Início Notícias Marcas

Moda poupa gota a gota

A ameaça iminente de escassez de água nos países onde são produzidas as matérias-primas e produtos inerentes ao mercado da moda pode afetar a sustentabilidade do negócio. Várias empresas do sector não escondem a vontade de reduzir o impacto ambiental e combater a ameaça ao futuro.

Nas últimas semanas, a Levi Strauss tem vindo a estabelecer novos objetivos de sustentabilidade, dirigidos aos fornecedores globais, no sentido de melhorar a gestão da água, através do investimento em países com uma abordagem que concentra um esforço de redução de consumo onde mais é preciso.

Também a PVH Corporation, detentora da Calvin Klein e da Tommy Hilfiger, tem como prioridade a garantia de acesso a água limpa até 2025 nas comunidades fornecedoras que mais sofrem com a escassez, prioridade essa estipulada na sua estratégia de responsabilidade empresarial Foward Fashion.

Para além destas, a Gap e a Arvind Limited juntaram-se para a criação de um novo centro de inovação que se concentra na redução do consumo de água na indústria têxtil.

Este esforço universal está, de resto, consagrado como um dos três pilares no pacto de sustentabilidade, assinado aquando da Cimeira do G7, por 32 dos líderes de moda mundiais e descrito como “Compromisso do Oceano”, que visa combater a poluição do plástico e das microfibras e proteger os lençóis de água dos químicos libertados ao longo do processo de produção.

No entanto, as medidas tomadas pela indústria têxtil podem não ser suficientes para superar esta prolemática, dadas as adversidades acrescidas pelo aumento da população, o consumismo desenfreado e as alterações climáticas.

Gravidade da situação

Segundo a WWF (World Wide Fund for Nature), cerca de 2 mil milhões de pessoas vivem já em áreas em risco de escassez severa, enquanto dois terços da população mundial sofrem já essa seca pelo menos durante um mês em cada ano.

Para o sector têxtil, contudo, as dificuldades ultrapassam as expectativas. Sem falar do facto de a indústria ser, por si só, uma das maiores e mais intensivas consumidoras de água, muitos dos países que constituem as suas fontes de matéria-prima são aqueles que enfrentam as piores secas.

A isto se acresce o facto de as comunidades que vivem nesses lugares correrem sérios riscos de saúde, devido ao acesso inadequado à água potável e saneamento, bem como à falta de educação sobre práticas de higiene.

Usando o exemplo do algodão, temos uma perceção da magnitude das adversidades que enfrenta a indústria têxtil. A WWF estima que são precisos 42 metros quadrados de terra para produzir matéria-prima suficiente para satisfazer o consumo de algodão por pessoa. Uma t-shirt ou um par de calças de ganga corresponde a cerca de 1 quilograma desta matéria-prima que, por sua vez, comporta um consumo de água de 20 mil litros. Aos recursos necessários ao cultivo, há ainda que somar 2,7 mil litros de água por t-shirt gastos ao longo de toda a cadeia de fornecimento e processamento até chegarmos ao resultado final, quantidade essa que corresponde ao que um indivíduo bebe, em média, durante 3 anos.

O algodão é, portanto, uma das matérias-primas que implica uma maior área de cultivo e consumo de água e que, ainda por cima, está presente em cerca de metade dos têxteis produzidos. Os impactos do cultivo estendem-se à degradação do solo, contaminação dos cursos de água e à fragilização dos trabalhadores de campo ou comunidades vizinhas, devido à uso intensivo de pesticidas e fertilizantes.

Ameaças ao futuro

A WWF sustenta que sete dos 10 maiores países produtores de têxteis do mundo – que representam 58% da produção global – enfrentam riscos sérios de escassez de água que podem afetar as suas operações.

Neste cenário, a política governamental revela-se também uma grande problemática. Pelos menos 61% do valor exportado de têxteis e vestuário (o equivalente a 427 mil milhões de euros) provém de países de instabilidade e ineficiência política, cujo controlo está fora do alcance das empresas. Isto significa lacunas relevantes na política de água, na fiscalização e no planeamento e capacidade institucionais para os recursos de água, bem como financiamento insuficiente para investir em infraestruturas.

Laila Petrie, líder dos têxteis e algodão da WWF, afirma que «a prevalência das secas e cheias, das alterações climáticas, do investimento em infraestruturas e das questões de reputação estão a tornar-se cada vez mais um problema, e particularmente a falta de capacidade e de regulação governamentais. Isto não é algo que a indústria consiga controlar por si própria».

Medidas de resposta

A solução da WWF passa por reunir todos os atores para assumir uma responsabilidade coletiva perante os recursos de água partilhados, batizada Water Stewardship.

