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Moda circular com longo caminho até 2020

Os signatários do Circular Fashion System Commitment 2020 atingiram 45 (21%) dos seus 213 objetivos definidos – 79% ainda estão por cumprir. Aumentar a percentagem de peças de vestuário e/ou calçado feito a partir de têxteis pós-consumo é o objetivo mais desafiante para as 90 empresas signatárias.

O segundo relatório anual da Global Fashion Agenda (GFA) sugere que as marcas de moda devem acelerar urgentemente os seus esforços para irem de encontro aos objetivos do Circular Fashion Commitment 2020. O relatório, divulgado pelo just-style.com, aponta que os progressos estão a ser afetados pela falta de soluções de reciclagem de fibras de qualidade.

O compromisso a três anos, lançado na primavera de 2017, foi assinado por 90 empresas do sector da moda – que representam 12,5% do mercado global de moda, incluindo nomes como a H&M, Target Corp e o grupo Kering, que estão a trabalhar para um conjunto de objetivos, relacionados com a moda circular, que deveriam ser atingidos no próximo ano. Contudo, o segundo relatório anual desde o lançamento do desafio mostra que, ao longo dos últimos 12 meses, os signatários atingiram 45 (21%) dos 213 objetivos definidos.

Os objetivos foram divididos entre diferentes pontos de ação. No primeiro, de implementação de estratégias de design com vista à redução de desperdícios, dos 87 objetivos definidos, 24 foram cumpridos. No segundo ponto de ação, de aumento do volume de vestuário e/ou calçado usado recolhido, foram definidos 52 objetivos, dos quais 12 já foram atingidos. No terceiro ponto de ação, de incremento do volume de vestuário e/ou calçado usado vendido, com 27 metas definidas, 4 foram atingidas. Por fim, no quarto ponto de ação, de aumento da quota de vestuário e/ou calçado feito a partir de têxteis pós-consumo, que inclui 47 objetivos, 5 foram cumpridos.

O progresso foi mais evidente no primeiro ponto de ação, que destaca a importância dos departamentos criativos e dos designers em influenciar o impacto ambiental de um produto e o seu cariz sustentável. Por exemplo, signatários como a Asos, Nike e Target focaram-se na formação de trabalhadores de vários departamentos em design circular e na integração da circularidade nos dossiers de design das empresas.

As barreiras que impedem a evolução

O ponto de ação mais desafiante para a maioria dos signatários é o quarto, de aumento da quota de vestuário e/ou calçado feito a partir de têxteis pós-consumo. Este ponto encoraja as empresas a devolverem artigos à linha produtivo, num fluxo contínuo, combatendo a crescente escassez de matérias-primas. «Com preços historicamente baixos para têxteis não recicláveis, a necessidade de soluções de reciclagem de fibras está a tornar-se mais urgente do que nunca. Deste modo, para facilitar a reciclagem de fibras de maior qualidade – simultaneamente aumentando a sua viabilidade económica e carácter sustentável – são necessários investimentos em novas tecnologias de reciclagem e soluções automatizadas», pode ler-se no relatório.

A maioria dos signatários ainda está a dar os primeiros passos na integração de têxteis pós-consumo nos seus processos produtivos. Nesse sentido, necessitam de se dedicar à investigação, de realizar testes e criar novos produtos. Após as fases iniciais, têm que encontrar os parceiros, fornecedores e tecnologias certas que permitam o aprovisionamento de têxteis reciclados e, assim, terão uma visão mais ampla das várias opções e alternativas disponíveis.

A maioria das empresas que definiu objetivos para o quarto ponto de ação indica que ter uma relação próxima com fornecedores e parceiros é um pré-requisito para o sucesso, assim como o diálogo constante e formação, o que consome muito tempo e recursos, segundo o relatório. Outro fator importante são os ensaios contínuos e o controlo de qualidade das fibras recicladas. «Descobrimos que a maioria das fibras recicladas é menos consistente; temos que testar cada material e produto em relação à sua durabilidade para garantir que o produto final vai de encontro às altas expetativas dos nossos consumidores», explica Brad Boren, diretor de inovação e sustentabilidade da Norrøna Sport.

O relatório identifica ainda as três principais barreiras à evolução: a falta de ferramentas e normas na indústria para implementar um design circular; a falta de estruturas reguladoras de apoio e incentivo e, ainda, a escassez soluções tecnológicas de reciclagem.

A importância da legislação

Há ainda a necessidade que sejam definidas normas que se apliquem a toda a indústria, melhores práticas, legislação e um quadro regulatório que ajude as empresas a atingir os restantes objetivos. Olhando para o futuro, a GFA refere que os governos e os responsáveis legislativos deveriam ter um papel mais forte na criação de um quadro regulamentar que auxilie as empresas. «Os decisores políticos querem, cada vez mais, que a indústria têxtil e vestuário seja um bom exemplo e tenha abordagens inovadoras para uma transição para a economia circular. Este relatório fornece uma base de indicadores para os decisores políticos, com informações chave acerca de ações concretas para uma moda circular. Esperemos que sirva de inspiração para que sejam desenvolvidas políticas inteligentes que ajudem a indústria a avançar», afirma Jonas Eder-Hansen, diretor de relações públicas da GFA.