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Moda investe na agricultura regenerativa

A agricultura regenerativa está a conquistar cada vez mais adeptas entre as marcas de moda com objetivo comum: reverter as mudanças climáticas. As matérias-primas ganham, assim, especial atenção na tentativa de diminuir a pegada ambiental ao longo de toda a cadeia de aprovisionamento.

[©Christy Dawn]

Nos últimos 40 anos, a indústria da moda, avaliada em de 1,3 mil milhões de dólares (1,07 mil milhões de euros), criou uma vasta cadeia de fábricas para a produção de vestuário, mas poucas são as marcas que se deslocam às plantações onde as matérias-primas são cultivadas, embora esta prática mostre sinais de mudanças.

Com a meta de reduzir o impacto ambiental, as marcas estão a repensar a forma como as matérias-primas são obtidas, tendo em conta que vários estudos afirmam que a maioria das emissões dos gases de efeito de estuda e o uso da água acontecem nas primeiras etapas da cadeia produtiva. A Allbirds, Timberland, Mara Hoffman, Christy Dawn, e Kering estão na crescente lista de atores da moda que estão a investir na agricultura regenerativa, adotando métodos agrícolas mais ecológicos, que podem reverter as mudanças climáticas, aumentar a biodiversidade e melhorar a saúde dos solos.

Impactos à escala industrial

A agricultura industrial está a ter impactos negativos no planeta, uma vez que a produção de matérias-primas a nível mundial aplica técnicas rentáveis, mas não do ponto de vista ambiental. «As marcas e os consumidores estão agora completamente separados da origem das suas roupas», afirma, à Fast Company, Rebecca Burgess, diretora-executiva da Fibershed, uma organização sem fins lucrativos fundada em 2010 para desenvolver sistemas de fibras regenerativas para a indústria da moda.

Tudo isto se traduz num preço a pagar para o planeta, com os especialistas a preverem que a agricultura industrial seja responsável por cerca de 30% das emissões globais de carbono, 70% do uso da água doce e 60% da perda de biodiversidade. As terras agrícolas do globo estão tão esgotadas que as Nações Unidas consideram que falta somente 60 períodos de crescimento até que o solo mundial não produza mais colheitas.

[©Timberland]
A agricultura regenerativa surge precisamente para reverter este cenário com práticas que rejuvenescem o solo, mantendo-o saudável. «O nosso objetivo é fundamentalmente melhorar a saúde do solo. Isso torna as plantações mais saudáveis, o que acaba por melhorar o lucro da quinta», explica Jeff Tkach, diretor de impacto do Rodale Institute.

Com as mudanças climáticas, a agricultura regenerativa ganha outra relevância, podendo capturar carbono ativamente, já que, com a fotossíntese, as plantas absorvem o CO2 da atmosfera, convertendo-o eventualmente num mineral sólido para o solo, através das raízes, o que reduz por sua vez as emissões de dióxido de carbono para a atmosfera. «Com os métodos regenerativos, os nossos solos podem tornar-se reservatórios de carbono», sublinha Tkach.

Nas últimas duas décadas, a agricultura regenerativa tem sido muito utilizada na indústria alimentar graças a players como a General Mills, a Danone e Nestlé, que adotaram este tipo de prática mais sustentável. Já na indústria da moda, este conceito só começou a ganhar popularidade nos últimos cinco anos, segundo o diretor de impacto do Rodale Institute. «A indústria da moda sempre foi boa em definir tendências. Há um movimento crescente à volta da agricultura na moda que pode tornar o solo apelativo», garante.

A Patagonia tem sido uma das empresas mais ativas do mundo da moda no que diz respeito à agricultura regenerativa, tendo-se associado à Rodale para repensar a cadeia de aprovisionamento. A marca trabalhou com 150 produtores de algodão indianos em 2018 e atualmente coopera com dois mil produtores em quatro mil acres. «Nos últimos cinco anos, a missão da Patagonia mudou. Não estamos apenas interessados ​​em causar menos danos, estamos focados em tentar fazer o bem», revela Helena Barbour, vice-presidente global de sportswear e líder do programa em questão.

A Timberland anunciou recentemente a construção de uma cadeia de aprovisionamento de borracha regenerativa na Tailândia, que irá cultivar várias espécies de árvores para simular um ecossistema de floresta natural. A borracha será testada nos produtos em 2023 e poderá permitir que outras marcas tenham acesso a este material.

A Allbirds, por sua vez, estabeleceu a meta de toda a lã da cadeia de aprovisionamento provir de fontes regenerativas até 2025, enquanto o grupo de luxo Kering lançou um fundo regenerativo com a Conservation International e planeia converter um milhão de hectares de terras agrícolas produtoras de matéria-prima para métodos de agricultura regenerativa dentro de cinco anos.

