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Moda em modo sustentável

A Alfândega do Porto abraçou ontem a sustentabilidade. Especialistas na área, estudos sobre os consumidores, marcas ecológicas e empresas que assentam em valores de sourcing responsável estiveram no centro do debate na conferência Sustainability Talks, organizada pelo CENIT, que contou ainda com o testemunho das portuguesas Tintex, Scoop, Valérius e Riopele.

Patrícia Ferreira, Manuel Teixeira Lopes, Ana Silva Tavares, Daniel Mota Pinto e Isabel Domingues

A conferência internacional Sustainability Talks, organizada pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil em parceria com a ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção, a ModaLisboa e a feira alemã Neonyt, reuniu vários especialistas da área para abordar o tema da sustentabilidade.

O programa prolongou-se durante a tarde de ontem e dividiu-se em quatro sessões: “sustainability talks powered by Neonyt”, “sustentabilidade: a visão do retalho”, “sustentabilidade em Portugal: experiências da indústria” e “sustentabilidade e criação de valor no longo-prazo”. «Esta questão [da sustentabilidade] é muito importante. É uma área em que o CENIT tem trabalhado, e como tal, achamos pertinente trazer este tema para o espaço público», explicou Luís Hall Figueiredo, presidente do CENIT.

Neonyt domina o palco

Max Gilgenmann

Max Gilgenmann, diretor de conteúdos da Neonyt, é uma referência no mundo da sustentabilidade. «Nos últimos 10 anos, houve muitas mudanças [nesta área]. Nos últimos cinco anos, a dinâmica ganhou ritmo e nos últimos três criou-se um panorama em que a indústria investiu realmente no assunto. Agora, em 2019, deu-se a revolução. Desde há um ano que todos falam sobre este tema e argumentam que estão a tomar uma atitude. E talvez seja verdade, mas é muito difícil perceber quão investidos estão efetivamente – o que será revelado nos próximos tempos», afirmou ao Portugal Têxtil.

Rachel Zeininger

Assumindo o papel de moderador do primeiro painel, Max Gilgenmann apresentou Rachel Zeininger, do grupo Facit Research GmbH & Co., para abordar os resultados de um estudo sobre os consumidores (Neonyt Consumers Study 2019). De acordo com os dados recolhidos, «a sustentabilidade é um dos três aspetos que maior influência tem na decisão de compra do consumidor», revelou. O estudo avaliou mais de 30 marcas, onde se incluem Adidas, Zalando, C&A, Hugo Boss e Chanel. Rachel Zeininger concluiu que «a sustentabilidade não é uma tendência», e sim «uma necessidade ou um status». A Hess Naur, Freitag e Patagonia assumiram-se como as marcas mais sustentáveis na perspetiva dos consumidores, apoiadas por uma «boa comunicação» e uma relação «transparente, credível e visível» com o cliente, apontou.

Claudia Hoffmann

Claudia Hoffmann, co-fundadora da Fashion Council Germany, aproveitou a oportunidade para dar a conhecer o programa German Sustain Concept, que apoia quatro jovens talentos nas áreas do design sustentável, sourcing, distribuição, marketing, comunicação e negócios. O programa de financiamento de dois anos visa estabelecer os participantes no mercado a longo prazo. «Hoje, para os designers que querem subsistir no negócio, não basta criar coleções fantásticas. Têm de saber vendê-las, encontrar uma forma de comunicação, contar uma história por trás da marca», assegurou Claudia Hoffmann.

Ali Azimi

Neste contexto, Ali Azimi, co-fundador da marca Blue Ben, conhecida pelo uso de malhas que não recorrem a algodão ou plástico, com o objetivo de preservar os recursos naturais do planeta, focando-se principalmente na poupança da água, asseverou que «quando falamos de sustentabilidade e observamos o panorama para lá do produto, temos não só de repensar na forma como as peças são produzidas [agora], como também no modo como se desenvolveram nos anos anteriores e perceber por que motivo o problema não foi resolvido previamente». Azimi defendeu que, em vez do produto, «precisamos de colocar as pessoas em primeiro lugar» e colaborar com o consumidor, para abordar de forma mais eficiente esta temática.

