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Moda lenta em aceleração

Cunhado pela consultora de design Kate Fletcher, o termo “slow fashion” não engloba apenas o vestuário sustentável, possui uma visão mais ampla, envolvendo a sensibilização dos consumidores em todo o processo, desde a conceção à produção, passando pela utilização e, em seguida, a reutilização. Segundo Anusha Couttigane, analista da Conlumino, existe um argumento válido para a “slow fashion” e um esforço concertado de um grupo de indivíduos que estão a tentar incentivar o investimento em vestuário capaz de resistir ao teste do tempo. «Há uma espécie de equívoco de que o rótulo “moda sustentável” aplica-se apenas aos métodos envolvidos na fabricação, por exemplo, usando recursos que são adquiridos sem causar danos para a economia ou o ecossistema locais. Sou da opinião de que o termo deve também aplicar-se a produtos de moda de alta qualidade, que efetivamente podem custar muito mais do que a oferta encontrada no retalho em geral mas que, em última análise, irão durar muito mais tempo», sustenta Couttigane. Entre as marcas americanas que fazem parte do movimento de moda lenta incluem-se a Lily Ashwell, Carrie Parry, Pendleton e Zady. Maxine Bedat, cofundadora da Zady, explica a forma como interpreta o movimento “slow fashion”: «Para nós, a “slow fashion” surgiu efetivamente do movimento “slow food”, em que o consumidor em geral está agora a tornar-se mais ponderado sobre as suas compras e a perguntar “porque” e “como”. Como é o produto feito e o que significa isso para mim e para os meus valores? Estamos a presenciar muitos consumidores orientados para o valor a dar um passo atrás e a questionar: será um bom negócio porque é barato ou será um bom negócio porque é uma peça muito bem-feita e que vai durar?» Outros empresários da “slow fashion” incluem a atriz Olivia Wilde e a diretora criativa Barbara “Babs” Burchfield, que cofundaram a Conscious Commerce, bem como a ex-editora-chefe da Vogue.com, Abigail Chisman, com a criação da loja popup Designer Jumble Sale. Anusha Couttigane refere que «embora a moda de designer seja frequentemente considerada como elitista e proibitiva para a bolsa média, Chisman destaca o número de horas-homem envolvidas para produzir de forma cuidadosa os produtos de designer, um processo que justifica o preço pela qualidade resultante». No entanto também parece que o movimento “slow fashion” pode ter uma batalha a travar se quiser igualar o sucesso do “fast fashion”. Um relatório da empresa de pesquisa de mercado Mintel, publicado em abril, constatou que mais de 20% dos consumidores americanos compraram roupas numa loja de “fast fashion” no ano passado, acima dos 14% verificados há quatro anos. A analista da Conlumino sugere que a aceitação relativamente lenta do movimento “slow fashion” pode ter algo a ver com a cultura do consumo, defendendo que a transição do volume para o valor nos hábitos de compras requere muito mais atenção no marketing, nos media e na educação para ser possível transmitir a mensagem. Na realidade, o movimento “slow fashion” deve incentivar o conhecimento sobre o impacto da indústria do vestuário no ambiente e abrandar a cadeia de aprovisionamento para reduzir o número de tendências e estações. Isto, por sua vez, poderá promover uma melhor qualidade na fabricação dos produtos, bem como a utilização de tecidos produzidos de forma mais sustentável, em última análise, removendo a imagem de descartabilidade da moda. Embora tenha havido uma polarização entre o mercado de luxo e o mercado de valor nos últimos anos, Couttigane acredita que o movimento “slow fashion” poderá ser uma oportunidade real para o mercado de segmento médio. «Atores como Next, cuja proposta está no ponto superior do mercado intermédio, já afirmaram que a melhoria das economias como na Índia, de onde muitas das suas linhas são provenientes, significando que os fabricantes estrangeiros estão agora em condições de oferecer produtos de melhor qualidade, e isso traduz que os atores no mercado intermédio são capazes de fazer exigências mais sofisticadas aos seus fornecedores», acrescenta a analista da Conlumino. A “slow fashion”, em todas as suas formas, é obviamente a refutação dos excessos que caraterizam a “fast fashion”. Mas, embora o crescimento desta dinâmica possa levar a um aumento dos preços no retalho, Anusha Couttigane acredita que este aumento terá lugar num momento em que a inflação também será o resultado natural da recuperação económica, em linha com os aumentos salariais e melhores condições de crédito. «Isto significa que um certo nível de moda sustentável será disponibilizado a consumidores com um nível acrescido de poder de compra», conclui.