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Moda veste causas e mudanças em Itália

O regresso das gigantes da moda às passerelles não se centra apenas no digital. O foco está na readaptação e, sobretudo, em causas que salientam o que está por detrás desta indústria, que embarca agora numa viagem cheia de transformações.

Dior [©Fashion Trends Tips]

Depois de terem sido vários os eventos de moda cancelados devido ao aparecimento da pandemia, as marcas de luxo tiveram de abdicar do conceito de passerelle tradicional que até então seguiam e dar prioridade a outros formatos digitais, como vídeos ou filmes, para apresentar as tão esperadas coleções.

Mesmo após o desconfinamento, que continua, à luz da situação atual, a requerer medidas de distanciamento social e restrições nas viagens, as marcas não regressaram ao formato tradicional dos desfiles de moda para desvendar as tendências para o outono-inverno 2020/2021.

Pelo menos assim foi em Itália, onde nomes como Dior, Valentino e Gucci desvendaram um novo lado do mundo deste sector, independentemente do formato, quer seja ele físico, digital ou até mesmo uma fusão dos dois.

A cidade italiana de Lecce foi o local escolhido para a concretização do desfile da Christian Dior, que decorreu na passada quarta-feira, 22 de julho, sem qualquer audiência presencial, ao contrário do que tem vindo a acontecer nos formatos anteriores, que habitualmente contam com a presença de várias celebridades na primeira fila.

A coleção Cruise desfilou pelas passerelles e chegou a casa dos amantes de moda em tempo real através de uma ligação online. A marca de luxo francesa deu música e movimento à coleção, com a atuação de uma orquestra ao vivo e também de uma performance de dança com um estilo mais moderno que acabou por desconstruir a vertente mais tradicional das notas que se fizeram ouvir na passerelle.

Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da casa de moda francesa, inspirou-se no artesanato e nas tradições locais para criar os modelos que não passaram despercebidos pela Piazza del Dumo.

Ao anoitecer não faltou cor através dos modelos coloridos sobrepostos com padrões florais que recriaram os desenhos do artista Pietro Ruffo. As influências do folclore italiano que pintaram a coleção fizeram com que fosse possível promover a retoma da região de Puglia, de onde é natural o pai de Maria Grazia Chiuri. «Neste processo consegui entender de onde vem a minha paixão e as minhas origens e o porquê de ser tão aliciada por este tipo de trabalho, por estes bordados, por esta tradição», afirmou a diretora criativa numa entrevista à Reuters. «Vi a minha avó, as minhas tias, as mulheres costumavam sentar-se fora das suas casas e criar este trabalho lindo», acrescentou.

A casa de moda, que integra o grupo LVMH, recorreu à Costantine Foundation, um centro de autoafirmação das mulheres, para produzir vestuário de forma artesanal com macramé e renda em tons naturais nos teares antigos do interior de Itália. A Dior fez questão de que todas as escolhas fossem locais, desde o grupo de música ao artista italiano e também à fundação artesanal que apoia as mulheres da comunidade que trabalham com designs têxteis.

Escolher emoções

De volta às origens, visto que Roma foi a cidade que há décadas viu nascer o atelier Valentino Garavani, a Valentino apresentou as tendências para a estação fria no estúdio Cinecittà através de um conceito que se fez parecer mais com um espetáculo do que propriamente com um desfile.

Gucci [©WWD]
A performance, com transmissão online, decorreu na passada terça-feira, 21 de julho, com o mote “Of Grace and Light”, uma ideia que ganhou forma através do talento de Pierpaolo Piccioli, diretor criativo da casa de moda italiana, que uniu forças com o fotógrafo britânico Nick Knight e também com a cantora FKA Twigs.

As manequins surgiram suspensas por fios transparentes através do cenário escuro que contrastou com os vestidos brancos. A escolha desta tonalidade não foi obra do acaso e esconde a ideia de uma página em branco que poderá ser escrita com um primeiro passo, numa ode à esperança e otimismo. «Foi um momento difícil, mas acredito que o nosso trabalho não é espelhar o momento, mas reagir a ele. A alta-costura é feita para as emoções. Não é para caminhar, é para sonhar», referiu o diretor criativo numa entrevista através do Zoom.

Ao invés de exibir dezenas de criações, a Valentino apresentou apenas 15, todos elas brancas, à exceção de um vestido com franjas prateadas.

Indústria em evolução

Epilogue é o nome da nova coleção da Gucci que não pisou as passerelles, ao contrário do que aconteceu com a Dior e a Valentino. O digital foi o único palco que deu a conhecer as tendências reveladas na passada sexta feira, 17 de julho, numa campanha que compilou em filme várias fotografias tiradas num palácio na capital italiana.

E se estas insígnias deram voz a várias causas como as produções locais, a promoção do papel da mulher na indústria têxtil e ainda uma mensagem positiva face aos momentos difíceis que se atravessam a nível global devido à pandemia, a Gucci assumiu a mesma linha de pensamento, já que Alessandro Michele, diretor criativo da gigante de luxo desde 2015, revelou que o evento foi o último de uma série dividida em três partes que teve como principal objetivo desvendar todo o trabalho envolvente que está por trás de uma coleção de moda.

O vídeo transmitido pela Gucci mostra a preparação dos designs pelos colaboradores da marca, que desta vez adotaram também o papel de manequins. As várias fotografias refletem a realidade atual, com o uso de máscaras e viseiras. Os modelos criados e vestidos neste formato pelos próprios designers fazem jus a conceitos atuais e evolutivos do mundo da moda, como o fim das estações e o sem género, não fosse este desfile um convite para «gerar questões sobre as regras, sobres as funções e sobre os papéis que sustentam o mundo da moda», vincou Alessandro Michele em comunicado.

Valentino [©Valentino]
A Epilogue deverá chegar às lojas no outono e caracteriza-se também pela excentricidade e pelas cores «ousadas», com influências dos anos 70 inerentes à identidade da marca, que foi uma das insígnias pertencentes ao grupo Kering que mais cresceu durante os últimos anos.

Os meses de confinamento provocados pela pandemia levantaram muitas outras questões, como é exemplo a acumulação de stock não vendido. Neste sentido, começaram, além das anteriores, a surgir outras temáticas alusivas ao calendário de moda, nomeadamente, e também na ótica da sustentabilidade, a frequência da apresentação de coleções.

O diretor criativo da Gucci acredita que a nova realidade deve levar a uma reflexão sobre o calendário da moda, tendo já ele próprio, em maio, anunciado a redução do número de desfiles de cinco para dois.

Este abrandamento do ritmo da moda deverá também ser praticado por outras marcas, como é o caso da Armani.