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Moda subterrânea vem à tona

Num túnel pedestre escuro e quente por baixo do distrito universitário de Manila, o sapateiro Julies Wilfredo Gregorio cose solas de borracha a um par de botas em pele. O sapateiro de 37 anos tenta fazer cinco pares de sapatos por dia para evitar ser submerso numa pilha de encomendas da sua crescente lista de clientes, fãs de moda mas sem muito dinheiro. Desde que tomou conta da loja do pai, a “Freddie’s Leather Haus”, em 1991, Gregorio ganhou uma torrente estável de clientes locais e estrangeiros, que compram os seus designs que rivalizam com os vendidos nas lojas trendy. «Não é preciso ser uma estrela de cinema rica para ter botas de qualidade e estar na moda», argumenta Gregorio. «Posso criar calçado que irá fazer com que se sinta como uma estrela, apenas é preciso acrescentar a isso um pouco de atitude», acrescenta, apontando para uma fotografia estrategicamente colocada de uma estrela de cinema local a usar um dos seus modelos. Gregorio é um dos impulsionadores da moda subterrânea da capital das Filipinas que tem vindo a operar na semi-legalidade em dois túneis pedestres na avenida Recto, onde é possível encontrar muitas das universidades da cidade. Ao longo das décadas, as suas minúsculas bancadas e cubículos tornaram-se num símbolo do desafio a uma indústria obcecada com marcas conhecidas e ultra-caras usadas pela elite de Manila. A localização estratégica dos túneis ajudou os vendedores de roupa e artesãos especializados a ganhar estatuto de culto entre, sobretudo, os estudantes universitários, com pouco dinheiro mas com um elevado sentido de moda. As lojas vendem de tudo, desde jeans a botas e vestuário em pele, acessórios, como contas e pulseiras, de uniformes escolares a fardas de trabalho e equipamento de desporto a preços acessíveis. Os designs copiados de marcas americanas populares são os eternos best-sellers, embora aqueles que procuram um toque pessoal possam levar os seus próprios desenhos, ao mesmo tempo que a maior parte dos vendedores lhes oferece conceitos vanguardistas. As etiquetas de preço variam entre os 300 e os 400 pesos (cinco a sete euros) por uns jeans, enquanto as botas de couro podem custar até 4.000 pesos (cerca de 64 euros). Nesta altura, os mais vendidos são camisolas de basquetebol coloridas para serem usadas nas ligas de Verão organizadas por diversas instituições desportivas. «Venho cá muitas vezes para comprar as minhas roupas», revela Pauline Banigued, uma estudante de comunicação de 23 anos, ao mesmo tempo que lhe tiram as medidas para uma blusa. «Não é propriamente moda saída das passerelles, mas serve o meu gosto da mesma forma», acrescenta. As lojas começaram a operar ilegalmente nos anos 70, mas a Câmara Municipal há muito que desistiu de os obrigar a sair, permitindo, ao invés, que informalmente permaneçam em troca de pagamentos de electricidade e renda. A indústria subterrânea sobreviveu à globalização e à chegada das marcas estrangeiras vendidas em department stores com ar condicionado e centros comerciais que estão espalhados pela metrópole de 12 milhões de pessoas. Uma poderosa tempestade em 2009, que arrastou Manila para as piores inundações em 40 anos, ameaçou encerrá-la quando os túneis ficaram completamente submersos, mas a procura pelos seus serviços permaneceu elevada e recuperou rapidamente. O alfaiate veterano Ruben Rosal, de 59 anos, começou nos túneis por produzir apenas jeans, mas diversificou ao longo dos anos para responder à procura dos consumidores. «As pessoas vêm ter connosco e pedem-nos para fazer blusas, saias e até uniformes para a escola ou para o trabalho», explica Rosal, entre um ruído distante de motores de carros por cima e com luzes fluorescentes a piscar na sua loja. Rosal aprendeu o seu ofício com o irmão mais velho, Danny, que canalizou a sua criatividade da fotografia para o design de vestuário no final dos anos 70. Baptizaram a sua loja de Crazy Horse Jeans para capitalizar com os westerns que eram moda em Hollywood nessa altura e o nome pegou. A família de Rosal tem agora quatro lojas e os lucros do negócio pagaram a educação dos seus cinco filhos, todos com cursos universitários. Mas igualmente importante, Rosal considera que a sua carreira no retalho ofereceu algo em troca à comunidade. «Fui um pescador e agricultor na província, mas isto é o que faço melhor. Fiz roupa para todo o tipo de pessoas e sinto-me feliz quando regressam porque estão satisfeitos», afirma. «Digo sempre que roupa boa e de qualidade é para toda a gente. Não apenas para aqueles que têm dinheiro para as comprar», conclui.