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«Não posso viver só para Portugal, tenho que viver para o mundo»

A falta de desfiles físicos foi um dos desafios que Miguel Vieira teve de enfrentar durante a pandemia, com a opção virtual a ser menos do que desejável. O designer, contudo, não é de todo avesso à tecnologia e tem alterado o seu modelo de negócio em direção ao online, para onde tem canalizado cada vez mais investimentos.

Miguel Vieira

Em entrevista ao Jornal Têxtil, Miguel Vieira afirma que as redes sociais trouxeram novas possibilidades e até facilitaram a vida aos novos talentos, mas a moda ainda se faz muito no contacto pessoal, quer do designer com os clientes, quer do consumidor com o produto, e é esse glamour que ainda o entusiasma, depois de 36 anos de carreira.

Que mudanças trouxe a pandemia?

Em termos de negócio, a única coisa foi passar a vender no online, não a parte de fashion, mas uma parte mais consumível. O online era algo que eu queria já fazer há bastante tempo, mas tive mais tempo para pensar e poder organizar-me nesse sentido. Acho que fui das primeiras pessoas em Portugal a ter um site de moda, fui dos primeiros na moda a ter uma aplicação da Apple Store. Obviamente que, quando começaram a surgir os canais de venda online, fui dos primeiros a ser convidado para participar. Não o quis fazer por uma questão de respeito pelos meus clientes. Em várias cidades tenho um cliente exclusivo só de roupa, uma loja só de sapatos, uma de mobiliário, uma de joias, uma de óculos… Depois, de um momento para o outro, percebi que essas lojas criaram websites e, por isso, passaram a vender para o mundo. Então, se elas fazem isso, acho que também chegou a altura de eu poder vender para o mundo. Eu é que sou o dono da marca, portanto eu é que tenho de saber o rumo. Ainda não o tinha feito por uma questão de ética. Não me sinto mal por esta ética, uma marca tem que ter online, mas tinha facilitado um bocado nesse sentido e achei que era o momento certo para o poder fazer. E estou muito contente, porque as coisas estão a funcionar realmente muito bem e cada vez melhor.

Quais foram os mercados que surpreenderam nas vendas online?

Nova Zelândia, Uruguai – já tinha feito a Fashion Week do Uruguai, portanto era natural ter clientes no Uruguai –, Cidade do México, Bahrain, vai-nos aparecendo vários países.

Como viveu o tempo do modelo híbrido de desfiles?

Não gostei, e digo muitas vezes que quando comecei a trabalhar nesta área soubesse que ia ser isto, acho que tinha mudado de profissão, porque tudo o que envolve um desfile, desde as mulheres irem ao cabeleireiro, comprarem roupa, os homens vestirem-se, se calhar até mandarem lavar o carro para chegar ao desfile com um carro bem lavado, haver uma passadeira, as pessoas poderem entrar, haver uma primeira fila, receber o convite, o bater palmas, haver toda esta mise-en-scène que envolve um desfile é para mim bastante importante e faz sentido, também porque acho que tenho um bocado uma veia latina, sou uma pessoa de afetos, de abraços, gosto de estar e tocar nas pessoas, e tudo isto é algo que me seduziu ao longo da vida. Durante os últimos anos, fui obrigado a fazer desfiles digitais, o que dá três vezes mais trabalho em relação a um desfile normal e sobretudo é um bocado aborrecido e triste, porque se resume a um vídeo que tem seis ou sete minutos e que, pronto, passou um vídeo, mais nada – perde o glamour todo, perde a alma.

Onde foi beber inspiração para esta nova coleção?

 

Durante muitos anos andei sempre a navegar entre o preto e o branco nos desfiles, eram as cores com que me identificava e as pessoas, ao longo dos anos, associaram sempre Miguel Vieira ao preto e ao branco. Nas últimas estações tenho apresentado muita cor – tive sempre cor, mas quando chegava a altura dos desfiles tinha uma tendência para ir buscar roupas pretas. Achei que fazia sentido voltar ao ADN da marca Miguel Vieira e voltar outra vez um bocadinho ao preto. Daí o tema da coleção, “Black Dinner”, porque é um grupo de amigos, de pessoas bastante jovens, que resolve ir para uma montanha e fazer um jantar chiquérrimo, com uma decoração maravilhosa e o convite que recebem, com seis meses de antecedência, diz black tie e é, portanto, basicamente para as pessoas irem vestidas de preto. A ideia era cada um, na sua personalidade, poder vestir as roupas em tons de preto, de preferência, ou azul marinho, cores mais escuras, mas poder alterá-las e modificá-las como elas quisessem, para cada um ter a sua própria personalidade. E assim aconteceu e, então, há uma mistura muito grande de pessoas sentadas a uma mesa, na qual depois há uma linha condutora que é a da coleção, mas que é um jantar que corre muitíssimo bem e muito elegante acima de tudo.

O que mais o entusiasmou nesse processo de desenvolvimento?

