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«Na Gallery houve negócio e mesmo encomendas para 2021»

Depois do êxito, até um pouco inesperado, da mais recente edição da feira de moda Gallery, o representante da Messe Düsseldorf e da Igedo Company em Portugal, Hans Walter, está convencido que as feiras físicas, sobretudo as que são líderes de mercado, vão sair reforçadas da crise pandémica.

Hans Walter

A Gallery foi uma das primeiras feiras de moda a regressar. Que feedback tem da feira?

A Gallery foi muito boa. Alguns portugueses não foram à Gallery com receio, mas quem foi trabalhou muito bem. O que aconteceu na Gallery foi um final de época muito forte, o comércio esteve muito tempo fechado, toda a gente esperava uma época comercial da primavera-verão, que foi o que se apresentou agora no fim do verão em Düsseldorf, extremamente fraca, mas não foi. Isso aconteceu porque a Gallery é uma feira para o centro da Europa – Benelux mas também Alemanha e Suíça. Nestes países já se percebeu que vão sair elegantemente da crise, portanto o comércio animou muito no verão, as pessoas tinham feito poupanças durante a pandemia, em que ficaram em casa e não saíam à rua, muitas não fizeram férias como seria habitual e agora sentem-se um bocado à vontade, sentem a segurança de que vão ultrapassar a crise de uma forma elegante e seguiram para comprar aquilo em que lhes apeteceu gastar o dinheiro que pouparam. Isso inclui vestuário, calçado e outros artigos com que as pessoas gostam de se mimar e, nesse sentido, o comércio animou muito nessa zona da Europa. E, de facto, quando a expectativa era se calhar mostrar força e presença, dizer que continuou vivo, o que aconteceu realmente é que na Gallery houve negócio e mesmo encomendas para 2021.

Como sentiu o ambiente?

A Gallery foi a última viagem que muita gente fez, porque concluímos a feira [Gallery Shoes] a 10 de março e as pessoas vieram à nossa feira pela última vez antes do lockdown aqui em Portugal. E agora foi a primeira vez que voltaram a sair internacionalmente. O que se sente na Alemanha, principalmente em Düsseldorf, é que as pessoas estão à vontade, os restaurantes estão cheios, as ruas de comércio estão cheias, as pessoas vão às compras e passeiam e isso deu ânimo também às pessoas que lá foram, enfim, porque não há outra forma, tem de se sair outra vez, voltar à luta e superar esta crise. Neste sentido foi muito positivo. O sector de criança também saiu em grande nesta crise, porque começa a escola, as crianças cresceram muito em três meses e esse sector animou logo de uma forma extraordinária, toda a gente teve que ir repor os sapatos e as roupas.

Representa também a Styl, na República Checa, que teve lugar em meados de agosto. Como correu essa edição?

Gallery Fashion & Shoes [©Gallery Fashion]
A República Checa está no cruzamento de vários países e a poucas horas de várias capitais europeias naquela zona, portanto as pessoas conseguem ligar-se rapidamente por estrada e, consequentemente, a feira não é tão afetada pelos visitantes e pelas viagens. Não é uma daquelas mega feiras internacionais que certamente sofrem muito, pelo facto de as pessoas da Ásia e das Américas não poderem vir à Europa, como temos muitas em Düsseldorf. Quem vai à Styl, vai à procura desse comércio. Deste modo, correu bem e julgo até que, para o único expositor que, desta vez, tivemos de Portugal correu muito bem. É uma feira mais pequena mas muito boa para aquela dimensão.

Nota uma apreensão maior por parte dos portugueses?

Há um pavor, um medo maior. As pessoas estão com um pavor enorme desta doença, com alguma razão, é preciso ter algum respeito, mas a questão de viajar não expõe mais as pessoas a essa doença. Já viajei e posso dizer que é uma experiência nova, sem dúvida, estamos de máscara o tempo inteiro desde que se entra no aeroporto, mas não é mais arriscado do que estar numa cidade. Os expositores portugueses também acharam que ninguém iria às feiras. Entretanto já vou na segunda feira e a verdade é que estão cheias, as pessoas estão a visitar, sentem a necessidade de lá estar, por isso acho que não há razão para desconfiar que não haja visitantes. No entanto, é obvio que ninguém está à espera que sejam as melhores feiras do mundo, principalmente quando são internacionais. É preciso ter isso em conta.

Que impacto tem tido o Covid-19 na atividade de feiras da Messe Düsseldorf?

