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«Não crescemos por crescer»

O grupo Becri adquiriu recentemente a Posolis e está a construir uma unidade produtiva pensada para responder às exigências de customização do mercado. Um crescimento que se enquadra na estratégia do grupo e lhe permite ambicionar atingir os 100 milhões de euros de volume de negócios até 2025.

José Costa

A customização, a digitalização e a sustentabilidade são conceitos que enquadram a estratégia de crescimento do grupo Becri e que ditaram as apostas dos últimos anos. Em entrevista ao Portugal Têxtil, José Costa, CEO do grupo, revela os motivos que estão por detrás da recente aquisição da Posolis, mas desvenda igualmente os pormenores do investimento em curso numa unidade produtiva direcionada para a customização, os objetivos fixados para os próximos anos e a solução que o grupo especialista em confeção encontrou para contornar a falta de mão de obra em Portugal.

O grupo Becri adquiriu recentemente a Posolis. O que motivou esta aquisição?

Nós não crescemos por crescer, há uma estratégia subjacente e a estratégia é a customização, seguindo esta tendência de um pequeno cliente que está a iniciar. Hoje em dia estamos a lidar com muitos clientes, com projetos de muito valor acrescentado, mas de pequenas quantidades. No grupo Becri não tínhamos as competências para trabalhar este tipo de produtos de pequenas quantidades. Ora, a Posolis é uma empresa proveniente de uma grande empresa de Barcelos, é a Tebe, e tem uma filosofia de trabalho que, à partida, nos interessou muito. O sistema de trabalho deles é uma filosofia que tentei implementar nas empresas do grupo Becri e não consegui – e na qual também não insisti. Achámos que, estrategicamente, é uma compra interessante e que vai complementar a oferta de produtos e serviços que o grupo Becri tem.

Quantas pessoas trabalham na Posolis?

À volta de 150 pessoas.

Vai haver mudanças na empresa?

Vai continuar tudo exatamente igual, incluindo o nome. Aliás, por isso é que demorou tanto tempo a fazer esta aquisição, desde outubro do ano passado, porque quisemos manter o nome Posolis, até porque é um nome que tem o seu encanto e reconhecimento no mercado pelo passado que tem e pela sua génese. Em termos de funcionamento, a Posolis faz pequenas séries, mas também faz grandes séries. Digamos que o conceito é a versatilidade. Normalmente, quem faz grandes séries não consegue fazer pequenas séries, mas quem faz pequenas séries, consegue fazer grandes. Foi este conceito que nos interessou e não vamos alterá-lo – o que está bem é para ficar. Com certeza que há algumas pequenas coisas em que iremos pôr o nosso cunho pessoal, mas de uma maneira geral vamos beber um bocadinho esta filosofia de trabalho.

O grupo Becri agora é constituído por quantas empresas?

Tem a Becri, a Guay, a Gubec e a Posolis, que são empresas exportadoras. E temos cinco unidades produtivas: uma em Vila Verde, com 85 pessoas; uma em Guimarães, com 105 pessoas; duas em Ponte de Lima, cada uma com 22 pessoas; e a mais recente aquisição é a antiga Zopli, que era uma empresa que pertencia à Posolis – chamam-se todas Títulos & Rubricas (de 1 a 5).

No total, quantas pessoas trabalham no grupo?

Cerca de 800 pessoas.

Qual foi o volume de negócios em 2021?

Em 2021 registámos um volume de negócios de 67 milhões de euros.

Como está a correr este primeiro semestre do ano?

Está a correr relativamente bem. O ano passado foi, para nós, um ano de excelência e este ano não nos podemos queixar, porque estamos a manter os mesmos índices. Com esta aquisição recente e com as obras estruturais que estamos a fazer nas nossas empresas, a ideia é ter um crescimento também de volume de negócios – o grupo chegar aos 100 milhões de euros até 2025.

Referiu já em entrevistas anteriores que o futuro da Becri era a digitalização. Em que patamar se encontra neste momento essa transição?