Desde 2011 que esta associação tem vindo a promover a gestão eficaz da água no sector têxtil, resultando em projetos emblemáticos de empresas como o grupo H&M, a PVH Corp e a Levi Strauss & Co, em diversos países que incluem a China, a índia, o Viename e a Turquia.

Michael Millstein, gestor da Global Policy & Advocacy na Levi Strauss & Co aponta três orientações que motivam o compromisso com a sustentabilidade dos recursos de água: do ponto de vista da eficiência, «quando os fornecedores poupam água, poupam energia, e quando poupam energia, poupam dinheiro, logo, implementando uma política de eficiência da água estão, no final de contas, a reduzir»; «em segundo lugar, é uma jogada de resiliência» – garantir a subsistência dos fornecedores implica incentivar a autossuficiência e o uso eficiente da água – e, por fim, «os consumidores estão cada vez mais conscientes e exigem uma ação progressiva das marcas».

Em última análise, a WWF acredita que as medidas que são aplicadas para além daquilo que está no controlo direto das empresas têm capacidade para dar uma resposta completa à escassez de água na indústria têxtil.

Vietname – Mekong e Dong Nai

No Vietname, a WWF estabeleceu um programa com a HSBC, a Tommy Hilfiger e a Associação de Têxteis e Vestuário do Vietname (VITAS na sigla inglesa) para auxiliar o governo e a indústria na criação e implementação de uma estratégia nacional de têxteis ecológicos, assim como apoiar o diálogo sobre os desafios hídricos nacionais e transfronteiriços e  lidar com os impactos de 100 fábricas têxteis PME, além de criar ferramentas financeiras para ajudar a transformação dos terrenos do país.

Em Mekong e Dong Nai, onde se encontram 62% das fábricas de tecidos e vestuário do Vietname, está em progresso um esforço para tornar as empresas têxteis mais ativas na gestão de recursos e no planeamento da energia sustentável, com o objetivo de enfrentar os desafios ao desenvolvimento de barragens hidroelétricas, à mineração de areia e à sobreexploração de águas subterrâneas.

China – Taihu Lake Basin

O sector têxtil está no centro da economia chinesa com um valor financeiro total de cerca de 1 bilião de euros e exportações que rondaram, o ano passado, os 107,3 mil milhões de euros, segundo a Organização Mundial do Comércio. Em oposição, é o quarto maior consumidor industrial de água do país, contabilizando mais de 3 biliões de litros.

O projeto Taihu Lake Basin é o primeiro a ser implementado pela WWF no âmbito da Water Stewardship e está a operar desde 2011. Nos terrenos do rio Yangtze, a bacia de Taihu reúne uma parte significativa da produção chinesa, que inclui 37% da produção têxtil, bem como mais de 50 parques industriais de nível nacional e regional, 14 das empresas presentes na lista Fortune 500 e centenas de marcas nacionais e internacionais, com quase 10 mil instalações de tingimento e estamparia têxteis.

O objetivo do projeto é melhorar as condições destes terrenos, transformando o sector industrial, a começar pelo têxtil. Até 2030, deverão concretizar-se melhorias ao nível dos ecossistemas de água doce e da política governamental.

Além disso, a WWF também colabora com o grupo H&M, a HSBC e a Tommy Hilfiger para proporcionar formação sobre a administração da água a 10 mil unidades de produção têxtil, implementar uma gestão de água padronizada para parques industriais e trabalhar com os principais departamentos governamentais para apoiar políticas têxteis sustentáveis, a nível nacional.

Turquia – Bacia do Rio Menderes

Na bacia do rio Menderes, na Turquia, é produzido 40% do couro, 60% das exportações têxteis e 14% do algodão do país, resultando em 3,2 mil milhões de exportações anuais.

Reconhecido como uma área importante para as aves e a biodiversidade (IBA na sigla inglesa), esta zona está sob ameaça hídrica extrema. Deste modo, a iniciativa “Métodos de Produção Mais Limpos no Sector Têxtil”, que conta com o apoio do grupo H&M e da Ikea, procura auxiliar as empresas a adotar processos que poupem água, químicos e energia e a reduzir resíduos sólidos e líquidos. O objetivo é servir de modelo para a conservação e sustentabilidade do consumo de recursos hídricos, que pode ser expandido para outras áreas do país.

Até agora, sete fornecedores já se juntaram ao programa, economizando 1,5 milhões de metros cúbicos de água, e outros 12 produtores têxteis com um investimento de 3 milhões de euros esperam a sua oportunidade para colaborar.