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Moda nos subúrbios

Aubervilliers é um subúrbio parisiense de classe-trabalhadora mas as fachadas das suas ruas revelam que é, também, a capital europeia do “Made in China”, onde comerciantes de origem chinesa inauguraram recentemente o maior centro de vestuário do Velho Continente.

Nesta cidade, situada no limite norte da capital francesa, fixaram-se várias gerações de chineses, emigrantes no país e descentes, criando um vasto centro de comércio de moda.

Os compradores mais astutos encontram fatos pronto-a-vestir de talha moderna por apenas 40 euros ou um conjunto de meias baratas no supermercado, enquanto uma banca em frente à loja vende sapatilhas.

«Aqui é possível encontrar tudo a qualquer preço», afirma Min, funcionário de um desses espaços comerciais, chegado da China há seis anos. «As pessoas vêm de toda a Europa», acrescenta. Ele próprio enverga um par de jeans modernos e um casado de penas. «Isto é internacional», diz.

Quando o novo Centro de Moda, cuja criação deverá gerar mais postos de trabalho, foi inaugurado oficialmente no final do mês de março, tornou-se o maior mercado do seu género na Europa, superando um outro similar, sediado em Düsseldorf, na Alemanha.

«Aubervilliers tornou-se um dos mais importantes espaços de negócio e comércio com a China na Europa», reconhece o Presidente da Câmara local, Pascal Beaudet. «Por isso, precisámos de nos organizar de acordo e foi isso que fizemos».

Uma nova realidade
«Para aqueles que trabalham na indústria do vestuário, Aubervilliers é indispensável», considera Gaetan Le Gorre, vendedor de vestuário em mercados de rua, que se dirige «pelo menos uma vez por semana» a esta zona, que batizou «Chinatown do pronto-a-vestir».

Centenas de grossistas disponibilizam uma vasta oferta de têxteis, cores e padrões neste amplo bairro dos subúrbios parisienses. «Por trás de cada loja, existe uma equipa», refere Pascal, um jovem francês de origem chinesa que herdou, recentemente, o negócio dos pais. «Voltamo-nos para os designers de moda franceses como forma de satisfazer uma clientela ocidental», explica.

Quase todos os negócios de família são geridos por emigrantes originários da região de Wenzhou, uma cidade do sudeste da China onde a emigração é uma tradição fortemente enraizada. Com a fixação dos primeiros emigrantes em Aubervilliers nos anos 2000, vários outros se seguiram, revela o Presidente de Câmara Beaudet.

Somando 1.200 comerciantes de origem chinesa, excluindo empregados como Min, Aubervilliers tornou-se o principal e maior cruzamento entre a França e a China. «Existe uma nova geração de homens de negócios, que são franceses de origem chinesa e que falam francês», observa Beaudet. «É uma nova realidade e naturalmente é interessante para a cidade e para os seus residentes».

Os reis de Aubervilliers
Os pioneiros estabeleceram-se em França anos antes, relata Richard Baraha, um especialista na comunidade chinesa da região de Paris. Numa fase inicial, não estavam legalizados mas encontraram trabalho, legalizaram depois a sua presença e, gradualmente, economizaram o suficiente para se dedicarem ao negócio grossista.

Um deles, Hsueh Sheng Wang, construiu um império de vestuário e é hoje conhecido como o «rei de Aubervilliers». É proprietário de dezenas de lojas na cidade mas ganhou reconhecimento em 2011 quando adquiriu uma elevada percentagem do porto francês na região nortenha de Le Havre, um centro nacional do comércio marítimo com a Ásia.

Wang e outros sete investidores de origem chinesa estão na base da criação do Centro de Moda, atualmente o maior mercado grossista de têxteis, com mais de 310 lojas e 55.000 metros quadrados em Aubervilliers. O Centro tem como objetivo atrair compradores de toda a Europa e tornar o comércio de importação e exportação têxtil mais eficiente, consolidando a sua presença numa única localização, explica Wang, que considera o projeto benéfico para a economia francesa.

O Centro de Moda criará «cerca de 2.000 postos de trabalho e não apenas para chineses», indica Victor Hu, parceiro de Wang, que trocou o uniforme da Legião Estrangeira Francesa por um fato e uma gravata depois de um período de serviço que lhe conferiu o direito à cidadania francesa. «Nós construímos um pequeno caminho», afirma Wang. «A nova geração construirá uma autoestrada», conclui.