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Mulheres são subvalorizadas no trabalho

Um novo estudo reformula o conhecido Princípio de Peter – que sustenta que num sistema hierárquico todos tendem a ser promovidos até ao seu nível de incompetência – e afirma que, no mundo do trabalho, a maior parte das mulheres está subaproveitada e ocupa uma posição que está abaixo do seu nível de competência.

A ideia de que as pessoas são promovidas «para o nível da sua incompetência» tornou-se uma banalidade nos círculos de gestão. O tratado satírico de 1969 sobre a vida e os negócios “O Princípio de Peter” apontava que ser bem-sucedido num cargo levava inevitavelmente a uma promoção, pelo que todos os postos mais altos eram ocupados por funcionários incompetentes, uma vez que estes tinham chegado a um trabalho para o qual não tinham capacidades para serem bem-sucedidos.

Mas para as mulheres que trabalham, a progressão indesejada não é um problema, como mostra um estudo recente. A maior parte das mulheres ocupa funções que estão abaixo do seu nível de competência, afirma Tom Schuller, que usou uma comparação com “O Princípio de Peter” para formular a sua conclusão: “O Princípio de Paula”. O estudo que levou a cabo mostra que mulheres em todos os níveis profissionais estão subpromovidas – não são apenas aquelas que aspiram a chegar ao nível mais alto da pirâmide executiva. O livro de Schuller, “The Paula Principle: How and why women work below their level of competence” (ainda não disponível em português) foi publicado no passado dia 9 de março.

A conclusão não é propriamente novidade para a maior parte das mulheres – e, provavelmente, também não o será para muitos homens. Em grande parte do mundo, as mulheres têm melhores performances em termos de educação e formação do que os homens, o que em teoria deveria levar a que as mulheres tivessem vantagem sobre os homens no local de trabalho. Um relatório de 2015 da OCDE concluiu que, nas 65 economias e países analisados (incluindo Portugal), aos 15 anos, as raparigas estão um ano à frente em comparação com os rapazes na capacidade de leitura. E em todos os países analisados, as mulheres representam 56% dos estudantes do ensino superior, com a entrada das mulheres na universidade a ter aumentado quase duas vezes mais rapidamente do que os homens no último século.

Tom Schuller conclui ainda que as mulheres estão mais envolvidas na formação profissional, em parte por que as mulheres trabalham mais no sector público (que dá mais formação) e como, explica, «as mulheres estão mais recetivas do que os homens a reconhecer a elas e aos outros que não têm as capacidades necessárias para fazer bem o trabalho».

Este sucesso a nível educacional e vontade de aquisição de capacidades está a aumentar o que Schuller chama de «gap de competências» entre mulheres e os homens que estão a ultrapassar. Mas embora fosse expectável que isso levasse as mulheres a ganharem mais e a terem mais responsabilidade, tal não acontece. Nos EUA, as mulheres ganharam 80% do que os homens ganharam em 2015. O gabinete de estatística americano revelou que o progresso em diminuir a diferença salarial na verdade diminuiu desde 2001 e a participação das mulheres na força de trabalho estagnou, tornando provável que elas nunca venham a representar 50% dos trabalhadores americanos. Globalmente, a média de vencimento das mulheres em 2016 foi metade da dos homens.

O autor identifica cinco principais razões pelas quais as mulheres são sobrequalificadas mas subpromovidas. A primeira é que ainda existe a discriminação sexista. A prestação de cuidados a crianças e idosos é cada vez mais dispendiosa e, na maioria, é feita por mulheres. As mulheres não têm as redes de contactos criadas pelos homens – contactos que são mais altos nas organizações e noutros locais – para as ajudar a avançar. Psicologicamente, as mulheres têm menos propensão para avançarem quando há um posto de trabalho disponível. E, talvez mais controversamente, Schuller aponta que as mulheres por vezes fazem uma «escolha positiva» para não subirem tanto quanto podiam.

Segundo Tom Schuller, «a chave determinante na trajetória de carreira de uma mulher não é se tem filhos, mas se trabalha em part-time». Na pesquisa para o livro, as mulheres descreveram repetidamente como os seus colegas as consideravam «quase invisíveis» assim que deixavam de trabalhar semanas de cinco dias a tempo inteiro, considerando-as menos empenhadas para com o trabalho e, como tal, menos qualificadas para uma promoção. Uma das entrevistadas, que é citada no estudo de Schuller, afirma «é como se uma lente tenha sido colocada na forma como as pessoas olham para ti».

A desvalorização do part-time não afeta apenas as mulheres. Mas tendo em conta o aumento dos preços para a prestação de cuidados a crianças, as mulheres têm mais tendência a trabalhar em part-time, sobretudo num momento mais tardio da sua carreira. Para além das questões de desigualdade, há ainda um problema de ineficiência neste sistema: as economias em todo o mundo estão a sofrer com o desperdício de talento induzido por um sistema patriarcal, aponta o estudo.

Uma abordagem para resolver este problema, refere o autor, é aconselhar os patrões a deixarem de pedir às mulheres para «agirem como um homem» no que diz respeito a perseguir as promoções. Outra encoraja as mulheres a «inclinar-se» e a procurar papeis de liderança. Mas Schuller argumenta que outra peça importante é encorajar carreiras em part-time também para os homens.

«Com efeito, a minha conclusão principal diz tanto respeito aos homens como às mulheres», escreve Schuller num artigo publicado no jornal The Guardian. «É que as mulheres apenas vão ser capazes de usar completamente as suas competências quando ambos foram capazes de seguir carreiras “mosaico” que não se conformam com o modelo convencional de emprego contínuo a tempo inteiro», conclui.