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Muito sapato, pouco siso

A residência oficial do casal presidencial tunisino deposto no início do ano albergava 1.000 pares de calçado de designer, 1.500 artigos de joalharia e grandes stocks de produtos de higiene. «Sinto-me envergonhado. Há uma razão para a nação se sentir envergonhada», afirmou o especialista judicial Neji Baccouche na apresentação do relatório perante o Comité Nacional de Investigação de corrupção e apropriação indevida entre membros do antigo regime. Baccouche sugeriu mesmo que o antigo palácio presidencial em Sid Bou Said, perto da capital Tunis, seja tornado em museu como forma de lembrar a corrupção que prevalecia no país sob a tutela do presidente Zine Al Abidine Ben Ali e da sua mulher Leila Trabelsi. O relatório de 345 páginas destaca a extensão da corrupção não apenas no topo do aparelho estatal mas também em agências estatais, ministérios, bancos, autoridades alfandegárias, meios de comunicação social e advogados. «Analisámos 5.000 ficheiros dos quais 320 foram entregues a um procurador do Estado para um inquérito legal», indicou Baccouche. A corrupção e apropriação indevida afectou todos os níveis, segundo o relatório, e impregnou a administração, o sistema judicial, propriedades, atribuição de contratos e projectos estatais, privatizações, telecomunicações e o sistema fiscal, acrescentou. O relatório também denuncia o uso abusivo da autoridade, expropriações, chantagens e práticas ao estilo da máfia por outras pessoas para além das que eram próximas do casal presidencial e lança uma luz nas regras que regiam o trabalho dos jornalistas estrangeiros e nacionais, numa altura em que o país procura limpar a sua imagem. «Esta situação é o resultado da concentração de poder nas mãos de um homem», considera Baccouche. O relatório apenas identifica os suspeitos pelas iniciais dos seus nomes mas está anexa informação adicional da correspondência oficial do presidente com figuras públicas ou meios de comunicação social próximos. Entre esses anexos está uma carta para o empresário Hechmi Haamdi, um homem abastado residente em Londres, cujo partido ganhou 26 lugares nas eleições de 23 de Outubro para a assembleia constituinte. O relatório foi entregue ao presidente interino da Tunísia, Foued Mebazaa que deu ordens para que os bens de Ben Ali, da sua mulher e das suas famílias sejam apreendidos. Mebazaa também pediu para que aqueles que causaram prejuízos e roubaram as riquezas do país sejam responsabilizados.