Está a correr bem. Podíamos estar mais avançados, mas também podíamos estar mais atrasados. Se calhar não estamos nem à frente, nem atrás, estamos ali no meio, mas já demos passos importantes. Temos a modelação 3D, com o CLO 3D, que é um serviço que estamos a prestar aos nossos clientes e que está a ter bastante sucesso. Também estamos a investir na parte da digitalização do corte, um investimento na ordem dos 25 mil euros, mas isto vai com certeza extrapolar para os outros sectores.

Quando adotaram o CLO 3D?

Começámos em 2019, avançámos, mas não pensávamos que íamos avançar tanto como avançámos, porque antes do covid havia resistências, mesmo a própria equipa do cliente tinha resistências. O que é certo é que o covid acelerou isto de uma forma que hoje temos uma equipa de trabalho de seis designers e duas pessoas só dedicadas a fazer 3D. Fomos impulsionados por dois clientes, que nos incentivaram na parte do 3D. Tirando esses dois, que estão mais avançados, sentimos que há outros que nos estão a querer acompanhar. Temos uma equipa de demonstração a dizer como funciona, porque os próprios clientes que estão uns passos atrás, ao verem a ferramenta em ação, percebem que aquilo são passos à frente em relação à concorrência deles. Olham para nós como uma referência, para aprenderem e levarem esse conhecimento para as suas equipas internas. É um passo que está a acontecer de forma natural, mas sinto, da parte dos clientes, que querem explorar de forma exponencial esta ferramenta. Em termos de eficiência, estamos a falar de produção, por exemplo, de um protótipo com artwork que demorava uma semana, numa forma normal e natural, para passar numa questão de horas a ter a apresentação de um modelo virtual, mas de forma a que o cliente perceba exatamente como se vai comportar no fitting, no caimento da própria malha. Portanto, ele tem uma perceção real daquilo que veria se fosse fazer uma peça física. Estamos a falar de uma diferença de uma semana para um dia. Neste momento, a proporção será esta

E ao nível da customização e on-demand, têm alguma iniciativa em curso?

Temos um projeto, que começou há um ano e que, fisicamente, vai iniciar em setembro, para dar apoio a start-ups de marcas. É um projeto que vai ao encontro da de duas direções a que vamos ser fiéis: sustentabilidade e customização. A customização evita desperdícios e é uma tendência que estamos a ver cada vez mais e nós estamos atentos, por isso estamos a construir uma empresa de raiz precisamente só para trabalhar a customização e numa base sustentável. Uma das dificuldades que marcas e designers que querem lançar uma marca própria sentem é encontrar uma empresa disponível para fazer as coleções que necessitam. Temos alguns fatores que vão limitar um pouco a imaginação dessas pessoas que querem lançar as marcas, mas, por outro lado, vai customizar de forma inequívoca o que quiserem fazer – vai customizar a 100% em termos de cor, de detalhes, de artworks,… Portanto, esta empresa, que se vai chamar Wonder Raw, vai ser dedicada a 100% à customização do produto.

Qual será a ordem de grandeza do investimento nesta nova unidade?

Estamos a falar de um investimento a rondar, no total, os 6,5 milhões de euros. Já está no terreno. O edifício está em construção, em Manhente, e já temos as máquinas compradas.

O serviço será disponibilizado só para start-ups?

Não. A ideia é fazer um complemento da customização para marcas que queiram nascer, mas também para prestação de serviços.

Quantos postos de trabalho serão criados com essa empresa?

Estamos a estimar, numa primeira fase, 20 a 25 postos de trabalho.

Tem sido fácil encontrar colaboradores?

Isso vai passar, inevitavelmente, por uma situação que já temos em marcha, que é a importação de mão de obra qualificada. Estamos a fazer isso com um país estratégico – o Bangladesh – e já está numa fase avançada. A primeira vaga de pessoas vai chegar, em princípio, entre setembro e outubro. Estamos a falar à volta de 15 a 20 pessoas, vamos fazer uma experiência-piloto.