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Moda: o que é e para quem é?

Noshow de moda de alta-costura de Janeiro em Paris, John Galliano, criador da casa Dior, apresentou as suas manequins na passerelle como princesas faraónicas douradas, com vestidos que se estendem até ao pescoço e com as caras mascaradas. Emanuel Ungaro escolheu inundar o ambiente de ondas de cor, micro mini-saias, colares e véus que tornariam sentar-se num táxi ou almoçar fisicamente impossível. Donatella Versace apresentou vestidos próprios para uma diva dorock – todos com orificios que revelam a pele e franjas brilhantes, mas muito pouco adequados para raparigas normais que viajam de comboio todos os dias.

É fácil encontrar um preconceito masculinoanti-fashion. De acordo com Bob Kerrey, antigo senador do Nebraska, «eu via a moda mais como uma actividade frívola – mulheres bonitas desfilando pela passerelle com roupas que ninguém pode vestir». No entanto, Kerrey mudou a sua opinião quando se tornou presidente há três anos atrás daNew York’s New School University, que inclui aParsons School of Design, de onde emergem muitos dos designers da indústria americana de moda. Actualmente a sua opinião é totalmente diferente, «a moda é um negócio muito sério»: é o terceiro maior empregador em Nova York depois dos serviços de saúde e finanças. É a fonte de sobrevivência de muita da indústria da publicidade, tem um papel vital no retalho e num mundo de negócios competitivo é politicamente sensível.

Então porquê o preconceito? Uma das respostas possíveis é que parece absurdo pagar várias centenas de dólares por umat-shirt de algodão com o nome de umdesigner quando uma peça de vestuário virtualmente idêntica pode ser comprada num supermercado por apenas 10 dólares. O mesmo pode acontecer com umbikini, vendido a 300 dólares, mas tão pequeno que não serviria para fazer um lenço. Estas compras parecem atitudes de puro desperdício de dinheiro em luxo desnecessário, dinheiro que poderia ser doado a uma causa de caridade. Outra resposta, considerando a última colecção de Galliano, é que as roupas se aproximam muito do ridículo. Nenhuma mulher irá para a rua parecendo que acabou de sair de um túmulo do antigo Egipto. Poucas mulheres para além da Madonna usaram o sutiã cónico com aplicações de metal desenhado por Jean Paul Gaultier em 1990. Tanto Galliano como Gaultier são capazes de criar roupa vestível, portanto a ideia deve ser fazer publicidade. No entanto, esta atitude serve apenas para agravar a opinião desfavorável dos que criticam a moda.

Sem fuga

Poderá ainda haver uma terceira resposta: um ressentimento de que todos nós somosfashion victims. Citando Shakespeare, «as roupas fazem o homem» e de facto o que usamos tem importância. A parisiense que passeia pela Avenida Montaigne no seu casacoMoschino, na sua saia Christian Lacroix e com os seus sapatos Manolo Blahnik é identificada com um determinado grupo. O mesmo acontece com o homem de negócios londrino que corre apressado por Pall Mall: a sua moda é o fato ás riscas e uma horrível gravata tradicional. A diferença é que a parisiense segue um ciclo de moda que muda com a estação, enquanto o ciclo do britânico muda apenas de década em década e os inovadores não são bem recebidos.

O paradoxo que daqui se pode retirar é que a moda, por definição efémera, está sempre connosco. Nos anos noventa os jovens negros, primeiro na América e depois na Europa, arregaçavam uma das pernas das calças para aparentemente simbolizar as correntes que os seus ancestrais tinham de usar – esta atitude demonstrava a identidade colectiva de um grupo. Actualmente, os adolescentes insistem em usar calças de ganga extra-largas com a cinta quase ao nível dos joelhos. As adolescentes usam calças de cinta descida lembrando osjeans doshippies dos anos 60. No entanto, o mero facto de estas modas estarem tão difundidas significa que estão prestes a desaparecer. No mundo da moda nada é para ficar.

Então o que inclui exactamente o conceito de moda ?

Os consumidores mais velhos pensam em vestuário lembrando-se do tempo em que Lacroix ditava o comprimento a usar na próxima época. Os consumidores mais jovens têm uma definição muito mais lata: o que está“in” não inclui só vestuário, mas também música. Encontramos um exemplo na transformação de Sean Combs, conhecido como Puff Daddy ou P. Diddy, de cantorhip hop e produtor de discos para um líder de moda atingindo o auge com a etiqueta de vestuárioSean John. 

Os analistas financeiros têm a sua própria visão sobre o assunto. Para alguns, a moda está associado aos bens de luxo, desde a alta-costura de Paris aos produtores de carteiras e sapatos italianos e aos fabricantes de relógios e joalharia suíços – muitos dos quais também produzem os seus perfumes. Para outros, a moda significa um mundo de lojas que se estende de lojasfashion comoLe Bon Marché em Paris a mega-retalhistas como oAmerica’s Target.

Esta sondagem aceita todas estas definições, mas exclui os relógios e a joalharia. Um relógio caro é uma compra bem pensada e que normalmente não é considerada prioritária. Os diamantes, de acordo com o que se diz, são para sempre, o que a moda nunca pode ser. Tem de se renovar perpetuamente para evitar ser aborrecida.

 

(Este artigo é parte integrante de uma sequência de traduções, da qual pode recordaraquia primeira peça)