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Mudar o mundo com a moda

No arranque da ModaLisboa, as Fast Talks voltaram a tratar questões sérias em intervenções curtas. Nesta edição, que se realizou ontem, a conversa concentrou-se na forma como a moda pode mudar o mundo. Sustentabilidade, direitos humanos e savoir-faire foram alguns dos tópicos abordados.

Um dia depois da Implantação da república, exatamente no mesmo edifício onde em 1910 José Relvas, Eusébio Leão e Inocêncio Camacho anunciaram a mudança de regime em Portugal, a ModaLisboa levou as Fast Talks ao salão nobre dos Paços de Concelho de Lisboa para discutir como também a moda pode mudar o mundo.

Com uma imagem muitas vezes de futilidade, a moda tem historicamente contribuído para mudar mentalidades e tornar-se num espaço de aceitação da diferença. Anna Lottersbberger, atualmente Head of Fashion Cluster na escola italiana de moda e design Domus Academy, fez uma viagem pelo contributo da moda na defesa dos direitos humanos, desde o feminismo à aceitação do envelhecimento, passando pelas questões de género, tamanho e raça. «A moda tem problemas que têm de ser resolvidos, mas também é uma ótima ativista pelos direitos daqueles que não têm tanta voz», sublinhou durante a sua intervenção.

No caso de Noelia Morales, a moda tornou-se a solução para um problema de saúde. Diagnosticada com cancro da mama em 2014 e sujeita a uma mastectomia, a markeeter decidiu não avançar com a reconstrução mamária. Nascia assim a Anna Bonny (uma homenagem à pirata irlandesa), uma marca dedicada à criação de “palas” para ocultar a cicatriz da mastectomia e fazer com as mulheres continuem a sentir-se sensuais e confiantes. «Quis celebrar o facto de ter um seio», explicou. Para além da linha original, que começou pela adaptação de um soutien da La Perla, a marca conta ainda com uma linha de autor, pensada por designers convidados (como o modelo com cristais Swarovsky desenhado por Jessica Palazzo), e uma linha de monokinis, para a praia. «Muitas mulheres com cancro da mama têm dificuldade em aceitar o corpo. Espero que com esta “pala” que o mundo se torne um pouco melhor para elas», referiu.

Mas a moda tem também um lado negativo, sobretudo para o meio ambiente. «A indústria da moda é a segunda mais poluente do mundo», afirmou Kino Fox, empresária, designer e gestora de comunicação. Para combater este problema, Fox lembrou que os consumidores têm o poder de tomar opções mais conscientes, incluindo a análise das motivações da compra e as credenciais ecológicas do produto, assim como o prolongamento da vida das peças de vestuário. «Estou a usar uma saia que comprei há uns cinco anos e ainda a adoro», exemplificou.

A responsabilidade pela sustentabilidade está, contudo, também do lado das marcas, lembrou a moderadora Joana Barrios, responsável pelos figurinos do Teatro Praga. «Todos os processos de produção devem ser controlados», concordou Kino Fox. Mas nem sempre a sustentabilidade é suficientemente atrativa e muitas empresas praticam-na sem a comunicarem, considera Anna Lottersbberger. «A Loro Piana é um desses casos. Na sua unidade de tinturaria, tratam a água, que é depois descarregada para um lago dentro das próprias instalações, onde vivem sapos e peixes, o que prova que a água não é tóxica. Mas não querem comunicar isso porque acham que não é suficientemente sexy», apontou.

O problema da sustentabilidade na moda está também relacionado com o lado do negócio e a vontade das empresas e dos seus líderes de fazer crescer as vendas, como referiu a designer portuguesa Priscila Alexandre, atualmente designer sénior de acessórios na Hermès. «É um problema das marcas, mas não culpem os designers, que têm de fazer o que os empresários exigem», sublinhou. Aliás, Priscila Alexandre realçou durante a sua intervenção a valorização do “savoir-faire” artesanal. «O savoir-faire tem de ser passado para a próxima geração», defendeu, acrescentando que as pessoas têm de voltar a «apreciar as coisas bem feitas». Uma missão onde os designers podem ajudar, criando «algo que apele às emoções. Ser bom não é suficientemente bom, temos de almejar a excelência», resumiu.

A ModaLisboa continua hoje, com a apresentação dos novos designers em Sangue Novo, e prolonga-se até domingo, encerrando com o desfile de Luís Carvalho ao final do dia (ver ModaLisboa: 25 anos juntos).