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Modelo português convence Euratex

Na 6.ª convenção da Euratex, o modelo da recuperação da indústria têxtil e vestuário portuguesa impressionou os delegados, assim como os exemplos de inovação e capacidade de adaptação da tecnologia demonstrada por empresas como a Adalberto Estampados e a P&R Têxteis.

Enquadrado no tema “Ser Competitivo na Nova Ordem Global”, que presidiu à conferência que a Euratex trouxe hoje ao Porto, a indústria têxtil e vestuário portuguesa esteve em destaque.

Paulo Melo

«A indústria têxtil e vestuário estava considerada morta nos países desenvolvidos, mercê da deslocalização da capacidade produtiva, devido aos custos operacionais ao longo das últimas décadas, mas a verdade é que ela está a ressurgir na Europa e nos EUA, sendo a experiência portuguesa paradigmática no que se refere ao renascimento que já está a suceder nas atividades manufatureiras em toda a fileira e cujo potencial ainda é imenso», indicou na abertura Paulo Melo, presidente da ATP – Associação Portuguesa de Têxtil e Vestuário.

Fernando Freire de Sousa, presidente da CCDR-N, destacou a importância do sector na economia e, em especial, na região Norte, sublinhando que os empresários «foram os heróis» que permitiram manter o sector vivo apesar das sentenças de morte por parte do poder central.

Caldeira Cabral

Um momento que já passou, a crer na intervenção do Ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, que referiu alguns dos números que traduzem o sucesso da indústria, nomeadamente os mais de cinco mil milhões de euros em exportações em 2016, o crescimento de 44% da indústria nos últimos oito anos, assim como as oportunidades que se perfilam no futuro, como o aprovisionamento de proximidade, a digitalização, os acordos comerciais, como o CETA, e a valorização do “made in Europe” nos mercados em desenvolvimento, nomeadamente os asiáticos. «A minha mensagem é positiva para esta indústria, não só para a indústria portuguesa mas para a indústria europeia. A ITV tem um lugar de destaque no mundo», afirmou o Ministro da Economia.

O exemplo nacional

Paulo Vaz

Os números da indústria portuguesa foram explorados por Paulo Vaz, diretor-geral da ATP, que relembrou os altos (2001) e os baixos (2009) do sector. «Desde 2009 temos assistido a uma recuperação sustentável. Em 2016 tivemos um volume de negócios superior a 7 mil milhões de euros, as exportações passaram os 5 mil milhões de euros. A diferença entre 2001 e 2016 é que estamos a fazer o mesmo com menos empresas e trabalhadores», referiu.

Para a recuperação da indústria desde 2009 contribuíram as pessoas, o facto da indústria têxtil e vestuário ser um «cluster natural», condensado na região norte, o sistema de apoio, nomeadamente com os centros tecnológicos e as universidades, e as políticas públicas. «Depois da hostilidade no passado, com o preconceito de que a indústria era de baixa tecnologia, passamos agora para o reconhecimento de que a ITV se tornou num modelo de reindustrialização», apontou Paulo Vaz.

Apesar do contexto internacional não ter sido tão positivo, especialmente com a concorrência «injusta» de alguns players internacionais, a reestruturação das empresas – onde se inclui a concorrência com base no valor e não no preço, a apresentação de soluções aos clientes e a coordenação da estratégia do sector com as políticas públicas – permitiu que as empresas prosperassem no mercado. «Os objetivos que tínhamos planeado para 2020 já foram atingidos. Temos agora de olhar para 2030. O objetivo é tornar-nos líderes para mercados de nicho e de valor acrescentado», afirmou o diretor-geral da ATP.

Quando questionado sobre se este modelo pode ser imitado noutras regiões e países, Paulo Vaz acredita que «é difícil replicar um caso de sucesso noutro mercado», mas reconheceu que nos últimos dois anos foram muitos os convites para expor o case study português e, embora sem dar a fórmula final, deixou um conselho importante.

«Temos de investir nas pessoas – isso é a base, está no centro de tudo, é onde podemos encontrar o know-how e o legado. A tecnologia é fácil de adquirir, os mercados externos estão lá, mas as pessoas é que fazem a diferença», sublinhou.

O papel da inovação

Hélder Rosendo e Mário Jorge Machado

A inovação tem igualmente um papel fundamental e essa aposta está a ser feita não apenas nos produtos, mas nos próprios equipamentos, com um trabalho próximo entre as empresas portuguesas e os grandes construtores de maquinaria. «Para sermos criativos temos de criar ferramentas para avançar com as ideias dos nossos designers. Temos trabalhado com construtores europeus de máquinas e hoje temos máquinas que há três anos não existiam, temos os equipamentos mais sofisticados e aumentamos 10% em termos de qualidade e produtividade», explicou Mário Jorge Machado, administrador da Adalberto Estampados.

O mesmo acontece na P&R Têxteis. «As máquinas foram adaptadas por nós», indicou Hélder Rosendo, diretor-geral da empresa que, embora tenha referido a importância cada vez maior de tecnologias como o 3D para a prototipagem, frisou que «o serviço será sempre a parte crítica, é isso que vai fazer a diferença». Até porque, referiu, «a tecnologia só vai dar uma vantagem competitiva temporária», uma vez que os desenvolvimentos são colocados no mercado em alguns anos e podem ser adquiridos pelos concorrentes.

Por isso, considera Mário Jorge Machado, é preciso valorizar o lado intangível da marca. «Os europeus são vistos como tendo bom gosto e bons produtos. Somos bons naquilo que fazemos – temos de continuar a promover isso, a desenvolver novos designers. Isso é o futuro», acredita o administrador da Adalberto Estampados.

Olhos postos no futuro

Jorge Portugal

Foi também a olhar para o futuro que Jorge Portugal, presidente da Cotec, fez a sua apresentação, na qual exortou as empresas a verem além do presente, preparando de forma sistemática a inovação, com projetos disruptivos que gerem novo conhecimento. «Em Portugal, as empresas não estão a investir o suficiente em novo conhecimento. E não é possível um futuro sem novo conhecimento», realçou.

No que diz respeito à indústria têxtil e vestuário, Jorge Portugal apontou quatro tópicos para a inovação que vão moldar o futuro: materiais inteligentes e de alta performance; produção, cadeias de valor e modelos de negócio assentes na digitalização; economia circular e eficiência de recursos; e soluções de elevado valor acrescentado para mercados com crescimento atrativo.

Salientando a importância de seguir um processo sistemático de inovação nas empresas, até porque «as pequenas inovações raramente geram crescimento», Jorge Portugal deu como exemplo de empresa com «um processo de crescimento sistemático e disciplinado» a TMG Automotive, que foi premiada no ano passado pela própria Cotec. «Desenvolveu recentemente um novo produto para o interior de automóvel, para os estofos, que é mais resistente. O produto é reciclável e usa menos recursos. Está a ser testado e deverá estar no mercado em dois ou três anos», indicou.

O futuro terá, de resto, de ser construído com conceitos como sustentabilidade em mente, como afirmou o presidente da Euratex, Klaus Huneke. «Se houver apenas uma mensagem a levar para casa, a mensagem é que o novo caminho da ITV deve responder ao mantra: seja digital, seja inteligente e seja sustentável», resumiu.