto, Cuba não é propriamente estranha à moda de luxo. Antes de Fidel Castro tomar o poder em 1959, a ilha caribenha atraía grandes costureiros como Christian Dior, que abriu uma das suas primeiras boutiques nas Américas nos grandes armazéns El Encanto em Havana. Mas depois de meio século de governação comunista, a opulência que outrora caracterizou Cuba, desapareceu. No seu lugar existe uma ilha cuja grandiosidade se está a desvanecer, conhecida como um país que parece congelado no tempo, atraindo a indústria de moda mundial como uma localização para fotografias glamourosas e charmosas.

Mas enquanto revistas como a Vogue, a Vanity Fair ou a Marie Claire e marcas como a Chanel viajam para Cuba para se deliciarem com o cenário pitoresco, designers empreendedores como Rosana Vargas e Rolando Rius têm lutado durante décadas para manter a indústria de moda cubana viva e incubar um ecossistema de moda que os líderes da indústria no estrangeiro considerariam ao mesmo tempo estranho e familiar.

Desafios únicos

Um dos principais obstáculos para empresários cubanos como José Luis González é o preço elevado das matérias-primas. González começou a sua marca própria de vestuário de senhora, a Modarte, depois de 25 anos a trabalhar para a indústria têxtil estatal de Cuba, especializando-se na decoração e pintura de tecidos. «Comprar tecidos nas lojas detidas pelo estado é extremamente caro. Muitas vezes trabalho com chiffon porque gosto da forma como flui e custa cerca de 5 pesos por metro numa cor sólida. Quando tenho a hipótese de ir a Itália, que foi a importação mais recente que fiz, custa uma fração do preço, talvez alguns cêntimos por metro», indica.

Taxas de importação complicadas, aumento de impostos e falta de distinção entre operações de retalho e vendas por grosso por algumas autoridades cubanas são alguns dos desafios que os cuentapropistas enfrentam, afirma José Luis González.

González, Rius e Vargas vendem a um grupo pequeno e exclusivo de consumidores com poder de compra em Cuba. As coleções de González podem ser compradas nas lojas detidas pelo Estado Artex e El Fondo Cubano de Vienes Culturales. Com uma pequena equipa de costureiras, o empresário produz cerca de 100 peças a cada dois ou três meses, que, revela, esgotam rapidamente devido a pré-vendas e elevada procura.

A coleção de Rolando Rius inclui também acessórios, com preços entre 40 e 50 pesos cubanos por joalharia e até 80 a 90 pesos por uma carteira. Os preços podem parecer razoáveis ou até uma pechincha para os consumidores nos EUA e a Europa, mas num país onde o Banco Mundial estima o PIB per capita em cerca de 6.000 dólares, estão fora do alcance da maioria dos cubanos. Os cuentapropistas da moda servem um pequeno mercado de nicho que reconhecem ou pelo menos seguem as marcas internacionais de luxo, mas estão limitadas pelo acesso, informação e preço.

«Ver o mais recente desfile de moda [online] por exemplo, pode ser difícil. Estar informado a 100% é difícil, mas há muitas pessoas que conseguem e tentam o seu melhor, embora sejam uma minoria», explica Rius. Apesar de cerca de 30% dos cubanos ter acesso à Intranet regulada pelo governo, apenas uma pequena fração destes podem aceder à Internet mundial, segundo um estudo de 2015 da organização americana Freedom House.

A diferença cultural criada por décadas de isolamento relativo torna a visa mais difícil para alguns cuentrapropistas mas, para outros, é uma oportunidade de negócio na indústria de moda subdesenvolvida de Cuba.

«Com todas as mudanças recentes, as pessoas às vezes olham para Cuba e pensam que estávamos completamente fechados em relação ao mundo exterior antes, o que não é verdade», lembra José Luis González, que acredita que marcas multinacionais acessíveis têm futuro no mercado. Marcas de fast fashion como a Mango, a Benetton e a Zara são conhecidas porque os seus produtos podem ser encontrados nas lojas detidas pelo Estado – aparentemente através de intermediários. Ao mesmo tempo, o vestuário de marca há muito tempo que está disponível para os vendedores nos famosos mercados negros de Havana, como La Cuevita.

Uma população jovem também já sente a influência dos rappers cubanos e dos jogadores de basebol que usam marcas de designer. «Os cantores de reggaeton que fazem muito dinheiro e viajam são uma espécie de modelos para muitos jovens. Eles vão e compram Gucci e D&G e Armani e os jovens veem e consideram-nos os mais bem vestidos. Por isso alguns reconhecem estas marcas», indica Rolando Rius.

Um fenómeno mais recente chamado El Paquete está rapidamente a aumentar a notoriedade das marcas ocidentais em Cuba através do entretenimento. Uma compilação semanal de programas, séries, filmes e revistas de moda dos EUA e outros países chega a casa das famílias cubanas numa pen USB ou num disco externo pelo equivalente a 2 a 5 dólares. Embora seja ilegal, tem sido tolerado pelo governo e, segundo algumas estimativas, chega a cerca de 70% da população.

O progresso está dependente do investimento estrangeiro, liberalização do mercado, aumento dos salários, desenvolvimento do retalho e infraestruturas e crescimento económico – nenhum dos quais é uma garantia antecipada da nova Cuba. Com o líder cubano Raúl Castro a dever sair do poder em 2018, há uma maior incerteza não só relativamente ao ritmo das reformas internas, mas também para a evolução complexa da relação de Cuba com os EUA e o efeito consequente nos parceiros internacionais.

«Não sei onde é que todas estas mudanças com os EUA nos vão levar», confessa Rolando Rius. «Podemos ter esperança numa certa troca de informação e ideias, mas realmente não sei», acrescenta.

Como concluem os autores do relatório do BCG, a evolução do mercado cubano é «intrigante», embora não tenha ainda havido progressos suficientes para revelar «uma oportunidade significativa». Mas isso não afeta o otimismo de cuentrapropistas como Rius, González e Vargas, que estão, pela primeira vez em décadas, a testemunhar o entusiasmo do mundo em fazer negócio com o seu país.