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ModaLisboa e o poder de conjugar linguagens

Entre os veteranos e o pulsar dos novos designers portugueses, a 52ª edição da ModaLisboa, que terminou domingo, fez desfilar 31 coleções, entre momentos performativos, uma rampa de skate e uma manifestação, antecipando o outono-inverno 2019/2020.

Dino Alves

Depois de um dia dedicado à reflexão, a ModaLisboa rumou ao Pavilhão Carlos Lopes, onde o cenário dos desfiles se assemelhava a um ringue desportivo, com uma construção luminosa no centro.

O panorama foi de encontro à competição que inaugurou a passerelle: o concurso Sangue Novo. Agora com um formato anual, apresentaram-se os seis designers selecionados pelo júri na edição passada: Archie Dickens, Carolina Raquel, Federico Protto, Opiar (Artur Dias), Rita Carvalho e The Co.Re (Inês Coelho e Rachel Regent).

No final, metade dos participantes saiu premiada, nomeadamente o criador britânico Archie Dickens, que recebeu o prémio The Feeting Room, que lhe permitirá vender a sua coleção na concept store portuguesa, Federico Protto, que foi o vencedor do prémio Melhor Designer Internacional, ou seja, irá apresentar uma nova coleção na plataforma Workstation, na próxima edição da ModaLisboa, em Outubro, e Carolina Raquel, que arrecadou o prémio ModaLisboa para Melhor Designer Nacional, recebendo uma bolsa de 5.000 euros e a possibilidade de frequentar um Master in Fashion Design, na Polimoda, em Florença.

Carolina Raquel

«É ótimo porque sinto que estão a investir em mim e que acreditam em mim. É uma oportunidade para eu desenvolver as minhas capacidades e as minhas ideias», afirmou Carolina Raquel ao Portugal Têxtil. A viver em Londres há cerca de quatro anos, a jovem criadora de moda apresentou uma coleção inspirada no processo de esculpir uma pedra. «Comparo o processo de esculpir com o processo de despir, ou seja, começou muito volumoso e evolui para algo muito leve e polido», explicou.

Criar uma marca própria é um objetivo da designer, mas, para já, quer aprender com os melhores. «Primeiro quero encontrar um emprego na área de design. O mestrado virá a seguir e tenho que pensar bem no futuro», confessou Carolina Raquel.

O formato renovado do Sangue Novo mereceu elogios dos participantes e satisfez a presidente da ModaLisboa. «Esta mudança para o formato anual e o facto de haver duas fases de seleção é certa. Estou muito contente», reconheceu Eduarda Abbondanza.

Três dias de amadurecimento

Duarte

As várias linguagens da moda viveram em harmonia na passerelle, num evento que está a alcançar novos públicos e a fazer crescer novos criadores de moda, defendeu Eduarda Abbondanza. «Para mim, estas pequenas alterações já eram evidentes há várias edições. Acho que nesta edição já é evidente para toda a gente que há novas linguagens de moda e há novos públicos. Continuamos a trabalhar as linguagens de moda que acompanhamos há tantos anos e continuamos a ter o nosso público que nos acompanha desde o princípio, mas temos na ModaLisboa claramente um público novo e temos linguagens de moda mais maduras», admitiu, referindo-se aos criadores da plataforma LAB.

A plataforma destinada a jovens designers emergentes levou à ModaLisboa criadores como Ana Duarte – fundadora da marca Duarte –, que escolheu a Half Moon Bay, na Califórnia, como destino para esta a próxima estação fria, refletindo-se numa coleção onde as ondas do mar pintaram as peças desportivas com cores como azul, menta ou cinzento.

João Magalhães

A viagem seguiu até Berlim, mais especificamente à vida noturna da cidade alemã, onde a designer Carolina Machado criou um «guarda roupa para sair à noite, muito sexy, feminino e com a alfaiataria masculina sempre presente», revelou.

A plataforma LAB contou ainda com a estreia em nome próprio de João Magalhães, que anteriormente se apresentava com a marca Morecco, que instalou um half-pipe no centro da passerelle, onde dois skaters realizaram manobras. A coleção foi inspirada na exposição «Um Imaginário Termodinâmico», do argentino Tomás Sacraceno, juntando fotografias suas. «Todos os estampados são feitos a partir de fotografias que tirei, no Japão, às estruturas metálicas e à malha urbana. Isso depois puxou-me para um universo da maior máquina que existe: a máquina da cidade, refletindo-se em silhuetas oversize e coordenados metalizados», esclareceu.

Olga Noronha

Se João Magalhães fez da passerelle um espaço desportivo, Olga Noronha transformou-a num palco de dança, com o bailarino Rui Marques, num momento «quase mágico», assegurou a designer. «Quis fazer uma grande quebra em relação à última coleção. Estas peças também têm muitíssima minúcia, mas está toda escondida para proporcionar o efeito surpresa. No final, houve um movimento de magia pela mão do Rui, em que, das cinzas, brotavam flores, que abriam uma nova discussão para questões de sexo», elucidou. Na prática, entre as camadas de pele, as peças tinham circuitos magnéticos, que escondiam traços de flores e que o bailarino Rui Marques, enquanto dançava, desvendou, atirando-lhes um pó magnético.