Métodos antigos para progredir

Criar uma cadeia de aprovisionamento totalmente nova é assustador mas, mesmo assim, marcas pequenas estão a assumir riscos. A Christy Dawn passou dois anos a desenvolver a primeira coleção “farm-to-closet”.

[©Christy Dawn]
Quando, em 2013, os fundadores Christy e Aras Baskauskas lançaram a marca, tinham pouco conhecimento sobre a origem das matérias-primas e, em 2019, decidiram começar a explorar a agricultura regenerativa. Sem experiência na área, celebraram uma parceria com a Oshadi, um coletivo de agricultura regenerativa indígena que os ajudou a arrendar quatro acres de terra na cidade de Erode, no sul da Índia, que tinha ficado esgotada após décadas de superprodução e uso de pesticidas. Para fazer a reposição dos solos, a marca pagou três vezes mais o salário base aos agricultores, para utilizarem técnicas tradicionais como a compostagem para fertilizar o solo, aumentando a biodiversidade. «Descobrimos que a agricultura regenerativa não é nada de novo. É apenas voltar aos métodos antigos de cultivo, que foram passados ​​de geração em geração», destaca Aras Baskauskas, CEO da empresa.

Com esta pequena plantação de algodão, a insígnia de Los Angels recorreu aos parceiros da Oshadi para criar o tecido que posteriormente importaram para a fábrica no centro da cidade. Nesta primavera, a Christy Dawn conseguiu lançar a primeira coleção com esse algodão, uma proposta constituída por 54 vestidos floridos, servindo apenas como um teste. Com esse feito, a marca quis mais 70 acres de solo na mesma região para aumentar o volume de algodão regenerativo, com o objetivo de fazerem uma colheita completamente de fontes regenerativas. «Essa abordagem traz mais riscos, porque uma seca pode acabar com a nossa colheita. Porém, achamos que é justo que as marcas ajudem a arcar com esse risco, em vez de colocar tudo nos agricultores», justifica o CEO.

Futuro com vida

Apesar da agricultura regenerativa ser cada vez mais uma opção para a indústria de moda, nenhuma das marcas que já fizeram projetos neste âmbito foi capaz de expandir o respetivo programa. «Poucas marcas falam abertamente sobre quanto da sua linha de produtos é regenerativa. A minha suspeita é que ainda é uma parte muito pequena», admite Rebecca Burgess da Fibershed.

A falta de consistência nas normas, até para o próprio significado da palavra regenerativa, prejudica também a expansão do conceito. «Existem tantas interpretações diferentes do vocábulo. A nossa estratégia tem sido trabalhar em estreita colaboração com especialistas do Instituto Savory que estabeleceram programas, enquanto deixamos espaço para interpretar essas normas com base nos agricultores com quem estamos a trabalhar», esclarece Hana Kajimura, chefe de sustentabilidade da Allbirds.

[©Allbirds]
Mesmo com todos estes obstáculos, as organizações de agricultura regenerativa estão focadas em criar normas para o sector. A Fibershed, por exemplo, está a criar uma rede de cultivo regenerativo para ajudar marcas como a Mara Hoffman e a North Face na obtenção de fibras. O Savory Institute estabeleceu diretrizes que ajudam os agricultores na transição para a agricultura regenerativa. «Ampliámos uma forma de medir os mesmos resultados ambientais em cada plantação, desde a saúde do solo até à captação de carbono, uso da água e biodiversidade. Se vamos consertar isto, precisamos de medir de forma consistente e holística, mais do que uma única variável», indica Bobby Gill, diretor de desenvolvimento e comunicações do Savory Institute.

Em 2017, o Rodale Institute lançou o programa Regenerative Organic Certified para começar a criar uma norma oficial para o sector, com base na etiqueta “certified organic” da USDA, adicionando requisitos da saúde do solo, do bem-estar animal e dos direitos humanos. A Patagonia está, atualmente, a testar este modelo e a Barbour diz que estas práticas regenerativas se verificaram primeiramente nos cultivos na Índia, sentindo-se, por isso, encorajada pela rapidez com que as terras secas e danificadas ganharam vida. «Essas plantações ancestrais são agora lugares com uma bela biodiversidade. Não apenas com fileiras retas de algodão, mas com muitas colheitas, pássaros e árvores. Esperamos que muitas outras marcas se juntem a nós nesta jornada, porque não podemos fazer isto sozinhos», resume a marca.