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Mudança de rota no consumo chinês

Relógios desportivos com GPS integrado, leggings de compressão e packs de hidratação são os novos repositórios do dinheiro chinês, alimentando o monstro da indústria de sportswear num momento em que a elite da China procura controlar os gastos com as marcas de luxo mais tradicionais.

O vestuário para desportos extremos e o activewear caro estão em voga graças, em parte, à promoção do desporto pelo governo (antes dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, em Pequim), bem como pela compra da marca Ironman pelo magnata mais rico da China no ano passado. O mercado também deverá crescer com a decisão do governo de relaxar a sua política de um filho depois de 36 anos e com o facto de empresas como a Under Armour e a Lululemon Athletica estarem já a alinhar-se para ganhar dinheiro.

«É enorme – essa oportunidade de bem-estar e estilo de vida saudável em toda a China», afirmou Colin Grant, presidente-executivo do Pure Group, com sede em Hong Kong, um operador de ginásios, ioga, retalho e nutrição em toda a Ásia, à agência Reuters. «O luxo tem os seus desafios, mas o activewear é um segmento brilhante na indústria. Algumas pessoas usam-no para casamentos na China», acrescentou.

O Império do Meio vai acolher os seus primeiros eventos Ironman este ano, depois de o bilionário Wang Jianlin ter adquirido a World Triathlon Corp por 650 milhões de dólares (aproximadamente 684 milhões de euros). O negócio deverá capitalizar com a atual loucura pelo fitness, que assistiu a 134 maratonas e corridas realizadas em todo o país no ano passado, um aumento de 160% em relação a 2014, de acordo com a Chinese Athletic Association.

Como parte da promoção do desporto e de uma vida mais saudável, o governo chinês anunciou que, até 2025, serão construídos mais de 900 mil estádios e ginásios em todo o país.

Para a Under Armour e a Lululemon Athletica, duas das marcas ocidentais já ativas na China, o país oferece uma oportunidade de crescimento fora dos mercados maduros dos EUA e Europa. A produtora de sportswear nº. 2 nos EUA – Under Armour – espera que as vendas da China saltem 25% ao ano até 2018, enquanto a marca de yogawear sediada em Vancouver acredita que a primeira loja de Hong Kong poderá atingir os 8 milhões de dólares em vendas este ano. Mas estes dois jogadores vão enfrentar uma forte equipa de rivais chineses, como a ANTA, a Xtep e a 361 Degrees, cujos preços das ações cresceram entre 34% e 56% em 2015.

Estes números poderão depois comparar-se com os dos atores tradicionais do luxo, como a Prada – marca que afundou 45% na bolsa de Hong Kong no ano passado, com a repressão de Pequim sobre a corrupção e o mais lento crescimento económico da China em 25 anos a forçarem a elite do país a mudar os hábitos de consumo.

Parte do dinheiro outrora gasto com vinhos franceses e couro italiano parece agora estar a ser canalizado para monitores cardíacos topo de gama e sapatilhas de corrida.

O mercado sportswear chinês vai superar o mercado de bens de luxo em 2020, de acordo com o Euromonitor, com crescimento de dois dígitos a cada ano para 280,8 mil milhões de yuans (aproximadamente 38,6 mil milhões de euros), face ao crescimento de um dígito do luxo para 192,4 mil milhões de yuans no mesmo período. Em comparação, o mercado sportswear na Europa, valerá 64 mil milhões de dólares (aproximadamente 57,5 mil milhões de euros) em 2020.

O mercado da China está apenas em aquecimento. O sector do desporto contribui com 0,67% do produto interno bruto total da China, em comparação com os 2,2% na União Europeia e os 3,5% nos EUA, segundo a Oriental Patron Research.

Em Hong Kong, um típico relógio desportivo com GPS integrado custa até 2.000 dólares de Hong Kong (aproximadamente 231 euros), com as melhores marcas do segmento a proporem preços que rondam os 4.000 dólares, enquanto um par de meias de compressão atinge cerca de 900 dólares. «Gasto principalmente em calçado e relógios desportivos», confidenciou Gu Xiaojiang, de 36 anos, um corredor de maratonas que trabalha na indústria financeira em Xangai. «Do ponto de vista dos gastos, não incluindo taxas de transporte… Gasto alguns milhares de yuans por ano. Mas se começar a andar de bicicleta, suspeito que vou começar a gastar mais», acrescentou.

Aqueles que querem parecer desportistas sem realmente o serem estão a comprar cada vez mais artigos athleisure, uma fusão entre roupa desportiva e casual que tem crescido em popularidade mesmo em ambientes formais, como os escritórios nos EUA. À medida que os consumidores chineses se vão tornando mais ricos, vão também ficando mais exigentes no ato de compra, constata Shakeel Nawaz, diretor da Escapade Sports, que vende produtos de sportswear e nutrição, principalmente para o mercado de Hong Kong. «Os clientes da grande China que recebemos são muito, muito focados. Sabem exatamente o que querem das nossas lojas», revela Nawaz.