Adiámos feiras – a primeira afetada foi a feira dos vinhos, que adiámos para 2021. Tínhamos um ano forte, mas a maior parte das feiras foram todas passadas para o próximo ano. São feiras que se realizam de quatro em quatro ou de três em três anos, o que facilitou também essa movimentação. Deste modo, há apenas um controlar de atividade que se recupera, esperemos nós, em 2021 – esperamos também que haja uma vacina ou um tratamento até ao fim do ano ou no início de 2021, mas não sabemos. Acho que, entretanto, as pessoas também se vão habituar a esta nova realidade. Enfim, vai-se abrir novas fronteiras, digo eu.

Enquanto organizadores, tentaram manter o contacto por via digital?

Criámos algumas plataformas online, onde algumas regiões se podem apresentar, dizer como é que estão a lidar com a crise, enfim mantemos o contacto com os nossos parceiros, mas a verdade é que tivemos sorte com os temas. Caravanismo é bom, turismo é bom, a feira Medica é ótimo, para o ano a A+A, dedicada a equipamentos de proteção e proteção no trabalho, é ótimo, são todos sectores que estão em grande e, por isso, acho que não nos podemos queixar. A moda, por ser no centro da Europa, também funcionou bem.

Quais foram as principais alterações registadas para quem tem que preparar uma feira?

Enquanto estivemos parados melhorámos toda a parte de higiene e segurança, para além de abrir outros canais virtuais – podemos estar mais em contacto entre os ciclos de feiras, darmos ferramentas às empresas para que possam manter esse contacto virtual com os visitantes. Julgo que isso vai ser o futuro e tem de ser também aprendido pelos nossos expositores e visitantes, esta interação, como estar presente digitalmente. Há muitas ferramentas que já tínhamos e que muitas vezes não se usavam.

Gallery Fashion & Shoes [©Gallery Fashion]
A feira tem um período de preparação importante em que se tem que definir objetivos, definir o que se vai lá fazer. Uma feira pode ter vários objetivos, óbvio que vender é sempre o objetivo final, mas também fazer análise de concorrência, comparar com outros, trabalhar com a imprensa,… Este tipo de preparação ainda tem de ser ensinado às vezes em Portugal e muitas vezes esquecemo-nos disso como organizadores, que temos que dar esse apoio e achamos que as empresas já estão muito habituadas às nossas ferramentas e às nossas feiras, mas a verdade é que muitas vezes ainda temos que voltar atrás e dizer que a feira não são só aqueles três ou cinco dias em que se está lá, mas é todo o trabalho antes e depois. Até à próxima feira existe um trabalho para ser executado, somos apenas uma ferramenta de marketing entre muitas, mas somos a mais importante. Em termos comerciais muitas vezes são quase as feiras que ditam os ritmos das empresas.

Esta pandemia veio reforçar o papel das feiras?

Houve muitas feiras que desapareceram no passado, mas temos que distinguir entre dois tipos de feiras: temos as feiras que são para bens de consumo e cuja importância no geral desapareceu – estou a lembrar-me de grandes feiras de eletrodomésticos, por exemplo –, mas quando estamos a falar de moda temos tendências, as pessoas querem informar-se. Nessas, como no vinho, não encontro uma alternativa viável. Já desde o passado que se fala que as feiras vão desaparecer por causa da internet e que as pessoas já não têm necessidade de ir às feiras. Acho que simplesmente reafirmamos o papel da feira, as pessoas sentem que nesta altura as feiras não vão desaparecer, que são cruciais e nesse sentido ainda bem que ficamos com essa imagem. Também temos que distinguir o que são feiras líderes e o que são feiras regionais.

Hans Walter

Há o risco, em certos sectores, que as feiras mais pequenas desapareçam, as pessoas vão querer viajar menos e vão dizer “ok, vou a uma e acabou-se”. Isso pode ser que aconteça. Isso significa que aquelas feiras mais pequenas, em que se vai por apenas seis ou sete clientes que se tem naquela região, são capazes de ser afetadas. Pode ser um desenvolvimento interessante. Mas em Düsseldorf temos feiras líderes mundiais, estamos felizmente um bocado mais descansados.

O maior desafio, neste momento, é levar as pessoas a viajar?

Sem dúvida. Acho que é isso que se sente, as pessoas têm medo do avião.

Está otimista em relação ao futuro das feiras?

Muito otimista, sempre estive, aliás. Em primeiro lugar porque a internacionalização é o que leva à prosperidade das empresas e do país e, por isso, não tenho dúvidas de que as feiras manterão a sua importância como uma das principais plataformas para atingir os objetivos das empresas no futuro também e somos seres humanos, somos seres sociais, e portanto queremos rapidamente voltar a estes ciclos de feiras logo que for possível. Julgo que vem aí um boom novamente e business as usual, tenho a certeza disso.