Início Notícias Têxtil

Nanosmart deu novos trunfos à Riopele

Em resposta ao desafio da Riopele, os investigadores do CeNTI criaram uma tecnologia de acabamento para limpeza fácil, que resultou na Çeramica Clean, já integrada na coleção da empresa de tecidos, e um casaco que conjugou design e painéis fotovoltaicos, que atraiu as atenções em feiras e na passerelle.

O projeto promovido pela Riopele – que celebra este 90 anos em 2017 (ver Riopele joga na antecipação) e recentemente apresentou a marca Tenowa (ver A condecoração da Riopele) – decorreu de 1 de setembro de 2012 a 31 de agosto de 2014 e começou por «encerrar quatro ideias distintas», explicou, ao Jornal Têxtil, Ana Cardoso, uma das investigadoras do CeNTI envolvidas, num artigo publicado na edição de outubro.

Ana Cardoso

«O objetivo era desenvolver estruturas têxteis inteligentes e também estruturas têxteis funcionais para proporcionar várias propriedades de interesse, no caso para a Riopele, que era a promotora do projeto, que seriam baixa eletricidade estática, fácil limpeza e elevada solidez da cor», enumerou a investigadora.

Da investigação realizada – uma das muitas em que o CeNTI está envolvido desde 2006 (ver Inovação “made in” CeNTI) –, que incluiu também o Citeve e o Instituto de Ciências Exatas e Tecnológicas da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e um investimento elegível superior a 710 mil euros, financiado pelo Qren, saiu uma nova tecnologia de acabamento, que resultaria na marca Çeramica Clean, e um casaco com eletrónica integrada.

O novo processo de acabamento «é uma máquina de revestimento por pulverização, que a Riopele integrou dentro de portas e está neste momento a explorar», adiantou Ana Cardoso. «O que se fez foi introduzir um acabamento através de uma tecnologia inovadora que permitiu que o acabamento ocorresse só na face exterior do tecido, portanto, não prejudica o conforto do contacto com a pele e maximiza o desempenho, porque temos o produto concentrado na superfície externa do tecido», explicou a investigadora.

Em termos químicos, são usados fluorcarbonetos de base C6. «Houve preocupação em usar compostos que tivessem um impacto mínimo no ambiente. E a própria tecnologia, ao revestir só uma face, também permite muitas poupanças em termos de produto, de consumo de água, porque aplicámos em menos quantidade», sublinhou.

O lado tecnológico

O outro resultado do projeto traduziu-se num bomber jacket com um sistema de tecnologia integrada, totalmente amovível, que permite acumular energia solar para o carregamento de dispositivos móveis.

Filipe Silva

«Basicamente recebe a energia nos painéis fotovoltaicos, que é depois “transportada” para as baterias, onde fica armazenada. Permite carregar, por exemplo, o telemóvel – é como se fosse um power bank, também completamente móvel, mas integrado numa peça de vestuário», esclareceu Filipe Silva, designer industrial do CeNTI. «Além disso tinha a função de lanterna, com LED», acrescentou.

Além do protótipo, que foi apresentado na Techtextil 2015 e na passerelle do Portugal Fashion, o CeNTI desenvolveu também a marca Plus Power, para a Vicri. «Este foi o primeiro produto, um produto mais embrionário, mas há outras coisas que eles podem fazer daqui para a frente com esta marca», sublinhou Filipe Silva ao Jornal Têxtil.

Uma das possibilidades para levar a tecnologia mais longe, avançou o designer industrial, pode ser «integrar alguma coisa relacionada com redes, com hotspots ou algo do género, para não ter apenas bateria mas também rede de telemóvel».

Pelo caminho ficaram, para já, as investigações relacionadas com as propriedades antiestáticas e de solidez de cor. «A Riopele pretendia ter um tecido que durante a confeção ou durante a exposição em montra de um artigo não acumulasse pó. A baixa eletricidade estática, por si só, não solucionou esse problema. Portanto, a questão da aderência das poeiras vai para além da eletricidade estática», reconheceu Ana Cardoso.

«No caso da solidez à cor, foi desenvolvido um trabalho bastante extensivo em relação a tentar ancorar corantes convencionalmente utilizados pela Riopele a nanopartículas de sílica para conseguirmos ter estruturas que assegurassem o maior aprisionamento do corante ao tecido e nos testes de fricção a húmido percebermos que a cor não sairia. Mas também aqui não conseguimos os resultados desejados», confessou.

No entanto, ambos os problemas continuam a ser objeto de ponderação. «Obviamente que penso nisso», admitiu a investigadora, que elogia ainda a postura da Riopele durante o processo. «Trabalhamos com imensas empresas, temos que lidar com uma diversidade de empresas, de filosofias, de métodos de trabalho e isso também é um desafio, não é só o desafio da investigação. Acho que a Riopele tem uma postura muito desafiante, impõe-nos um ritmo de trabalho bastante alto, mas depois dá todo o feedback e apoio. No fundo, trabalhamos em conjunto, sentimos mesmo que é uma parceria, todos a caminhar para uma solução, somos desafiados diariamente, mas qualquer dúvida, qualquer incerteza que surja no caminho relacionada com as competências deles, eles também estão lá para nos guiar nessa direção. Temos, obviamente, outros exemplos, mas a Riopele será uma das empresas que está na linha da frente na forma de dirigir projetos e de motivar», considera Ana Cardoso.