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Myanmar traz incerteza ao vestuário

Tendo-se afirmado, nos últimos anos, como um dos centros de produção de vestuário na Ásia, com clientes como a Gap, a Mango, a H&M e a Next, o golpe militar de 1 de fevereiro deverá reverter o crescimento da indústria do país, mas poderá beneficiar a produção de proximidade na Europa, nomeadamente na Turquia e em Portugal.

[©CBI]

Depois de ter posto fim a mais de 50 anos de repressão militar em 2015, Myanmar posicionou-se como um destino de sourcing para muitas marcas ocidentais, incluindo a Bestseller, a C&A, a Gap, a Guess, a H&M, a Mango, a M&S e a Next, atraídas pela disponibilidade de mão de obra jovem e barata.

O regresso dos militares ao poder, a 1 de fevereiro, justificado por alegadas irregularidades e fraude nas eleições de novembro do ano passado, que voltaram a dar a maioria absoluta ao partido de Aung San Suu Kyi, atualmente detida, pode mudar a prosperidade da indústria de vestuário do país.

O vestuário, calçado e marroquinaria é o segundo maior sector de exportação de Myanmar, tendo registado um crescimento de 26% em termos anuais em 2019, para 6,7 mil milhões de dólares (cerca de 5,5 mil milhões de euros), dos quais 5,2 mil milhões de dólares correspondem a envios de vestuário. Nos primeiros 11 meses do ano passado, as exportações baixaram para cerca de 4 mil milhões de dólares, segundo o just-style.com.

Atualmente a União Europeia é a principal cliente de Myanmar, com uma quota de 54% de todas as exportações de vestuário, de acordo com a SMART Myanmar, uma iniciativa financiada pela UE que promove o vestuário “made in Myanmar” e práticas sustentáveis.

Portugal beneficiado?

Dois dias depois do golpe, Dirk Vantyghem, diretor-geral da Euratex, a confederação europeia do têxtil e vestuário, afirmou ao just-style.com que este golpe militar pode parar o dinamismo das exportações de vestuário do país para a Europa, que aumentaram 40% em termos anuais em 2020. «Do ponto de vista do desenvolvimento, isto vai ter um impacto devastador na economia de Myanmar», referiu, adiantando, contudo, que isso poderá beneficiar a produção de proximidade. «É difícil de quantificar. Penso que de certa forma a Turquia pode beneficiar, assim como Portugal e a Roménia».

De acordo com relatos no terreno, reunidos pelo just-style.com, várias empresas de vestuário em Myanmar não estão a funcionar porque os seus trabalhadores estão em greve e envolvidos nos protestos contra os militares.

[©Burma Campaign UK]
«Os donos das empresas já têm planos de contingência em caso de sanções», revelou U Aung Min, dono de uma confeção e membro do comité central executivo da união da federação de câmaras de comércio e indústria de Myanmar. «Eu próprio tenho uma fábrica na Tailândia e vou produzir vestuário “made in Tailand” em vez de “made in Myanmar”, mas tenho pena dos trabalhadores de Myanmar porque vão perder os seus empregos», acrescentou.

Segundo uma consultora das Nações Unidas no terreno, «a paragem no comércio de vestuário irá afetar 50% do sector comercial».

Os negócios europeus no país, representados pela EuroCham Myanmar, estão igualmente preocupados, sobretudo com a possibilidade de sanções por parte da UE, nomeadamente no que diz respeito ao estatuto de comércio preferencial de que o país goza junto do mercado único. «Seria um golpe mortal para a indústria têxtil do país», garantiu um responsável ao just-style.com.

Condenação internacional

Tanto a União Europeia como os EUA, assim como grupo de ministros dos negócios estrangeiros do G7, que inclui o Canadá, a França, a Alemanha, a Itália, o Japão, o Reino Unido e os EUA, condenaram o golpe militar e a ameaça de sanções foi já concretizada pelos EUA, que a 11 de fevereiro anunciou que irá reter o acesso a mil milhões de dólares de fundos do governo de Myanmar que se encontram nos EUA e congelar contas de militares e seus familiares, assim como dos negócios de pedras preciosas operadas pelo governo.

Há ainda preocupações com os trabalhadores. A H&M, que trabalha com cerca de 140 fornecedores em Myanmar, revelou ao Sourcing Journal estar a «dar prioridade à segurança do nosso staff, assim como a apoiar os nossos fornecedores para que possam assegurar a segurança dos seus trabalhadores».

[©SMART Myanmar]
Recentemente, uma coligação de organizações não-governamentais (ONG) fez um apelo às marcas ocidentais que denunciem o golpe de Myanmar. «As federações de sindicatos de Myanmar estão a pedir às marcas ocidentais para tomarem medidas e ajudarem a pôr fim ao golpe militar», pode ler-se no comunicado conjunto de 17 entidades, incluindo a Burma Campaign UK, Fashion Roundtable, GMB Union, Homeworkers Worldwide, Labour Behind the Label e War on Want. «Pedimos às marcas para fazerem compromissos públicos e encorajarem outras empresas a fazer o mesmo. A comunidade internacional tem de se unir para colocar pressão económica sobre os militares de Myanmar, sem afetarem negativamente as vidas e o bem-estar das pessoas de Myanmar», acrescenta.