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Mundotêxtil luta contra o desperdício

A produtora de felpos procura aliar a sua dimensão à sustentabilidade, reduzindo a pegada ambiental. Este esforço, que tem vindo a impulsionar a atividade da Mundotêxtil, materializa-se, este ano, sob a forma de uma coleção fabricada a partir de restos de materiais.

Ana Pinheiro

«O ano passado já tínhamos realizado toda a nossa coleção em algodão orgânico, à semelhança do que efetuámos este ano», relembra a administradora Ana Pinheiro, evidenciando que a sustentabilidade já é um tema que corre nas veias da empresa. Contudo, em 2020, «resolvemos dar um destaque diferente e então apresentamos vários projetos que temos dentro do mesmo contexto», explica ao Portugal Têxtil.

Um deles é uma coleção cápsula resultante do reaproveitamento de fios desperdiçados. Em destaque, a empresa propõe uma toalha que recorre ao fio usado nos «restos normais da nossa produção», descreve a administradora, que, por sua vez, é enviado para uma fiação-parceira, de modo a fechar o ciclo produtivo.

Esta é só uma pequena amostra dos esforços da Mundotêxtil para a circularidade. Ainda há pouco tempo, a especialista em roupa de anho recebeu a aprovação pelos fundos comunitários de um projeto de economia circular, com a duração de dois anos, que contará com a colaboração da Universidade do Minho. «O que estamos agora a desenvolver é um projeto muito mais abrangente, que tem que ver com todo o desperdício de tudo que é gerado na empresa», revela Ana Pinheiro. «Já procedemos ao aproveitamento da água da chuva para o nosso processo produtivo. Temos uma série de cuidados ambientais, até porque os nossos clientes – além da nossa própria política ambiental – nos exigem cada vez mais isso e, então, estamos constantemente a fazer investimentos deste tipo», afirma.

À aposta na circularidade, a Mundotêxtil acrescenta a produção mais ecológica, recorrendo a fibras naturais que consomem menos água do que o algodão, nomeadamente o cânhamo e o kapok, e a coleção Jungle, que utiliza uma técnica exclusiva de jacquards de seis cores, desenvolvida há quatro anos. «Tentamos sempre apresentar coleções que sejam disruptivas, que não tenham qualquer comparação, que [os clientes] não encontram noutro lado. E eles reagem sempre muito bem», corrobora a administradora.

Antecipar desafios

Com uma capacidade produtiva de cerca de 500 toneladas mensais, a Mundotêxtil é atualmente a maior produtora de felpos, a nível europeu. O efetivo de 600 trabalhadores alimenta os processos de tecelagem, tinturaria (de fio e de felpo), a confeção, logística e embalamento, que dão origem, na sua grande maioria, a produtos de roupa de banho.

Apesar de ainda ter espaço para duas marcas próprias, a Blank Home e a Risart dirigem-se a nichos de mercado e servem pequenas quantidades, representando, em conjunto, apenas 7% a 8% da produção global corporativa. O resto dá origem a uma taxa de exportação de 98% que permite à empresa estar presente em 46 mercados, desde o Reino Unido, França, Suécia e Dinamarca aos EUA.

No entanto, «ultimamente, tendo em conta a crise europeia, temos vindo a trabalhar no sentido de deslocalizar [a exportação] e encontrar novos mercados emergentes», adianta Ana Pinheiro. Nesta lista, inserem-se a Arábia Saudita, Coreia do Sul e Israel, onde «[já] apostámos e agora começamos a recolher os respetivos frutos», assegura.

Ainda assim, a «baixa significativa» da Europa, o principal mercado da Mundotêxtil, pesou no volume de faturação, que «não registou crescimento face ao ano passado», assume a administradora. «O ano de 2019 começou muito calmo, muito brando. O primeiro semestre, comparando com o período homólogo [anterior], não foi positivo. No entanto, tivemos recuperação boa no segundo semestre», confessa.

«É normal que a indústria têxtil portuguesa dependa muito do mercado europeu» e «basta haver uma quebra ligeira de compra [por parte destes clientes], que sentimos», principalmente no seio de «empresas grandes como a nossa», admite a administradora. No entanto, em 2020, a Mundotêxtil prevê um ligeiro crescimento face ao ano anterior. «Este ano é um ano de consolidação, um ano [para levar] com calma, apostar internamente no desenvolvimento [das políticas] de recursos humanos e de sustentabilidade», aponta.

No âmbito desta estratégia, está previsto um investimento na tinturaria de fio, que ronda os 1,5 milhões de euros. «Temos de nos adaptar», reconhece Ana Pinheiro, e o «ideal é antecipar os desafios». Apesar de «reticente», a administradora acredita que «vai correr tudo bem», o que, aliás, parece já ser evidente pelos dados do primeiro trimestre, que mostram que «estamos a começar o ano da melhor maneira», garante a administradora da Mundotêxtil.