Deu-me bastante gozo trabalhar a parte de estampagem, de sublimação, de aplicação de foil em cima de fazendas, que era algo que já tinha feito, mas que quis aprofundar um bocadinho mais nesta coleção.

Esta coleção já esteve na passarela em Milão. Que feedback obteve?

Em termos internacionais foi muito bom, porque lá param todas as revistas internacionais e há um grande feedback e um grande clipping em termos internacionais de várias revistas de vários países. Paralelamente, além das revistas e dos jornais, também é um desfile que tem uma visibilidade muito grande porque passa online nas principais capitais, em direto, desde Nova Iorque a várias cidades em Itália, em praças emblemáticas que têm ecrãs gigantes e transmitem diretamente o que está a acontecer na passarelle. E existe um site, que a comunidade da moda respeita muito, chamado The Impression, que atribui pontuação a cada uma das coleções, onde estão 100 editores de moda do mundo inteiro e onde a nossa classificação foi muitíssimo boa. Portanto, o feedback é ótimo, fiquei muito contente com esta apresentação e, sobretudo, por voltar aos desfiles físicos.

Houve nesta edição em Milão um showcase do Portugal Fashion com buyers. Que vantagens retira de uma iniciativa destas?

Tivemos um bom feedback, essencialmente de italianos. Muitas vezes não é para aquele momento, mas posteriormente eles passam a comprar e a vender. Acho boa ideia tudo o que seja um complemento ao desfile e poder haver buyers, um espaço onde se possa mostrar e as pessoas tocarem nas peças. É ótimo, porque uma coisa é a pessoa ver as peças no desfile e outra coisa é poder tocar num tecido. Isso, para mim, é bastante importante.

 

Já passou por muitas passerelles internacionais. Qual é a passerelle de excelência do Miguel Vieira?

Com o apoio do Portugal Fashion, já passei por Milão, Nova Iorque, São Paulo, Paris, Madrid, Barcelona, Istambul, Sérvia, Moçambique…. Passei por várias semanas de moda, nas quais tentei esforçar-me ao máximo para poder representar bem o meu país e acho que foi por causa disso também que fui constantemente convidado para apresentar as minhas coleções. Tenho três passerelles especiais. Há uma que, para mim, é muito importante, que é a São Paulo Fashion Week. A São Paulo Fashion Week não é propriamente uma semana de moda como Milão ou Paris, não tem o mesmo reconhecimento que essas grandes semanas de moda têm. Mas, primeiro, é um país que me diz muito, porque tenho nacionalidade brasileira também, depois sou muito bem tratado lá, porque sou considerado como um irmão deles no fundo e, sobretudo, a fashion week tem muito glamour. Antes de irmos para a semana de moda recebemos muitos contactos, por telefone ou email, de restaurantes a oferecer o catering para pormos nos bastidores, porque para eles é muito importante ter no currículo do restaurante que fizeram os bastidores de um determinado designer. Recebemos montes de empresas de massagens para fazer massagens aos manequins, porque é muito importante para eles dizerem isso. Então é maravilhoso, tem detalhes que são muito giros. Depois na própria fashion week, quando estamos lá, temos os patrocinadores todos, desde marcas de automóveis a telemóveis, com salas onde cada um dá festas. Então, quando o designer termina o desfile tem que passar por cada um dos patrocinadores para fazer fotografias, do carro, da maquilhagem, dos telefones, do champanhe, do não sei quê, mas em cada um é uma festa, portanto é maravilhoso. E a cidade respira moda. Entra-se nos restaurantes, tem uma bandeirinha que diz “só para a fashion week” ou “somos recomendados para a semana de moda”, portanto é muito giro. Claro que o primeiro amor, obviamente, é, e será sempre, Portugal. A passerelle do Portugal Fashion deu-me muito material na imprensa, muita coisa na internet que me fez crescer e que me faz ter um reconhecimento em termos internacionais.

Sente-se mais português, brasileiro ou simplesmente internacional?

Em termos profissionais, acho que sou um homem do mundo. Um designer quando é designer, se nasceu em Paris ou tem atelier em Paris, não pode viver só para Paris, não pode viver só para França. Se nasceu em Milão, não pode viver só para Itália. Eu nasci em Portugal, mas não posso viver só para Portugal, tenho que viver para o mundo.

E o terceiro amor?

