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ModaLisboa: o habitat da arte e da inovação

As novas tendências para a primavera/verão 2019 foram apresentadas na edição número 51 da ModaLisboa, onde o furacão Leslie não provocou estragos. Das viagens aos sonhos, foram várias as inspirações dos designers que se apresentaram numa edição artística e inovadora.

Dino Alves

Foram os criadores mais jovens que abriram a passerelle da ModaLisboa. Na sexta-feira, no Pavilhão Carlos Lopes, no Parque Eduardo VII, o Sangue Novo, agora com formato renovado, reuniu as propostas de 10 jovens talentos. O júri do Sangue Novo – Miguel Flor, Alfredo Oróbio e Cláudia Barros – selecionou Archie Dickens, Carolina Raquel, Opiar, Rita Carvalho, The Co.re e Frederico Protto, que voltarão a mostrar uma coleção daqui a seis meses, na próxima edição da ModaLisboa. «O Sangue Novo foi um projeto que eu desenvolvi, que era meu. Pela primeira vez, entreguei-o ao Miguel Flor. Portanto, foi um bocado estranho para mim. Mas é bom sentir-me bem por ter uma equipa que está a fazer bem as coisas. Gostei. Talvez não concorde com tudo…», revelou Eduarda Abbondanza ao Portugal Têxtil.

Sangue Novo – Opiar

A presidente da ModaLisboa admitiu ainda que, embora o furacão Leslie não tenha afetado a programação, impediu-a de ver alguns desfiles. «Já estamos habituados a gerir os não convidados. Neste caso tivemos a Leslie, extravagante, a mudar de rumo a cada minuto. Deu-nos um bocado de trabalho a nível de produção. Tínhamos que garantir a segurança a toda a gente e isso não se põe em causa», explicou. Quanto aos desfiles que presenciou, Eduarda Abbondanza diz-se satisfeita. «Acho que vamos ter um verão sexy», avançou.

Os lados opostos da cor

A ModaLisboa seguiu da vibração do Sangue Novo à escuridão de David Ferreira, jovem criador que já vestiu nomes como Cardi B, Nicki Minaj ou Janet Jackson. «Eu, organicamente, vou mais para cores, mas a própria inspiração não tinha muita cor», elucidou. David Ferreira referia-se ao documentário “Grey Gardens”, que versa sobre uma mãe e filha, «extremamente ricas» que ficaram «bastante pobres e a viver numa mansão nos Hamptons, completamente destruída, ainda a usar os seus casacos de pele. As suas roupas tinham buracos e com remendos, mas eu ainda as acho bastante bonitas e elegantes», resumiu. Do luto surgiram as transparências, os folhos, com organza de seda e rendas.

David Ferreira

A paleta manteve-se no negro com a “Revolution” de Valentim Quaresma, numa coleção inspirada pela Art Deco, na arquitetura e revolução industrial dos anos 20. «Nunca tinha trabalhado madeiras, foi um desafio», numa coleção que primou pela sustentabilidade «numa abordagem contemporânea», revelou o designer ao Portugal Têxtil.

A coleção de Ricardo Preto, que fechou o primeiro dia de desfiles, foi uma explosão de cores, dos tons terra à mistura de padrões. «A coleção chama-se “Now” e é mesmo pensada no momento em que vivemos, nesta dinâmica que a nossa vida tem, esta fluidez, esta necessidade de estarmos bem vestidos, sofisticados e ao mesmo tempo confortáveis», destacou.

A moda e as outras formas de arte

Nuno Gama voltou a fazer do seu desfile um espetáculo na ModaLisboa. Setenta manequins masculinos transformaram-se em obras de arte, enquanto a enchente de visitantes desfilou entre as 16 salas do terceiro piso do Museu Nacional de Arte Antiga para ver as propostas do criador de moda para a primavera/verão 2019. O ambiente ficou marcado pela música ao vivo, de uma guitarra elétrica, à entrada da sala dos painéis de São Vicente de Fora, uma «velha paixão» do designer, que «são uma eterna fonte de inspiração». «Cada vez que cá venho, agradeço e saio daqui com ideias novas e coisas a borbulhar», confessou. Uma paixão que Nuno Gama quis partilhar com o público, permitindo a proximidade com as suas criações, «para poderem ver o forro, o acabamento… Terem outra disponibilidade para ver as coisas porque o desfile, às vezes, não dá tempo para nada», justificou.

