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Moda no meio da guerra comercial

A escalada de taxas à importação de produtos tanto nos EUA como na China está já a refletir-se no mercado. As mais recentes ameaças por parte dos dois países deverão ter implicações para a indústria da moda e influenciar os preços para os americanos comuns mas também para os consumidores de artigos de luxo na China.

As novas taxas que o presidente Donald Trump propôs de até 25% sobre produtos que atualmente representam 300 mil milhões de dólares, incluindo vestuário e calçado, deverão entrar em vigor no dia 2 de setembro, o Dia do Trabalhador nos EUA, e vão afetar as vendas na época de regresso às aulas e de Natal.

Embora a lista de produtos visados tenha sido publicada no início da semana, a imposição de taxas está ainda sujeita a um período de consulta pública, estando agendada uma audiência para 17 de junho.

Chris Krueger, estratega em Washington da Cowen & Co, sublinha, citado pelo Sourcing Journal que até agora o efeito da guerra comercial no crescimento dos EUA parece modesto, mas avançar para um aumento de 25% pode aumentar o potencial para efeitos no PIB e na inflação a prazo.

Matthew Shay, presidente e diretor-executivo da National Retail Federation, afirmou numa entrevista à CNBC que «os retalhistas fizeram tudo o que podiam até agora, mas quando chegarmos a 25% nesta última quarta tranche, se formos por aí… Vai ser difícil para qualquer retalhista no país evitar passar os aumentos dos preços para os consumidores». Shay acrescentou que «não há alavancagem suficiente e espaço de manobra para isso».

John Kernan, analista na Cowen & Co, destaca que a China é a maior fornecedora de vestuário, com 34%, e de calçado, com 71%, e acredita que uma taxa de 25% vai criar uma enorme disrupção no sector da moda.

Aumento reflete-se na Bolsa

Empresas como a Skechers, G-III Apparel Group, PVH Corp e Ralph Lauren Corp terão «um enorme risco nos lucros por ação». De acordo com Kernan, que cita declarações das empresas em conferências com os analistas e os documentos apresentados à Comissão de Títulos e Câmbios dos EUA, a Skechers aprovisiona-se na maioria na China, a G-III compra grande parte dos seus produtos no Império do Meio e a PVH importou para os EUA 400 milhões de dólares de produtos feitos no país asiático. A Deckers e a Ralph Lauren enfrentam «as dificuldades financeiras mais significativas na nossa perspetiva», indica Kernan, sublinhando que a Lululemon, a VF Corp, retalhistas de descontos, Adidas e Puma são os que estão mais isolados.

Skechers

As ações da G-III e da Ralph Lauren foram particularmente afetadas no início desta semana, assim com as da Deckers e da Skechers, com os investidores a reagirem à retaliação da China, que impôs uma taxa de até 25% sobre 60 mil milhões de dólares de importações americanas para o país.

As ações da maior parte dos retalhistas também partilharam um destino semelhante na sessão da Bolsa de Valores de segunda-feira, 13 de maio. E embora a maior parte das ações ligadas ao vestuário e ao retalho tenham recuperado algumas dessas perdas no dia seguinte, as ações da G-III e da Ralph Lauren perderam mais, tendo fechado com quebras de 4,2% e 3,8%, respetivamente.

Natal em risco

Oliver Chen, colega de Kernan, destaca que os fatores ligados ao planeamento da oferta e da procura deverão ter impacto nas épocas de vendas do regresso às aulas e do Natal, eventos importantes para o calendário do retalho. «Os retalhistas com maior exposição aos fornecedores, movimentação mais lenta de inventários e uma maior escala podem ter mais tempo para negociar as mudanças», aponta.

Tanto para John Kernan como para Oliver Chen, os principais problemas para as empresas de vestuário e retalho estão ligados à percentagem de bens aprovisionados na China, que parte dos custos podem ser absorvidos pelos parceiros produtores chineses, a reação dos consumidores aos aumentos de preço e quão rapidamente as empresas podem mover a produção para fora da China. Há ainda um fator não ligado às taxas, que tem a ver com disrupções relacionadas, que podem surgir, como inspeções forçadas ou atrasos nos envios.

De acordo com Kernan, uma coisa é clara e isso é que há «pouca capacidade noutras regiões para uma migração massiva do sourcing da China», além de que se espera que os custos da cadeia de aprovisionamento continuem a subir globalmente. O que permanece como a grande incerteza é como o consumidor vai reagir à inflação dos preços, provavelmente já na época de Natal deste ano.

JC Penney

Chen indica que entre os retalhistas, o Walmart e a Costco Wholesale Corp deverão sentir o menor impacto do aumento das taxas, sobretudo porque têm uma componente de mercearia maior, com 56% e 55% do mix de produtos, respetivamente. Isso coloca os retalhistas especializados e o seu reduzido mix de produtos, como a Gap, a American Eagle Outfitters e a J. Jill, a numa zona de maior risco.

É um argumento que favorece os retalhistas que vendem bens básicos de consumo e prejudica as categorias de consumo discricionário. Isso significa que os retalhistas nesta última categoria, como os que vendem vestuário, que têm uma proporção maior de produtos de marca própria podem ser mais afetados pelas taxas, porque fazem mais sourcing direto. A Gap, por exemplo, faz 20% do seu aprovisionamento na China, de acordo com Chen.

Outros neste universo que enfrentam este problema incluem a American Eagle, a Limited Brands e a J. Jill, em termos verticais. Retalhistas multimarca devem sentir menos impacto, como a Macy’s e a Nordstrom. Mas o oposto pode ser verdade para a JC Penney e a Kohl’s, ambas com grandes operações de marca própria, com 46% e 39%, respetivamente.

Luxo não escapa

Embora haja uma forte ênfase em qual será o impacto para as empresas americanas quando as novas taxas sobre as importações chinesas forem implementadas, em setembro, o impacto das taxas retaliatórias chinesas sobre as exportações americanas é também relevante, sendo que estas serão implementadas já a 1 de junho.

Chen acredita que se as tensões entre os EUA e a China continuarem a escalar, as taxas sobre os bens americanos impostas pelo governo chinês podem levar a vendas mais baixas na China para algumas empresas, com as empresas de luxo a terem a maior exposição na China e junto dos consumidores chineses.

«Perspetivamos que, à medida que a guerra comercial escalar, as marcas americanas de luxo podem também perder a sua relevância e desejabilidade com a mudança no sentimento do consumidor, que irá colocar em maior risco a Tiffany, a Tapestry e a Capri», aponta o analista.

O maior mercado internacional da Tapestry é a China, onde a marca Coach tem uma presença significativa. A empresa está ainda a construir a distribuição para as marcas Kate Spade e a Stuart Weitzman.

A Capri, por seu lado, detém a Michael Kors, a Jimmy Choo e a Versace. Das três, a marca Michael Kors tem a maior presença na China.

Michael Kors