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Monteiro Fabrics na linha do Norte

Com mais de 50 anos de atividade, a Monteiro Fabrics está atenta às mais recentes evoluções do mercado. Impulsionada por uma procura da parte dos países nórdicos, a empresa portuense prepara-se para investir em equipamentos que lhe permitam alargar a gama de produtos à base de água.

Sónia Claro

Especializada na produção de tecidos revestidos desde 1967, a Monteiro Fabrics apresenta uma taxa de exportação de 90%, em que só a Alemanha absorve cerca de metade das vendas para o estrangeiro – a restante fatia divide-se um pouco por toda a Europa, destacando-se o Reino Unido e os países nórdicos.

No geral, estes mercados têm crescido, à exceção do Reino Unido, onde «temos notado alguma estagnação», revela a CEO, Sónia Claro. «[Vive-se um] momento de incerteza, por causa desta questão do Brexit. Mas, de qualquer maneira, é uma estagnação que acho que se ultrapassa», afirma ao Portugal Têxtil. Enquanto isso, a Monteiro Fabrics está atenta à evolução dos seus restantes clientes e, para 2020, o objetivo é «crescer no mercado escandinavo», acrescenta.

Deste modo, a empresa planeia investir em equipamentos que permitam melhorar o processo produtivo de modo a poder alagar a gama de produtos à base de água – um requisito dos países nórdicos. Apesar do objetivo já estar traçado, o reforço desta linha deverá materializar-se apenas em 2022. Contudo, coloca-se a questão da sustentabilidade. «Esta é uma discussão complicada», confessa a CEO. «No seu ciclo de vida, ou seja, desde a sua origem até ao fim, não sei se chegamos à conclusão sobre qual é o produto mais sustentável entre um à base de água e um à base de solvente», explica. «Vamos gastar recursos de água, depois temos de a tratar, temos de a encaminhar para algum sítio… São todos estes conceitos que acho que o público em geral não está elucidado», admite.

Para contrabalançar esta dúvida, a Monteiro Fabrics propõe, este ano, uma linha eco-friendly, de produtos biodegradáveis e reciclados. «Usámos têxteis que têm fibras recicladas, nomeadamente em poliéster [reciclado], e cobrimos com PVC ou com poliuretano», esclarece Sónia Claro. «Os países nórdicos estão muito interessados», sublinha.

Além do mercado europeu, a empresa está pronta para investir nos EUA. «Esta nova dinâmica com a China está a fazer com que o mercado americano se vire para outros parceiros. Pode ser uma oportunidade e [podemos vir a beneficiar] das boas relações que os britânicos têm com os EUA», acredita.

Um século de história

Apesar dos seus 50 anos de atividade, as origens da empresa recuam até à primeira guerra mundial. Fundado em 1917, o grupo Monteiro Ribas iniciou-se como uma fábrica de curtumes, que se tornou líder de mercado nos anos 50. O sucesso do negócio despertou o interesse do grupo na diversificação da sua oferta, que culminou com a criação da subsidiária Monteiro Fabrics, com duas grandes áreas de negócio: estofos (com maior peso) e calçado.

Com um efetivo de quase 600 trabalhadores, a empresa é «indústria pura», nas palavras de Sónia Claro, não subcontratando qualquer processo produtivo. Ao longo dos últimos dois anos, adquiriu algumas máquinas de acabamento e agora está pronta para investir «numa estratégia mais assertiva de comunicação e marketing», que pode passar pela criação de uma marca própria. «Esta é uma das áreas em que estamos a trabalhar neste momento e penso que se consiga ter algumas novidades em 2020», adianta.

Em 2019, a empresa atingiu um volume de faturação de 73 milhões de euros, uma subida de 8% face a 2018. «Não foi um ano fácil, mas tivemos um crescimento sustentado», assegura a CEO. «Solidificámos algumas relações com clientes que compravam menos e passaram a comprar mais», salienta, acrescentado que «o mercado dos estofos está ligado à confiança, ou seja, é aos poucos que se vai construindo. Os estofos têm que apresentar alguma durabilidade e uma determinada performance, o que implica uma confiança bastante grande no fornecedor».

No entanto, a Monteiro Fabrics ressente-se ainda com a escassez de mão de obra, transversal a toda a indústria têxtil e vestuário. «O nosso principal desafio foi conseguir recrutar operadores e retê-los, porque, estando em pleno emprego, é um pouco difícil reter quadros», reconhece Sónia Claro. «Há muitas opções [de emprego], há muita oferta em cima da mesa e, portanto, torna-se mais difícil atrair [trabalhadores]», assume. Além disso, a CEO destaca ainda que «a forma como as gerações mais novas encaram a profissão e o desafio profissional está a mudar bastante. Se não tivermos políticas corretas, que consigam ir ao encontro das suas expectativas, não conseguimos retê-los [os trabalhadores jovens] dentro da empresa e não conseguimos sequer que entreguem trabalho valorizado».