Nuno Gama

A corrida de regresso ao Parque Eduardo VII fez-se à conta da awaytomars, o desfile que se seguia. A coleção, que contou com as colaborações de 15 designers, teve lugar no recém restaurado lago Botequim do Rei, junto ao pavilhão. Enquanto o furacão Leslie não surtia efeitos em Lisboa, a paleta de cores da coleção (entre o azul e o verde), que se assemelhava ao cenário, formou a junção «perfeita», considerou Alfredo Orobio, fundador da marca. «O espaço não inspirou a coleção, mas foi uma coincidência perfeita. A nossa coleção era inspirada na luz. Depois veio o cinema e tudo onde a luz tem um impacto no desenvolvimento», que se refletiu nos estampados. A awaytomars é uma plataforma colaborativa que junta 15 mil designers de todo o mundo, está em 93 países, tendo desenvolvido recentemente parcerias com a Kellogs e a Melissa.

O regresso de Alexandra Moura à infância (e à ModaLisboa)

O segundo dia ficou marcado pelo desfile de Alexandra Moura, que regressou a Lisboa «powered by Portugal Fashion». «Nos dias de hoje, com tanta coisa a acontecer e com tanto stress, é importante as pessoas unirem esforços, unirem energias e o foco numa mesma estratégia, em vez de andar tudo a perder-se», comentou a propósito da parceria firmada entre a Associação ModaLisboa e a Anje – Associação Nacional de Jovens Empresários (ver Acordo histórico na moda).

Alexandra Moura

Foi desse mesmo stress que a criadora se quis distanciar com a coleção “Heirloom”, num regresso a casa, recuando às férias na aldeia dos avós em Trás-os-Montes. «Era absolutamente genial. Era o chegar e entrar num mundo diferente, numa paz diferente, o contacto com a terra, com os animais. Eram as roupas que eram mais simples, em tons mais terra. Ao mesmo tempo, a minha avó tinha as camisas imaculadas e o meu avô era os fatos», desvendou, a propósito de uma coleção que une o presente e o passado, em oposição «às peças oversize com um feeling sportswear».

 

A paródia e os cinco anos de Luís Carvalho

Ainda no segundo dia, com as atenções no interior do Pavilhão Carlos Lopes, abrigadas da Leslie, deu-se a estreia na passerelle de Constança Entrudo, da plataforma LAB, com as suas «Connections», com peças que pensam o corpo humano, azuis e vermelhos, e muitos acessórios fruto das colaborações «essenciais» para a coleção.

Ricardo Andrez

A tarde seguiu com a coleção de verão 2019 da cia.Martima intitulada “Passaporte Carimbado”, que partiu de referências de várias cidades de todo o mundo. Patrick de Pádua também dedicou a sua coleção ao sexo feminino, com «She», ao ritmo da música homónima dos Blaze. «Quis assim introduzir a paleta de cores. Era ela sempre que introduzia a paleta de cores na coleção», eslareceu acerca das silhuetas estrategicamente desconstruídas, com sobreposição de materiais.

Nascido na Sérvia, mas a viver em Lisboa desde 1999, Aleksandar Protic quis deixar uma mensagem aos «heróis das novas gerações das metrópoles brasileiras». «Já há algum tempo que vejo vídeos na internet de jovens brasileiros que têm problemas por serem diferentes, na maioria jovens LGBT. Escolhi cores fluo, representando um futuro de pessoas diferentes que querem ser aceites e pensei também no Star Trek, que via em criança», adiantou.

A “paródia” chegou à ModaLisboa pelas mãos de Ricardo Andrez, que quis falar sobre as crenças do fim do mundo, no bug do milénio. «É quase ridículo acharmos que alguma coisa ia acontecer com a viragem de 1999 para 2000». Na roupa, a paródia foi transmitida através dos patches do Alien, «acho que é um símbolo dos anos 90 e podia simbolizar essa parte informática, digamos assim» e ainda com o print criado pelo designer, com manchas coloridas, com uma mensagem em chinês, cirílico e inglês,  que dizia “I am coming to this world”, «quase como se o próprio Bug se tivesse a anunciar “estou a chegar, cuidado…”», brincou.

Luís Carvalho

O segundo dia de desfiles encerrou com casa cheia, com os mais resistentes a furacões à espera da “Cherry” de Luís Carvalho. A cereja, também na sua forma oriental, inspirou o criador, que celebrou um mão cheia dedicada à marca. «Cinco anos parece pouco tempo para comemorar, mas no mundo da moda, em Portugal, é muito difícil sobreviver e ter uma marca consistente, portanto para mim é muito positivo, daí eu estar a celebrar», reconheceu. Entre o vermelho, verde seco e azul celeste, em materiais como tafetá e cetim de seca, o criador trabalhou os quimonos e as cinturas marcadas em algumas peças. «Fui buscar a parte oriental das flores da cerejeira e as formas redondas da cereja para trabalhar alguns moldes da coleção, que era evidente nas saias e em alguns vestidos», explicou.

