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ModaLisboa fez a festa

A edição nº. 50 da ModaLisboa fez jus ao provérbio “boda molhada, boda abençoada” e, ainda que durante os três dias de desfiles, a chuva só tenha parado de cair para o vento soprar, todos os convidados celebraram as cinquenta vezes em que a moda se uniu à cidade.

Nuno Gama

Apesar de muitos terem sentido o forte apelo da nostalgia, Eduarda Abbondanza, presidente da ModaLisboa, recusou-se a desviar o olhar do futuro.

«Nestas 50 edições, olho para a frente. É um número que tem de se comemorar, mas não se consegue fazer tudo numa edição. Primeiro, porque as edições são dedicadas às apresentações das coleções dos criadores, esse é o seu foco. Depois, carregar uma edição de passado quando a moda é sempre futuro seria estranho», revelou ao Portugal Têxtil, acrescentando que está a ser preparado um documentário sobre a ModaLisboa, esse sim, uma retrospetiva. «Ainda vai sair este ano», afirmou.

Passagem de testemunho

Já a solo ou envolvidos em parcerias com outros nomes do calendário, Valentim Quaresma, Nuno Gama, Filipe Faísca e Dino Alves foram “meninos das alianças” das edições 0 e 1 da ModaLisboa, nos anos 1990. Este fim de semana, não só não faltaram à renovação dos votos como ainda passaram o testemunho, cedendo as honras de abertura da passerelle à nova geração.

Filipe Augusto

O concurso Sangue Novo teve, nesta edição, oito desfiles – seis em nome individual e duas duplas – e elegeu Filipe Augusto como vencedor do Prémio ModaLisboa.

O jovem designer formado pelo Modatex Porto começa a estar familiarizado com estas distinções. Na última edição, em outubro, recebeu uma menção honrosa do júri da ModaLisboa e, em dezembro, foi o vencedor português da Fashion Design Competition promovida pelo CENIT – Centro de Inteligência Têxtil no âmbito da iniciativa Porto.ModaPortugal (ver Porto.ModaPortugal: são todos vencedores).

«É a valorização do nosso trabalho. Quer dizer que estou no bom caminho», reconheceu Filipe Augusto, que recebeu um prémio pecuniário de 5.000 euros, um curso de verão na Domus Academy e a entrada direta na próxima edição do Sangue Novo, em outubro de 2018. A coleção que conquistou os jurados bebeu inspiração nas colheitas – do azeite ao vinho – e explorou técnicas ancestrais como a cestaria.

Também no concurso de talento emergente, os fundadores da concept store portuguesa The Feeting Room, Edgar Ferreira e Guilherme Oliveira, selecionaram a coleção de Inês Nunes do Valle para ser vendida nas suas lojas, em Lisboa e no Porto. «Aprendi imenso, é uma experiência incrível e queria mostrar a minha roupa a toda a gente», confessou a jovem designer, que viu o seu desejo concretizado.

Patrick de Pádua

Rita Sá levou para casa o Prémio Fashion Clash, tendo sido selecionada pela direção do festival de moda holandês para representar Portugal na próxima edição, a realizar em Maastricht, em junho de 2018. «É um reconhecimento do trabalho e, depois, ir à Holanda mostrar o meu trabalho vai trazer muita visibilidade e tem outra dimensão», afirmou a ex-aluna da ESAD.

Patrick de Pádua também conheceu Maastricht com um bilhete do Sangue Novo, em 2014 e, este fim de semana, voltou a ser um dos nomes em destaque na plataforma Lab.

«Nesta coleção, fui para as fábricas e perguntei qual era o material mais antigo que tinham lá. Depois, surgiu aquela mistura de padrões que dá um ar de anos 1970», explicou. Em destaque na apresentação esteve, além do trabalho com a fazenda, o calçado, fruto de uma nova colaboração do jovem designer com a marca portuguesa Ambitious.

Olga Noronha

Também membro da plataforma Lab, a designer de joalharia Olga Noronha deu os primeiros passos na ModaLisboa aos 21 anos, então levada pela mão da marca de vestuário Saymyname, em 2011. Dois anos depois, caminhou na passerelle pelo próprio pé e, este domingo, dançou. «Até a música foi misturada por mim», garantiu. Inspirada pela obra de Sigmund Freud com o mesmo nome, a coleção “The Uncanny” apresentou silhuetas construídas a partir de poliuretano, silicone, teflon, folha de ouro ou caviar que procuraram «causar algum tipo de desconforto» à assistência. A textura próxima do coral esteve em perfeita sintonia com o lago da Estufa Quente, onde decorreu o desfile.

Ricardo Andrez

Desconcertante foi também o desfile de Ricardo Andrez, cuja coleção “TrustFundKids” fez referência à apropriação de marcas dos anos 1980 e 1990. Do icónico tartan da Burberry à capa do álbum “Nevermind” dos Nirvana, Ricardo Andrez satirizou em passerelle a apropriação encabeçada pela geração millennial. «Muitos deles entendem pouco essa herança das marcas e só sabem o que os seus logotipos representam socialmente», admitiu.

Gonçalo Peixoto

Dentro da plataforma Lab e em estreia absoluta no calendário da ModaLisboa esteve o jovem designer Gonçalo Peixoto, que se juntou às celebrações com um alinhamento luminoso.

