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ModaLisboa sem fronteiras

A 48.ª edição não deu apenas o mote, deu o exemplo. Depois de 13 edições no Pátio da Galé, a ModaLisboa cumpriu um movimento migratório até ao CCB, que recebeu “Boundless”, tema agregador das propostas de nomes emergentes e consagrados. Sem fronteiras físicas ou de género e muito menos estéticas, o outono-inverno 2017/2018 esteve este fim-de-semana em cartaz.

David Ferreira ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

A inauguração da passerelle da ModaLisboa ficou entregue às transfusões experimentais do Sangue Novo – oito jovens competiram com as respetivas coleções pelos prémios ModaLisboa e Fashion Clash. Rita Afonso ouviu o seu nome duas vezes – a primeira para receber o prémio Fashion Clash, representando Portugal na próxima edição do festival de moda Holandês, e a segunda para receber uma menção honrosa ao lado de Alexandre Pereira (os dois terão entrada direta na próxima edição do Sangue Novo). Vencedor na edição passada do prémio Fashion Clash, João Oliveira foi o derradeiro vencedor do prémio ModaLisboa. O jovem designer recebeu 5.000 euros, um Summer Course oferecido pela prestigiada academia de moda Domus Academy, em Milão, e terá a oportunidade de vender a sua coleção nas lojas The Feeting Room, em Lisboa e no Porto.

Ricardo Preto ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

Membros da tão observada geração milénio, estes jovens parecem saber tirar partido das redes sociais como ninguém, mas não deixam de lhes conhecer todos os malefícios. «Acho que as redes sociais têm a parte boa e a parte má. A boa é que acabaram com as fronteiras e o nosso trabalho pode chegar a qualquer parte do mundo», sublinhou Alexandre Pereira ao Portugal Têxtil.

Reconhecido o trabalho do talento emergente, a passerelle foi entregue a nomes como David Ferreira, que deixou um rasto de luxo na passerelle. Azul, amarelo, turquesa, vermelho e fúchsia pintaram uma coleção rica em pelos e silhuetas arrojadas que deixaram a assistência sem palavras, mas com interjeições de espanto. O desfile integrado na plataforma Lab da ModaLisboa continuava uma história sobre o filme “Freaks” (1932), o livro “Freak Show” de Roben Bogdan e o trabalho do fotógrafo Joel-Peter Witkin já começada em Londres. «Esta coleção desfilou recentemente na plataforma da semana de moda de Londres Fashion Scout. Como ganhei o Merit Awards lá, consegui garantir o desfile de duas coleções», revelou sobre o livre-trânsito das suas propostas.

Filipe Faísca ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

Também sem fronteiras físicas tem estado Ricardo Preto, com frutíferas ligações às Filipinas e aos grandes armazéns Rustan’s. A coleção de homem e mulher, que encerrou o segundo dia de desfiles da ModaLisboa, teve como ponto de partida os modernistas e a Bauhaus, mas a sua materialização sugeriu silhuetas que viajavam entre o ambiente de trabalho, a rua e o conforto do lar. «É essa a nossa vida, nós trabalhamos num ritmo frenético, é importante sentirmo-nos confortáveis», explicou.

De viagens falou também a Kolovrat em “Wonderment”, uma coleção rica em cor e textura, que evocou o multiculturalismo, e Filipe Faísca, que recordou a posição privilegiada de Lisboa como entreposto comercial. «A capital portuguesa sempre foi uma cidade de comércio desde o século XIV. Nós sempre recebemos os estrangeiros, era um burburinho no Rossio, cada um se sentava e trocava o que quer que fosse», afirmou Filipe Faísca.

O tema da edição 48 da ModaLisboa tem servido, de resto, como espinha dorsal ao trabalho da plataforma de cocriação Awaytomars, que agrega já 8 mil pessoas, de 90 países. Naquela que foi a sua 3.ª participação, a marca fugiu ao formato tradicional de desfile e surpreendeu os presentes com uma performance, na qual 13 artistas plásticos internacionais «que escolheram Lisboa como residência» foram convidados a intervir sobre uma coleção de peças brancas, que foram gradualmente adquirindo cor e textura. «É para celebrar um pouco a cultura local», explicou Alfredo Oróbio, fundador da Awaytomars.

Luís Carvalho ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

A noite do segundo dia de desfiles terminou com o oceano de Luís Carvalho, que nele mergulhou a coleção outono-inverno 2017/2018. «Inspirei-me nos peixes, na vida marinha, a própria cor do fundo do marca e serviu para inspiração para silhuetas, materiais e cores», contou. Menos concentrado nas profundezas e mais focado na força das ondas esteve Christophe Sauvat, que escolheu o surf como ponto de partida de uma coleção que, «para satisfazer os pedidos das clientes», apostou no pelo falso.

Entre os veteranos e em estreia no cartaz da ModaLisboa estiveram as coleções de calçado da Eureka e da alfaiataria da Mustra, que assumiram a passerelle de “Boundless” como um passaporte para a internacionalização. «Querendo afirmarmo-nos no panorama nacional e internacional é um privilégio para nós estarmos aqui presentes», admitiu Filipe Sousa, diretor-geral da empresa, no final do desfile da Eureka, no qual foram também presentadas as propostas dos criadores Nuno Gama e Luís Carvalho, no âmbito das COxLABS.

Patrick de Pádua ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

A par das fronteiras físicas, também as fronteiras de género foram derrubadas na edição outono-inverno 2017/2018. Ricardo Andrez manteve-se fiel à sua estética sport/street em “Venus as a boy”, uma coleção que, nas palavras do designer, quebrou «conceções populares de género e a sua identidade construída socialmente». Já Patrick de Pádua, que sugeriu uma coleção com notas de alfaiataria, sem desrespeitar os fundamentos do streetwear, afirmou que, nas suas coleções de menswear, «muitas peças são vendidas a mulheres». «Aliás, a minha primeira coleção foi toda vendida a mulheres», acrescentou.

Dino Alves ©ModaLisboa / Fotografia: Rui Vasco

Sem barreiras estiveram ainda as propostas de Dino Alves, ajudado por duas convidadas de peso – as humoristas Ana Bola e Maria Rueff. Em “Manual de Instruções” o designer desafiou a assistência num manifesto que satirizava «de uma forma clara, transparente, direta, honesta e verdadeira» a indústria da moda em Portugal em peças amplas e sem modelagem aparente – todas com etiqueta a descoberto –, criando diferentes opções de modelos “faça você mesmo”.

No final da maratona, a diretora Eduarda Abbondanza reconheceu que «a ModaLisboa trabalha com vários públicos, sempre foi uma das suas características e tem vários desfiles com targets muito diferenciados», pelo que o evento nunca teve balizas, mas decidiu oficializar a sua liberdade na edição “Boundless”. Na verdade, a edição até das leis do tempo se libertou, fechando o calendário com uma “Profecia”, às mãos de Nuno Gama, numa coleção motivada pelo lado oculto dos painéis de São Vicente de Fora, em silhuetas urbanas destacadas pelas lãs, em contraste com peles e sintéticos.