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Myanmar quer vestir o mundo

Em 2014, as receitas provenientes das exportações atingiram 1,5 mil milhões de dólares, um aumento de 300 milhões face ao ano anterior e o dobro do alcançado há menos de três anos. Estes valores refletem a abertura de inúmeras fábricas de vestuário no decorrer do ano passado e deverão continuar a crescer, traduzindo o investimento feito na renovação e expansão das infraestruturas do país, num esforço de resposta à crescente procura registada. Os dados divulgados pela Associação de Fabricantes de Vestuário do Myanmar (MGMA na sigla em inglês) relatam a abertura de mais de uma fábrica por semana durante 2014 em solo miynmarense, um indicador consistente do crescimento da indústria. O relatório permite ainda certificar o alargamento geográfico da rede industrial do país, que não se cinge agora exclusivamente à capital Yangon, tendo-se propagado a outras cidades periféricas. Crescimento rápido Atualmente existem mais de 275 estruturas industriais de grande dimensão no Myanmar, que produzem maioritariamente para exportação, e mais de uma dúzia de fábricas têxteis e fiações de algodão. Metade da receita proveniente de exportações no ano de 2013 resultou de casacos e fatos não malha masculinos, mas em 2014 registou-se uma substancial diversificação dos produtos expedidos, em particular pelas fábricas de propriedade estrangeira, que estabelecem no Myanmar unidades de produção específicas, semelhantes a outras que detêm em países diferentes. É notório, também, um maior interesse na produção de inputs e tentativa de aumentar o valor acrescentado da indústria através de uma maior integração vertical. Os investidores sentem-se progressivamente mais atraídos pelo sector do vestuário do Myanmar por inúmeras razões, entre as quais os baixos custos laborais ocupam um lugar cimeiro. Os grandes retalhistas mostram-se também mais propensos a basear as suas cadeias de aprovisionamento em países que apresentam boas perspetivas futuras, mesmo quando a situação atual implica impedimentos ao nível das infraestruturas e riscos ilegíveis. Como incentivo suplementar, a MGMA publicará, no decorrer do presente ano, um código de conduta a seguir pelas suas empresas associadas. Este documento resulta da estreita colaboração com o projeto “SMART Myanmar” promovido pela União Europeia, na sequência de diversos encontros com marcas e parceiros internacionais. «A indústria do vestuário do Myanmar é pequena quando comparada com a dos nossos vizinhos no Bangladesh, China e Tailândia mas estamos a viver, de momento, um crescimento robusto e sustentável, com investidores e retalhistas internacionais a descobrirem as atratividades da nossa indústria», afirmou U Myint Soe, diretor da MGM. «Obrigatoriamente, a nossa indústria enfrenta diversos desafios. O sector bancário do Myanmar está subdesenvolvido, as infraestruturas fora de Yangon estão em fase preliminar e as nossas redes de abastecimento internacionais são, por vezes, pequenas em comparação com as dos nossos oponentes estrangeiros. Estes são importantes obstáculos ao nosso crescimento mas a MGMA está a dar resposta a estes e outros problemas com determinação, organizando a capacidade de construir e defender uma política de melhoramento». Oportunidades e desafios Em comparação com os países fronteiriços, a indústria do vestuário myanmarense é ainda extremamente pequena e tende a especializar-se em produtos de qualidade superior e tecidos técnicos, tipicamente fornecidos pela China. De momento, a produção no Myanmar opera de acordo com o sistema de contratação “Corte, Confeção e Expedição” (CMP na sigla inglesa), significando que as matérias-primas são importadas pelo cliente e o design das peças, padrões e instruções são providenciados pelas fábricas. A unidade de produção confeciona as peças de vestuário, empacotando-as e transportando-as posteriormente até ao comprador. Por esse motivo, as margens de lucro são substancialmente inferiores e o foco na produção impede o desenvolvimento de serviços suplementares em solo doméstico e a valorização através da integração vertical. A alternativa, e modelo internacional mais utilizado, é o sistema “Free on Board” (FOB na sigla inglesa), através do qual as fábricas providenciam a aquisição e importação de matérias-primas e outros serviços como o design, merchandising, logística e armazém. Esta estratégia pode aumentar significativamente as margens de lucro, apesar de poucas fábricas myanmarenses disporem, atualmente, da dimensão, competências e acesso a crédito que suporte este tipo de operação. Por outro lado, o próprio sistema fiscal do país atribui benefícios aos adotantes do sistema CMP face ao modelo de produção FOB. Apesar destes constrangimentos, o interesse no sector mantém-se, fruto do potencial da indústria enquanto local de aprovisionamento. O país tem uma oportunidade significativa de se configurar às necessidades da indústria e adquirir o nível correto de competências, explicou o autor do relatório. Os compradores estão confiantes na possibilidade de instruir os trabalhadores através de parcerias colaborativas, melhorando a eficiência e observância do sector. O Myanmar apresenta também algumas vantagens face a outros fabricantes de vestuário regionais e os autores apontam, uma vez mais, os baixos salários, apenas superiores aos do Bangladesh, salientando também o rápido fornecimento e formação satisfatória da sua força de trabalho. Limitações ao crescimento são ainda uma realidade, em particular as fracas infraestruturas, as insuficientes funções de apoio e prazos longos. Mas a escassez laboral e greves frequentes em países como o Camboja e preocupações de saúde e segurança laborais expressivas no Bangladesh traduzem-se numa tendência crescente de diversificação dos locais de aprovisionamento, uma situação que poderá colocar o Myanmar no mapa.