«O ponto de partida foram as cores e as formas das auroras boreais, mas como defendo que uma coleção só é pessoal quando misturámos várias referências, explorei também o workwear de quem trabalha nesses países mais frios. Inspirei-me ainda nos Alpes, para contrastar as auroras boreais com o branco», adiantou sobre a coleção dedicada ao outono-inverno 2018/2019, que destacou as malhas tricotadas. «Representam mais de 50% da coleção», sublinhou.

O mestre e o aprendiz

Entre a velha guarda e os veteranos, a ModaLisboa destacou ainda uma geração de designers que conheceu os cantos à casa ainda antes de morar no calendário. Ricardo Preto comemorou este sábado 12 anos de ModaLisboa, Luís Carvalho 10. Nos entretantos, chegaram a ser mestre e aprendiz.

Luís Carvalho

«Esta é a 10.ª edição como designer, mas comecei na edição 30 como voluntário. Trabalhei duas edições como voluntário, depois como assistente do Filipe Faísca e uma com o Ricardo Preto. Depois parei e voltei como designer», contou Luís Carvalho, que levou para a edição comemorativa do certame uma coleção de silhuetas retas, longas e oversized recuperadas dos anos 1960. O roxo, o azul e o vermelho dominaram a paleta e, nos materiais, evidenciou-se o vinil.

Ricardo Preto

«Olho com muito orgulho para esta data», frisou Ricardo Preto. «Lembro-me de querer ser designer de moda e de pensar: um dia gostava de estar na ModaLisboa», confessou. Entretanto, passaram-se 12 anos e, para o designer que tem vindo a conquistar a Ásia e se prepara para abrir um ponto de venda da marca epónima em Manila, nas Filipinas, «a ModaLisboa é a casa mãe». “Self-Possession”, apresentada na edição 50 foi, talvez por todos estes motivos, uma retrospetiva, recuperando silhuetas fluidas e misturas de padrões de outras coleções.

Os veteranos

Valentim Quaresma atingiu a maioridade na ModaLisboa, Filipe Faísca fez o ano 0 do evento, Dino Alves acompanhou as primeiras edições na cenografia e Nuno Gama alinhou os 25 anos de marca com as 50 edições da ModaLisboa. De meninos das alianças a veteranos, estes designers voltaram a superar-se na edição 50.

Valentim Quaresma

«Lembro-me da primeira ModaLisboa, onde ainda trabalhava com a Ana Salazar, de repente vemos o número 50, é preciso ter muita paixão. Comecei com 18 anos, já tenho 48. Tudo começou aqui há 30 anos», afirmou Valentim Quaresma, que na coleção “Raízes”, despontada num poema de Gilda Nunes Barata, tornou tudo mais pessoal.

«Usei cristais, que não são pedras naturais, são pedras fabricadas por mim. Usei pedras da praia, encontradas por mim», contou.

Filipe Faísca

Se um ofereceu pedras preciosas, outro ofereceu o ramo. Filipe Faísca apresentou uma coleção ultrarromântica e feminina, de silhuetas fluidas e jogos de transparências, que reinterpretou o tradicional bordado da Madeira.

«Isto foi um convite feito pelo Instituto do Vinho e do Bordado da Madeira para trabalhar e, sobretudo, para divulgar o bordado da Madeira», elucidou.

Nuno Gama

Responsável por um dos momentos mais virais do fim de semana dedicado à moda lusa, com um concerto ao vivo em homenagem a Zé Pedro, o “homem do leme” dos Xutos & Pontapés desaparecido no final de 2017, e um desfile de Caretos de Podence antes de a passerelle ser tomada por manequins vestidos com a tradicional Capa de Honra mirandesa, Nuno Gama fechou a noite de sábado com “O Desejado”.

«Uma coisa que descobri recentemente é que toda a vida corri para aqui. Corri pelas coleções e pelo trabalho e, de repente, penso: se há um sítio onde sou feliz é na ModaLisboa. Sinto-me da casa», reconheceu.

Dino Alves

Entrou na ModaLisboa pela mão de Ana Salazar, para quem criou o cenário dos desfiles algumas edições. Em 1997, a convite da ModaLisboa, avançou em nome próprio.

O desfile do “enfant terrible” da moda nacional, não se limitou a apagar a luz da edição n.º 50, deixando já a casa arrumada para a próxima.

Antes do desfile, soaram berbequins e, ao longo da passerelle, havia sacos de lixo. Entretanto, surgiram contentores, onde foram colocados os sacos, e passou um carrinho de limpeza. Seguiu-se a apresentação d’ “A Outra Verdade”, para o outono-inverno 2018/2019, salpicada de amarelo torrado e trabalhada em vinil e neopreno.

Dino Alves

«As proporções estão aparentemente incorretas. As linhas de cintura estão fora do lugar habitual, sugerindo uma certa imperfeição e desproporção física, porque as peças foram feitas com moldes normalmente usados em peças diferentes», explicou o designer.

Enquanto o desfile decorria, era retirada a película branca que cobria o chão e as paredes falsas que separavam a sala de desfiles dos bastidores iam sendo desfeitas. A festa tinha chegado ao fim.