Já Andrew Coimbra manteve o seu tom streetwear, inspirado na letra da sua canção favorita da infância, “Dollar Wine”, de Byron Lee. O passado também foi o destino de Gonçalo Peixoto, que apresentou uma coleção inspirada no trajeto da sua mãe, passando «pelos os ombros XXL, as silhuetas mais ajustadas à cinta, os tecidos brilhantes, os fatos, o tweed e veludos. Aí acrescento a minha pop culture e o meu punho de cor», apontou.

David Ferreira

No sentido oposto, David Ferreira optou por criar uma personagem – a Betnica – para apresentar uma coleção que «une quase todos os meus mundos, que já mostrei ao longo de várias coleções», adiantou o jovem criador ao Portugal Têxtil.

Também houve quem partisse de excedentes de produção de fábricas locais, como Inês de Oliveira, da marca Imauve, que apresentou uma coleção baseada na «abstração de Malevich como veículo para explorar ideias e sensações», resumiu.

O universo fabril também foi o ponto de partida de Constança Entrudo, que criou uma coleção baseada na reinterpretação dos bordados da madeira, depois de uma visita a uma fábrica de bordado que encerrou em 2017. «O que fiz foi pegar nas regras todas e desconstruí-las», referiu a designer após o desfile, que fugiu ao ringue do Pavilhão Carlos Lopes e se realizou no The Mustik Warehouse.

De volta à capital

Carlos Gil

Os criadores Carlos Gil e Nycole desfilaram as suas coleções na passerelle alfacinha no âmbito do acordo celebrado entre a ModaLisboa e o Portugal Fashion. O primeiro, que apresentou uma coleção baseada na pintura, declarou que o regresso foi justificado pela quantidade de clientes que tem na capital. «Quando pedi ao Portugal Fashion dei essa justificação. Foi-me concedida essa satisfação e é com muito gosto que hoje estou aqui, porque sou muito bem acolhido e muito respeitado. Quanto mais união houver para que se veja luz ao fundo do túnel, é sempre de se avançar», garantiu.

Já a jovem criadora Tânia Nicole, da marca Nycole, partiu da necessidade de regressar a tempos de maior interação humana e de afastamento das redes sociais para criar uma coleção inspirada no futebol, batizada “Persona”. O regresso à ModaLisboa, onde participou no concurso Sangue Novo, «quebra um bocado a nossa monotonia. Soube-me especialmente bem voltar porque foi aqui que comecei», assumiu.

Veteranos continuam a inovar

“My life, my rules”, “Say no to beauty tyrants”, “Wear clothes that matter” foram algumas das mensagens que se leram nos acessórios da coleção apresentada por Dino Alves. «A mensagem é que devemos usar a nossa imagem e o nosso estilo como armas para reagirmos a coisas. Esta coleção é uma reação a uma série de coisas que eu acho que não estão bem: a descriminação, o preconceito e a destruição do nosso planeta», explicou o criador acerca de um desfile que fechou a ModaLisboa em tom interventivo.

Nuno Gama

A irreverência também marcou a coleção de Nuno Gama, que parece ter abandonado de vez os desfiles convencionais, tendo colocado os manequins em vários pontos da sala de desfiles do Pavilhão Carlos Lopes, com a música de Hélder Bruno a funcionar como pano de fundo, na antestreia do seu novo disco. «A ideia era criar uma espécie de viagem em volta da coleção, denominada Mutantes, com casacos-mochila e boinas», afirmou ao Portugal Têxtil.

Ricardo Andrez

A sustentabilidade definiu a coleção de Ricardo Andrez, que, à semelhança de Imauve, aproveitou excedentes de produção de fábricas, acrescentando estampados associados à bolsa de valores, «tendo em conta que pegamos no lixo e tornamo-lo luxo», sublinhou.

No entanto, para Valentim Quaresma, o termo upcycling não é novo, tendo aproveitado peças de carros, motas e canalizações numa coleção que fez o criador regressar à altura em que tinha 10 anos e pensar na forma como imaginaria o futuro, «que eu imaginaria que tinha muitos animes», explicou.

A onda verde também chegou à Awaytomars, que, desta vez, criou uma coleção a partir de um open cal para que «as pessoas mandassem as roupas que não usavam mais», revelou o criador da marca Alfredo Orobio.

A natureza também inspirou Kolovrat, que a quis tornar «quase-mágica», misturando padrões de xadrez com o camuflado. A natureza de uma tribo Indiana nómada, retratada em “Cobra gypsies”, foi, por sua vez, o ponto de partida de Aleksandar Protic.

Ricardo Preto

A mulher foi, uma vez mais, o ponto de partida para Ricardo Preto, que realizou uma coleção para as mulheres que o rodeiam e inspiram. «É uma coleção que prima principalmente pelos formatos geométricos. Normalmente faço muitos prints, mas na passerelle decidi retirá-los para dar força a esses blocos geométricos do corte», explicou.

Dos blocos geométricos para as camadas, Luís Carvalho partiu dos trabalhos do artista digital Matthieu Bourel. «Ele trabalha muito recorte de imagem e sobreposições. Isso percebeu-se em algumas das peças, na desconstrução e até no styling das camadas que eu fui criando», comparou.

A ModaLisboa também se dirigiu à recentemente inaugurada loja Tem-plate, para a apresentação de Ernest W. Baker, uma marca fundada por Reid Baker, dos Estados Unidos e a portuguesa Inês Amorim.

Luís Carvalho