Ricardo Garay

Já Ricardo Garay, coordenador internacional de projeto na empresa Circular Systems, destacou a coincidência de que a 5 de dezembro se festeje o “Dia do Solo”. Dedicada ao desenvolvimento de tecnologias circulares e regenerativas que transformam o desperdício em produtos têxteis, desde a fibra, fio aos tecidos, a Circular Systems recorre a três plataformas distintas: Agraloop, Texloop e Orbital. Enquanto líder do projeto Agraloop, Ricardo Garay acredita que «os sistemas regenerativos começam no solo» e «se percebermos o suficiente sobre sistemas agrícolas e sobre processamento agrícola, podemos alterar totalmente as abordagens atuais aos químicos, para aplicarmos uma melhor eficiência e sustentabilidade aos sistemas de cultivo».

De regresso à Península Ibérica

Manuel Lopez Tocci
Ana Tavares

Por sua vez, Manuel Lopez Tocci, diretor de sourcing do El Corte Inglés, abordou a perspetiva do retalho. A estratégia da empresa ao nível da sustentabilidade baseia-se na utilização a 100% de energias renováveis, na colaboração exclusiva com fornecedores que se comprometem ao respeito pelo ambiente e pelos direitos dos trabalhadores, na promoção da economia circular, na oferta de postos de abastecimento para veículos elétricos e no reaproveitamento de vestuário, dispositivos eletrónicos, brinquedos e livros usados.

Passando a palavra à indústria portuguesa, Ana Silva Tavares, diretora de sustentabilidade da Tintex, enumerou três grandes projetos da empresa, que a diferenciam e garantem a oferta de valor acrescentado: tingimento natural, TexBoost e TexBion.

Daniel Mota Pinto
Patrícia Ferreira

Por seu lado, Daniel Mota Pinto, diretor de estratégia e desenvolvimento de negócio da Scoop, revelou que a empresa assenta em três pilares, entre os quais está a inovação e sustentabilidade. Neste sentido, a produtora de vestuário está a desenvolver um projeto de cariz social, denominado Blue Soul, que se baseia na recolha de peças de denim usadas para as transformar em «peças únicas produzidas de forma ética e justa», cujo lucro reverte integralmente para comunidades indígenas, adiantou.

Isabel Domingues

Patrícia Ferreira subiu ao palco enquanto business developer da Valérius. Ao longo dos últimos quatro anos, a empresa tem vindo a investir na sustentabilidade, através de um projeto de reciclagem que se baseia na recolha de peças já usadas dos seus clientes, instituições ou parcerias, que depois são transformadas em artigos têxteis. Isabel Domingues, responsável pelo departamento de sustentabilidade da Riopele, afiançou que a empresa está atenta não só às exigências ambientais, nomeadamente ao nível da reciclagem do poliéster – a matéria-prima que mais utiliza –, como também às condições laborais, apoiando o desenvolvimento de competências de formação e a retenção da mão de obra. No futuro, prevê «continuar a apostar no design para a circularidade», «instalar mais painéis fotovoltaicos», bem como proceder ao «reaproveitamento de vantagens estruturais» e à criação de «embalagens mais sustentáveis», enumerou Isabel Domingues.

Braz Costa

Braz Costa, diretor-geral do CITEVE, encerrou esta sessão com uma análise da situação atual da ITV nacional neste domínio. «Portugal tem um track-record de anos de preocupação com esta questão, de trabalho quer nas universidades, quer nos centros tecnológicos, e muitas das soluções desenvolvidas e encontradas não venderam antes, mas preparam o país para reagir no momento certo. E isso é extremamente importante», sublinhou.

Sustentabilidade no longo-prazo

Luís Palma da Graça
Cesár Araújo

Luís Palma da Graça ofereceu ao público a perspetiva do acionista. De facto, o diretor de desenvolvimento da Vallis Capital Partners considera que «vemos a sustentabilidade de uma forma abrangente sobretudo como uma oportunidade de negócio, no sentido em que pressões demográficas, ambientais e económicas conduzem a oportunidades para as organizações e as empresas que têm essa capacidade de olhar para o desafio».

O presidente da ANIVEC, César Araújo, deu por encerrado o debate, concluindo que «a sustentabilidade ambiental já não é uma questão de opção ou de oportunidade para a indústria da moda. Trata-se sim de uma realidade incontornável para quem quer fazer negócios no mercado global e cada vez mais as opções de compra são ditadas pela consciência ambiental dos consumidores».