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M&S dá a volta por cima

Os resultados anuais deixam antever um futuro otimista. Depois de ter anunciado lucro pela primeira vez em quatro anos e um aumento significativo das margens de lucro no segmento de vestuário, resta saber se esta transformação será suficiente para reverter os infortúnios recentes.

Os lucros pré-taxas da Marks & Spencer (M&S) superaram as expectativas, fixando um crescimento de 6,1% para 661,2 milhões de libras. Este crescimento foi parcialmente atribuído ao melhor desempenho das margens brutas na categoria de bens gerais, que subiu 190 pontos base para 52,6%, atingindo valores equiparáveis ao período anterior à crise financeira.

A analista da Investec, Kate Calvert, acredita que os valores relativos aos bens gerais são encorajadores. «A oportunidade dentro da categoria de bens gerais para melhorar as margens brutas é clara a nosso ver, através do aumento do aprovisionamento direto», explica. No ano fiscal de 2016, as margens devem crescer em 150 pontos base para 200 pontos base, em resultado dos benefícios continuados de sourcing, possibilitando o investimento na «qualidade e preço do produto para impulsionar o crescimento ou melhorar a rentabilidade», aponta Calvert.

Marc Bolland, CEO do grupo, contratou os antigos executivos de aprovisionameto da rival Next, Mark e Neal Lindsey, tendo em vista a criação daquilo a que a M&S se refere como «ganhos de sourcing» na sua unidade de mercadorias. A retalhista britânica acredita, também, que esta medida irá melhorar a produtividade do segmento de vestuário, estabelecendo melhores acordos com os fornecedores, à medida que elimina intermediários.

Bolland teve de tomar algumas decisões desafiadoras de forma a conter as vendas e lucros derrapantes. A atividade promocional do grupo foi revista, resultando num menor número de eventos promocionais planeados durante o ano. O CEO destacou, simultaneamente, o progresso feito ao nível do lucro da empresa, focado no aumento das margens brutas. E, como Anusha Couttigane, consultora da Conlumino, sublinha, a gestão «não quer aumentar as vendas com o objetivo de apresentar um conjunto de números favorável, mas prioriza o crescimento do lucro para os acionistas e para o reinvestimento».

Clive Black, analista da Shore Capital, reconhece que o aumento de 0,7% das vendas de mercadorias gerais no Reino Unido foi «fundamentalmente importante», mas suscita a dúvida sobre se a M&S ruma agora à recuperação e se prepara para ocupar um território comercial mais positivo.

As vendas de vestuário da retalhista britânica diminuíram 2,5% para 3,9 mil milhões de libras no período de um ano, parcialmente em resultado do clima outonal moderado, que terá sido o terceiro mais quente, afetando as vendas de casacos e malhas.

No entanto, Couttigane sustenta que «enquanto o declínio do último outono/inverno será apenas uma pequena interferência no panorama dos rivais Next e John Lewis, no caso da Marks & Spencer parece uma continuação de uma longa série de atividades de vendas mal executadas. Na realidade, é uma tendência que está em linha com o desempenho do mercado da moda naquele período».

Como Couttigane admite, a sólida relação entre a M&S e os seus parceiros e fornecedores tem sido essencial ao aumento da margem e à manutenção da viabilidade do negócio internacional face a um panorama económico incerto na Europa e Médio Oriente. A retalhista estabeleceu equipas em diferentes países para estimular a concorrência entre fornecedores de vestuário, numa tentativa de incentivar a adoção de métodos de produção mais eficientes, melhores designs e contratos de custo e preço inferiores.

Em simultâneo, a relação da M&S com os seus parceiros de retalho é marcada por avanços e recuos. «Enquanto o cuidado dedicado à seleção de parceiros de franchising em territórios difíceis tem assegurado o seu compromisso com a marca M&S, a retalhista tem sido forçado a absorver o declínio do valor do euro e do rublo. O ajustamento dos preços do retalho em linha com a inflação e o corte de preços a clientes grossistas conduziu a um declínio considerável do desempenho internacional», refere Couttigane.

A Marks & Spencer foi recentemente questionada sobre a sua capacidade de voltar a apresentar lucros pré-taxas de mil milhões de libras. Clive Black acredita que isso não deverá ocorrer brevemente. No entanto, com o crescimento sustentado das vendas de mercadorias em geral, e algum estímulo nos mercados internacionais, a marca poderá apresentar «progressos consideráveis» neste campo, e rapidamente, afirma Black. «Trabalhando muito as despesas gerais e infraestruturas centrais através do plano de Bolland e Stewart [diretor financeiro da empresa], uma engrenagem operacional positiva poderia também estar na ordem do dia», acrescenta.

Apesar do crescimento de 0,4% das vendas em base anual, para 10,3 mil milhões de libras, e do aumento de 6,1% do lucro pré-taxas para 661,2 milhões de libras, o declínio de 2,5% das vendas de artigos, fixando-se em 3,9 milhões de libras, acompanhado do aumento de 190 pontos base da margem brua para 52,6%, são ainda vistos como um «resultado desanimador».

Especialmente «considerando os celebrados resultados do último trimestre do ano, durante o qual se assistiu a um crescimento da receita de bens gerais, incluindo vestuário, pela primeira vez em quatro anos. No entanto, um trimestre feliz não representa uma recuperação completa e estes resultados indicam que, se por um lado a M&S está a fazer um progresso claro, ainda tem um longo caminho a percorrer», conclui Couttigane.