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Moda homem em ebulição

Numa altura em que a tendência do minimalismo já atingiu as massas, um movimento orientado para o maximalismo, design arrojado e silhuetas exageradas, influenciado pela rebelião das subculturas jovens, tem vindo a ganhar força na moda homem.

Nas últimas estações, as mensagens provocadoras e com preocupações sociais conquistaram os coordenados de um consumidor em busca de roupa com significado, uma tendência especialmente relevante para os membros da Geração Z, segundo o portal WGSN. As preocupações estéticas são aqui colocadas em segundo plano.

A influência do punk

Um recente editorial da revista cultural StyleZeitgeist discutiu a ascensão de uma estética pouco ou nada atrativa como tendência. O autor Eugene Rabkin batizou ali o fenómeno de «estética da fealdade».

De acordo com os especialistas, este movimento antiestético recupera o universo criativo de designers como Rei Kawakubo da Comme des Garçons (que será homenageada com uma exposição retrospetiva no Costume Institute no próximo ano), Jun Takahashi da Undercover ou Rick Owens.

O minimalismo tradicional passa então a contrastar com uma atitude punk e grotesca no vestuário – masculino, sobretudo. Alessandro Michele, diretor criativo da Gucci, é um dos designers atuais que mais pende para o movimento punk britânico, usando-o como inspiração para a recente coleção cruise 2017. «Adoro a estética inglesa, de certa forma sinto que se aproxima da minha, de um caos belo, é uma mistura poderosa do passado e do presente», afirma o designer.

Viabilidade comercial

Ainda que esta direção estética seja arriscada, teve um reflexo positivo nos negócios do grupo de luxo Kering. O relatório do terceiro trimestre destacou o apelo comercial das ofertas de Alessandro Michele na Gucci, que apresenta um aumento de receita total na ordem dos 17%, de 19% nas lojas Gucci e de 50% no comércio eletrónico.

Já a recente colaboração da Kenzo – rica em estampados animais e cores fortes – com a H&M foi tão procurada que o seu lançamento fez com que o website da retalhista sueca ficasse em baixo (ver Os rugidos culturais da Kenzo).

Outro exemplo vem da marca de vestuário e calçado desportivo Puma (também do Kering), que reportou um terceiro trimestre forte, alavancado pela última coleção da Fenty – que inclui casacos de pelo oversized e silhuetas exageradas –, desenvolvida em colaboração com a cantora Rihanna. Mais do que isso, as sapatilhas “The Creeper”, fruto da parceria, ganharam o prémio de “Sapato do ano” do portal da especialidade Footwear News (ver O mundo aos pés de Rihanna). «A moda e o desporto estão a fundir-se num grande negócio», assevera o CEO da Puma, Bjørn Gulden, em declarações ao Bloomberg.

Líderes de pensamento

Em Londres, os designers Craig Green e JW Anderson estão na linha da frente da roupa desajustada, através de uma mistura de detalhes de design, como rendas e alças em silhuetas de roupa de trabalho. Ao jogar com as proporções, Green e Anderson vão subvertendo as noções tradicionais de vestuário masculino.

Há bem mais tempo, também a nipónica Rei Kawakubo ficou conhecida pelas suas silhuetas desproporcionais, bem como por nunca visitar os seus arquivos, a fim de promover uma constante sensação de novidade. Hoje, Kawakubo influencia uma nova safra de marcas chinesas e coreanas com estética disruptiva.

A questão da China

Na China, uma classe média e com rendimento disponível em expansão tem vindo a multiplicar homens com guarda-roupas mais expressivos. As principais marcas chinesas que atendem a esta estética, como a Sankuanz, a Staff Only e a Feng Cheng Wang, têm capitalizado sobre o novo apetite por menswear “cool” e avant-garde.

Porém, num mercado emergente com um consumidor em rápida evolução e cada vez mais exigente, as marcas de luxo internacionais têm vindo a perder terreno face às domésticas, com os consumidores a escolherem apoiar a moda florescente chinesa. «Os consumidores procuram mais os jovens designers em vez das grandes marcas porque querem expressar o seu estilo pessoal», explica Siying Qu, codesigner da Private Policy, uma marca sediada em Nova Iorque que produz na China e acaba de entrar no mercado chinês.

O peso da Internet

Os millennials, segmento de consumidores que prefere gastar dinheiro com experiências em vez de bens materiais, procuram algo mais do que apenas uma ligação passageira com as roupas que vestem. Para estes, afiança o WWD, «as compras de luxo são uma experiência». O portal acrescenta que «a cada minuto, as plataformas digitais estão a criar novas experiências interativas».

Na verdade, plataformas digitais como o VFiles funcionam como incubadora de marcas emergentes, promovendo a interseção das subculturas jovens. Em Nova Iorque, o desfile de moda sazonal da VFiles, por exemplo, conta com designers selecionados pela comunidade.

A Geração Z

Este grupo de consumidores – nascido depois de 1995 – sempre esteve relacionado com a paisagem digital (ver À conquista da geração Z). «A sua vida, se não puder ser partilhada, não aconteceu», esclarece Marcie Merriman, diretora executiva de estratégia de crescimento e inovação no retalho da Ernst & Young.

Encontrar uma identidade através da moda é também de extrema importância para esta geração. «Os jovens atuais preferem expressar o seu estilo em vez de imitarem um código aceite pelos pares», acredita Rob Callender, diretor de insights jovens da Futures Company. Por esse motivo, não existe uma tendência agregadora para os membros da Z, mas diferentes tribos de estilo.