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Na peugada do Brexit

O referendo à saída do Reino Unido da União Europeia pôs britânicos, europeus, mas também o resto do mundo, num estado de ansiedade, sobretudo com as mais recentes sondagens a darem a vitória ao “sim”. Os empresários e a indústria da moda já tomaram as suas posições.

Há alguns meses atrás, poucos seriam capazes de apostar numa vitória do “sim” no referendo do próximo dia 23 de junho. Mas a poucos dias das urnas, a maior parte das sondagens aponta para esse cenário. A 17 de junho, a média das sondagens calculada pelo Financial Times (poll of polls) e atualizada todos os dias, apontava para uma vitória do Brexit, com 48% dos votos, enquanto 43% optava por permanecer na UE. Os resultados destas sondagens, contudo, não contemplam ainda as implicações do assassinato da deputada trabalhista Jo Cox, que levou à suspensão da campanha e cujo impacto é ainda difícil de determinar.

No entanto, as preocupações adensam-se com a proximidade do referendo. Uma notícia da Reuters, publicada na sexta-feira, 17 de junho, dava conta que muitas empresas britânicas se estão a preparar para uma possível vitória do “sim”. Vários executivos revelaram-se preocupados com a gestão das relações com funcionários, clientes, fornecedores e acionistas internacionais imediatamente após os resultados serem anunciados a 24 de junho, com muitos a afiançarem que irão estabelecer contactos com os stakeholders caso o “sim” vença. «O que precisamos de fazer imediatamente é entrar num diálogo muito sério com os clientes após o dia 24 para identificar tanto oportunidades como desafios na continuidade da relação», afirmou um executivo sénior do FTSE 100.

Muitos empresários temem as repercussões da saída do Reino Unido da comunidade europeia. 51 líderes empresariais da European Round Table of Industrialists (ERT), entre os quais Paulo Azevedo, diretor-executivo da Sonae, que representam a indústria europeia e são responsáveis por quase sete milhões de postos de trabalho, enviaram um comunicado no final de maio a defender a permanência do país na UE. «O desmembramento do mercado único e das regras aplicáveis aos 28 iria reduzir e não impulsionar a nossa prosperidade. Uma Europa unida beneficia o investimento e a criação de emprego», referem no documento, acrescentando ainda que «embora respeitando a decisão do povo do Reino Unido, acreditamos que uma Europa sem o Reino Unido seria mais fraca, assim como o Reino Unido seria mais fraco fora da Europa».

Há, contudo, empresários britânicos, que lideram especialmente pequenas e médias empresas, a acreditar que a mudança será positiva para a economia do país. Numa carta publicada no jornal The Telegraph há cerca de um mês, 306 empresários afirmam que «ano após ano, a União Europeia compra menos ao Reino Unido porque a sua economia está estagnada e existem milhões de trabalhadores desempregados», pode ler-se. «Fora da UE, as empresas britânicas vão ser livres para crescer mais depressa, expandir-se para novos mercados e criar mais emprego. É altura de votar a saída e recuperar o controlo», destacam.

Onde fica a moda

Especificamente na área da moda, são muitos os apologistas de que uma saída da UE irá ter um impacto negativo na indústria, não só no país, onde representa 26 mil milhões de libras (33 mil milhões de euros), segundo o Business of Fashion, mas em todo o mundo.

O “sim” trará provavelmente a desvalorização da libra – segundo o HSBC a libra pode cair 20% –, o que, tendo em conta que muitas empresas britânicas subcontratam a produção de vestuário em países como a China, onde pagam em dólares, irá implicar um aumento dos custos. Por outro lado, muitas empresas, como a Burberry, efetuam parte significativa das suas vendas no estrangeiro. As alterações na legislação, para importações e exportações, irão ainda mexer nos negócios. «Praticamente todo o comércio do Reino Unido [com o mundo] teria de ser de alguma forma negociado», sublinhou Roberto Azevêdo, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, numa entrevista ao The Financial Times.

A oposição de criativos e pessoas ligadas à moda à saída do Reino Unido da UE é praticamente generalizada. Durante a semana dedicada à moda masculina, um grupo de modelos usou roupa com a palavra “Stay” (ficar) e bandeiras da União Europeia durante a apresentação do designer emergente Daniel W. Fletcher e os designers fundadores da marca Sibling usaram t-shirts com a palavra “In”. Já em fevereiro, Christopher Bailey, CEO e diretor criativo da Burberry, foi um dos que assinou uma carta publicada no jornal The Times of London que afirmava que «a Grã-Bretanha vai ser mais forte, mais segura e melhor se continuar a ser membro da UE».

Uma sondagem do British Fashion Council, que contou com 290 respostas, mostrou que 90% dos designers inquiridos são a favor da continuação na UE, tendo em conta as dificuldades antevistas. Como sublinhou Christopher Kane, citado pelo New York Times, «as fantásticas costureiras de Itália, de toda a Europa, que trabalham connosco há cinco anos… Quanto custaria para nós conseguirmos vistos para elas?». Peter Pilotto, por seu lado, cuja empresa está sediada em Londres, revela que 70% da equipa da marca que fundou com Christopher De Vos é internacional. Se o Brexit se confirmar, «as pessoas terão de migrar outra vez», salientou.

Fora do Reino Unido, a apreensão está também presente. Carlo Capasa, presidente da Camera Nazionale della Moda, afirmou por email ao The New York Times que «a moda italiana olha para um possível Brexit com preocupação. Os seus efeitos serão muito negativos».