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ModaLisboa sobe ao púlpito

Em tempos marcados pelo mantra “América primeiro” e pelo Brexit, por uma nova onda feminista e pela ubiquidade da expressão agender, pela apropriação cultural e pela t-shirt como manifesto, a ModaLisboa desfilou política em mais uma edição das Fast Talks.

 

A 5 de outubro, dia da Implantação da República Portuguesa, em Lisboa, falou-se de política e moda, da moda na política – e vice-versa.

A editora da i-D Germany, Alexandra Bondi de Antoni, a especialista em media e moda, Aurélia Vigouroux, o professor e diretor da Polimoda, Danilo Venturi, o marketeer e diretor criativo, Gonçalo Castel Branco e o consultor e jornalista Misha Pinkhasov juntaram-se à moderadora de serviço Joana Barrios para um debate sobre os pontos de contacto entre moda e política e colocaram os pontos nos “i’s” – os dois universos, como mostram os arquivos, não são paralelos, mas perpendiculares.

O já tradicional evento pré-passerelle da ModaLisboa escolheu a Estufa Fria, no Parque Eduardo VII, para uma conversa rápida sobre um tema sem fim.

As honras de abertura ficaram entregues a Eduarda Abbondanza, diretora da ModaLisboa, que introduziu o tema da edição primavera-verão 2018 a uma sala verde e iluminada.

«“Luz”, porque habitamos uma cidade e um país que tem essa bênção, uma luz extraordinária», resumiu, passando a palavra a Catarina Vaz Pinto, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Lisboa, entidade parceira do certame desde o berço.

Como mote para as intervenções do painel, a vereadora olhou em volta e reconheceu-o como um exemplo do respeito pela paridade.

Vestir, ser e parecer

No espaço destinado à exposição permanente de plantas tropicais e equatoriais foi encontrada a raiz da moda – a política, nas palavras do primeiro interveniente das Fast Talks, Danilo Venturi.

«Tudo na moda exige uma posição e isso é política, a raiz da moda é política», afirmou, reconhecendo que «quem decide o que vestimos, decide o que somos».

Não basta sê-lo, é preciso parecê-lo. A peça mais comentada do desfile estreia da designer Maria Grazia Chiuri na Dior – a primeira mulher no leme criativo da casa francesa em 70 anos – foi estampada com o slogan “We Should All Be Feminists” (“todos devemos ser feministas”) e tornou-se viral à escala planetária, com as devidas reinterpretações de retalhistas de moda rápida. Entretanto, alguns dos momentos altos das mais recentes estações de moda enquadraram-se no movimento/campanha de igualdade de género “Free the Nipple” (“libertem o mamilo”), que também motivou algumas linhas de t-shirts.

Estes foram dois dos tópicos abordados na intervenção de Alexandra Bondi de Antoni para mostrar o cruzamento entre moda e política, considerando que, atualmente e muito graças à democratização do acesso à Internet e aos novos media, a moda e a fotografia estão «a deixar de colocar o homem ao centro» – apresentando-lhe mulheres perfeitas com roupas sensuais –, para colocar a mulher em evidência, os seus diferentes corpos e estilos.

«Quando é que, no passado, se conseguia atingir 1 milhão de pessoas com uma simples imagem ou frase?», questionou.

Aurélia Vigouroux redirecionou a luz, neste caso do foco, para território francês, numa demonstração da importância da moda num país que tem 1 milhão de pessoas alocadas a esta indústria.

«Em França, há uma relação da moda com a economia e com a cultura», reconheceu, destacando a importância da aliança com entidades públicas na promoção de plataformas para alavancar o talento emergente da moda, focando como exemplo o OpenMyMed Prize, concurso promovido pela Maison Méditerranéenne des Métiers de la Mode, organização fundada há 30 anos, em Marselha, pela mãe de Aurélia, Maryline Bellieud Vigouroux.

Contar histórias

Evocando temas como o boom da moda modesta – e os contributos de marcas como a Dolce & Gabbana nesse segmento –, a perversão do valor de algumas marcas de renome com a explosão das t-shirts com slogans, o merchandising de eventos globais como a Marcha das Mulheres (que colocou 1 milhão de pessoas na rua em marcha contra Donald Trump) e o seu trânsito para a passerelle graças a marcas como a Missoni ou o papel de relevo de nomes como Coco Chanel, no movimento sufragista nos anos 1920 e na libertação do corpo feminino, e Yves Saint Laurent, na igualdade de género, com o Le Smoking, nos anos 60, o consultor e jornalista Misha Pinkhasov admitiu que «a moda é usada para propósitos políticos a toda a hora».

Este tema foi, entretanto, retomado na intervenção do marketeer português Gonçalo Castel Branco, que conta no seu currículo participações na reeleição de Barack Obama, em 2012, e na corrida de Hillary Clinton à Casa Branca, em 2016.

«A moda é uma das ferramentas mais eficazes no storytelling político», apontou, frisando que um coordenado «não precisa de tradução» e dando como exemplo os fatos de Hillary Clinton, que provocaram um ativismo de hashtag, ou o boné com o slogan “Make America Great Again” usado por Donald Trump «que acabou por se transformar no logotipo da campanha».

O debate das Fast Talks abriu espaço para o calendário de desfiles ModaLisboa Luz, que começam amanhã, às 16h, no jardim do Pavilhão Carlos Lopes, com a apresentação da coleção de Patrick de Pádua e Duarte (às 17h). A mostra coletiva do Sangue Novo vai inaugurar a passerelle do Pavilhão Carlos Lopes, às 18h, e será seguido pelos desfiles de Kolovrat, Valentim Quaresma e Ricardo Preto (ver ModaLisboa ilumina primavera).

Estreia fora da passerelle

Numa estreia absoluta na ModaLisboa, durante os três dias do evento (amanhã entre as 16h às 22h, dia 7 das 14h às 22h e dia 8 de outubro das 14h às 20h), o CENIT – Centro de Inteligência Têxtil apresenta o showcase “ModaPortugal”, uma mostra que combina uma seleção de marcas industriais com moda de autor (ver (A)Mar Portugal em Paris).

Filipe Faísca, Kolovrat, Luís Carvalho, Nuno Gama, Ricardo Andrez, Ricardo Preto e Valentim Quaresma são os designers participantes, juntando-se à Daily Day, Frenken, Impetus, La Paz, Portuguese Flannel, Reality Studio, Selva, Vava Eyewear e Volca na representação das marcas nacionais.