Início Arquivo

Na cor da natureza

Tal como Fénix renascendo das cinzas, também os corantes vegetais reaparecem após um século votados ao esquecimento. Com efeito, a associação francesa Critt-Arrdhor (Association Regional de Recherche et de Développement Horticole) acaba de criar a “Couleurs des Plantes”, uma entidade destinada à comercialização de pigmentos e de corantes obtidos a partir de plantas. Os resultados de nove meses de investigação, intentados originalmente para restaurar obras de arte, parecem interessar vivamente os sectores da moda e da cosmética.

«Utilizadas durante milénios, estas técnicas foram abandonadas no final do século XIX a favor dos corantes sintéticos, bastante menos onerosos», explica Anne de la Sayette, directora do Critt-Arrdhor. A equipa de investigadores inspeccionou os achados medievais para encontrar os textos antigos que permitissem decifrar as receitas dos tingimentos primitivos. Em seguida, os jardins botânicos deram o seu contributo para a recuperação dos devidos grãos e plantas. Este trabalho de formiga permitiu exumar um milhar de plantas com poderes coloristas, 120 das quais originaram uma magnífica colecção.

«A beleza dos coloridos e o carácter natural dos corantes podem também desempenhar um papel importante na estratégia de marketing, cada vez mais sensível ao ambiente», sublinha a directora da Critt-Arrdhor. Entra a quarentena de plantas tintoriais cultivadas em parcelas de uma centena de metros quadrados, foram seleccionadas doze para produção à escala industrial: a garança (vermelho), o índigo (azul), a giesta e a reseda (amarelo), o coreopsis, o cosmos (laranja)… A madeira do Brasil (rosa avermelhado), a madeira de campeche (preto violáceo) ou os taninos de carvalho e de castanheiro. Outras, como a papoila, por exemplo, foram simplesmente excluídas devido às dificuldades do seu cultivo e colheita.

Uma vintena de hectares foram semeados, sobre os quais a Critt-Arrdhor estabeleceu um caderno de encargos e assinou um contrato com alguns produtores aos quais adquirirá a totalidade da produção. À excepção do índigo, a extracção permite a obtenção de um corante depois da fabricação de um pigmento cuja molécula é, contrariamente ao corante, insolúvel em água.

Apoiado nas suas pesquisas pela Anvar (Agence Française d’Innovation), o laboratório teve de ultrapassar 3 grandes dificuldades: a resistência dos corantes e dos pigmentos à luz, os entraves à produção industrial e o desenvolvimento do mordente para ligação às fibras têxteis. «É por vezes difícil criar o novo a partir do velho», reconhece Anne de la Sayette. O problema foi, todavia, resolvido através da adição de sais metálicos de alumínio, cobre, ferro ou titânio. Deste modo, o mordente oferece toda uma gama de tonalidades, de acordo com as matérias têxteis utilizadas. «Ajustada para as fibras naturais (algodão, lã, caxemira e seda), esta técnica mostra-se mais complexa quando aplicada na poliamida e no poliéster», reconhece Isabelle Clonier, uma das investigadoras do Critt-Arrdhor. Contactados pelo laboratório, os tintureiros parecem tropeçar sobre os aspectos técnicos. Daí a intenção do mesmo em abrir as suas portas aos industriais para que possam realizar testes sobre as suas próprias fibras.

A empresa francesa Atelier A. S., que estampa nomeadamente os lenços Hermès, trabalha há já vários anos sobre estes desenvolvimentos. «Este eixo de investigação não apresenta ainda benefícios comerciais mas os resultados são bastante encorajadores», afirma Dominique Faijan, responsável do Atelier A. S. «Mas há ainda um trabalho importante a realizar no sentido de alargar a paleta de cores, ena formulação fina das preparações coloristas». «Desde há 2 anos quea procura de informação multiplica-se», constata Isabelle Clonier. Há já contactos com empresas de cosmética, fabricantes de calçado, produtores de têxteis-lar,… Mas resta saber o principal: será que os industriais vão aceitar utilizar produtos naturais 3 vezes mais onerosos do que os corantes sintéticos?