Ao terceiro dia, a Moda Lisboa viajou e sonhou

Mónaco, Cuba e Madeira foram os destinos propostos pelos designers que encerram a 51ª edição do evento. Os desfiles regressaram ao lago Botequim do Rei, desta vez com imauve e Duarte. Primeiro, apresentou-se a marca imauve, onde a sua criadora, Inês de Oliveira, se inspirou na escultura, tendo como novidade o uso de lantejoulas. «Um dia, estava no Louvre e comecei a observar a forma como os tecidos são representados em estátua, que é um material tão rígido, e como é que consegue ficar com aquela fluidez. As lantejoulas estão a representar os metais, o cobre, o bronze…», admitiu. A imauve que se quer afirmar pela internacionalização. «Queremos afirmar-nos como uma global style brand dentro de muito pouco tempo», avançou.

Duarte

Da fluidez ao grande prémio de Fórmula 1, a Duarte convidou a uma viagem ao Mónaco GP, numa junção entre o glamour de quem assiste, entre linos e algodões que relembram o luxo, e lifestyle da competição, com tecidos técnicos e peles. A marca segue viagem para o Portugal Fashion (ver Portugal Fashion vai à fábrica), de 18 a 21 de outubro, onde fará parte do BrandUp, seguindo, na semana seguinte para um showroom em Riga, na Letónia.

Cuba foi o destino escolhido por Carolina Machado, num regresso aos anos 50, com estampados, dentro dos tons terra, entre vestidos e calças com um corte mais masculino, traço da designer. Já o verão tórrido foi o mote do canadiano Andrew Coimbra, num momento de passeio solitário, onde quis privilegiar o conforto. Do outro lado do oceano, sempre esteve de olho na ModaLisboa. «Parece-me sempre muito profissional, a qualidade está sempre num alto patamar e de uma boa qualidade. As pessoas parecem ser muito organizadas. A melhor parte é que parece haver uma espécie de comunidade, algo que é muito importante na moda», elogiou.

Olga Noronha

Também da plataforma Lab chegaram mais dois nomes: Olga Noronha e Gonçalo Peixoto. O desiner quis criar «um ponto neutro no feminismo», na «construção de um mundo utópico onde não existem homens, as mulheres se apaixonam por mulheres e se relacionam com mulheres. É uma coleção feminina dedicada as mulheres», admitiu. Ao ritmo de Nina Simone, com Feeling Good, Olga Noronha apresentou «esculturas usáveis». «Inspirei-me no estado hipnopômpico. Quando nós estamos a dormir e nos acordaram bruscamente, naquele momento, naquela fração de minutos ou segundos, existem alucinações transportadas pelo nosso subconsciente que nos levam a reestruturar espaços e tempos», explicou. À rigidez das esculturas juntaram-se formas fluídas, onde o principal material utilizado foi a celuloide. Dos sonhos também se inspirou Lidija Kolovrat, com “Passaport”, «como se fosse algo simbólico e não um objeto com números», através de cores vivas, onde cada tecido, padrão e corte quis transportar a uma experiência de libertação.

Mas as viagens não ficaram por aí. A Madeira foi o destino novamente escolhido por Filipe Faísca, que voltou a trabalhar com os bordados da ilha, em colaboração com o Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira. Desta vez, introduziu a fauna. «Os insetos sobrevoam toda a flora da Madeira. Há sempre borboletas, libelinhas, abelhas», apontou. Num desfile encerrado com um vestido de noiva, o criador de modaquis também salientar a riqueza do artesanato e têxtil português.

«Tudo o que somos está dentro de nós»

Dino Alves

Foi este o mote da coleção que pôs um ponto final na edição nº51 da ModaLisboa, pela mão de Dino Alves. O desfile terminou com os manequins a transportarem malas axadrezadas na passerelle ao som de música dramática. Inicialmente, o espetáculo pretendia simbolizar «o que está dentro de nós, as nossas vivências, os registos que vamos apanhando na vida, as nossas emoções…», afirmou.  Ainda assim, com a saída recente do criador do seu atelier na rua da Madalena, em Lisboa, a performance acabou por ganhar um novo significado. «Decidi fazer a ModaLisboa precisamente para não acharem que eu me estava a fazer de vítima. Causou-me realmente muito incómodo. Eu fiz isto sem espaço, numa sala que uma amiga me emprestou», revelou. Agora à procura de atelier, Dino Alves sublinhou que tal «está a acontecer em Lisboa todos os dias. Eu não sou o único».