Um designer tem de ser importantíssimo em Itália para receber um prémio. Em Portugal, que é um país pequeno, para receber um prémio da GQ, por exemplo, é difícil. Já recebi dois Globos, já recebi comendas tinha 39 anos quando fui Comendador da Ordem do Infante, podia ter feito muita asneira ao longo da minha vida para me tirarem a comenda, felizmente não fiz nenhuma asneira. Havia uma fashion week que eu queria mesmo muito, muito fazer, era essa que eu lutava, que era a Milan Fashion Week. Primeiro, porque identifico-me muito com Itália, tem o cunho “made in Italy”, que é um cunho muito forte em termos internacionais, e, depois, porque é uma fashion week difícil. E eu acho que sou um homem de “ai é difícil? Então vamos à luta”. A semana de moda de Milão é mesmo muito difícil de entrar, porque existe uma Câmara de Moda Italiana [Camera Nazionale della Moda Italiana] onde estão casas de moda como a Gucci, a Prada, a Dolce & Gabbana, a Fendi… Todas as marcas italianas estão lá e eles pura e simplesmente protegem-se e não deixam entrar marcas estrangeiras. E mesmo para entrar italianos demora, é muito difícil entrar. Portanto, a partir do momento em que entramos, quer dizer alguma coisa, para nós é muito importante.

Que memórias ficaram desse momento?

Eu estava em Sevilha, estava um dia de calor brutal, e recebo uma chamada telefónica do Portugal Fashion a dizerem-me que tinha sido aceite na Câmara de Moda Italiana e que ia fazer o desfile. Portanto, tinha que apanhar um avião e regressar a Portugal para resolver coisas. Ia ficar mais uns dias em Sevilha, mas consegui alterar o voo e regressei. Posso dizer que fiquei muito nervoso, porque era algo que eu ansiava, mas precisava de tempo para preparar tudo, tinha idealizado isso durante muitos anos. Mas a partir do momento que recebes um convite, depois não tens muito tempo, só seis meses de antecedência para preparares uma coleção. Então estava quase a tremer, como é que as coisas iam funcionar e saber que quando olhas para um calendário e percebes que tens um desfile e antes de ti tens uma grande casa, começas ali a ficar com medo. Mas fui lá, correu muitíssimo bem e gostei muito.

Quais foram as forças condutoras do seu sucesso em Itália?

Foi, sobretudo, o trabalho que foi feito ao longo dos anos. Quando se pesquisa Miguel Vieira no Google, não sinto vergonha do que lá está, das coleções que apresentei. Sinto-me muito feliz com o que lá está. Não fui eu que publiquei, foram pessoas do mundo inteiro que publicaram, e acho que a junção desses dados todos foi o que fez, e continua a fazer, com que realmente seja muito acarinhado.

É conhecido como o designer dos sete instrumentos. Hoje quais são as prioridades em termos de criação de produto?

São todos, obviamente. Quando penso, penso sempre no conceito global: no homem e na mulher, mas também nas joias, nos óculos, nos sapatos, na carteira, no móvel, etc. Para mim, são todas importantes, estas e as próximas que possam surgir.

Que objetivos tem fixados para o corrente ano?

A partir do momento em que a pessoa está tanto tempo confinada, em casa, com máscaras e não sei quê, a partir do momento em que se tira uma máscara o mundo parece que muda. Mudou muita coisa, no entanto, pensava que iríamos sair desta pandemia e mais nada ia acontecer, mas acontece uma guerra, que não sabemos bem onde é que vai parar. Isso, neste momento, impede de traçar metas. Por exemplo, imaginemos que fizemos vendas e neste momento estão firmadas as notas de encomenda, mas tudo aumentou – as matérias-primas aumentaram brutalmente, o gasóleo, a gasolina, mil e uma coisas – portanto qualquer venda que se faça é com uma redução da margem de lucro. Isso obriga a tentar perder o menos dinheiro possível e não se consegue ganhar aquilo que a pessoa queria para poder depois fazer mais coisas novas. Portanto, altera aqui um bocado o esquema.

Tinha uma grande aposta em feiras no passado. Já regressou aos eventos presenciais?

Sim, tenho feito algumas feiras. Fiz recentemente a Micam, que para mim era uma feira muito importante, mas a própria feira em si está a baixar muito, porque não vêm clientes do Japão, não vêm clientes americanos, não vêm clientes russos. Portanto gasta-se muito dinheiro, o esforço é três ou quatro vezes mais para uma coisa que depois não compensa. Daí que é melhor, se calhar, repensar o negócio, pensar que aquele dinheiro é preciso para investir no online, por exemplo, ou fazer investimentos diferentes que possam ser rentabilizados.

Tem algum investimento em agenda?

Não. O investimento atual é cada vez mais conseguir apostar no online e poder chegar às pessoas. As pessoas têm muito a ideia que o online é uma página no Facebook ou no Instagram, ou uma loja online e ficam felizes porque vendem um vestido ou dois por mês. Eu não consigo ser feliz devido à estrutura que tenho vendendo só dois vestidos, tenho que vender muito mais, porque tenho uma estrutura pesada, para poder aguentar isso tudo, portanto é preciso investir muito, é preciso chegar a mercados, é preciso chegar a pessoas, é preciso chegar a cidades e isso custa dinheiro. O online custa muito dinheiro, mais do que muitas vezes ter uma loja física. Portanto todos os investimentos e todo o dinheiro que eu iria gastar noutros sítios estão a ser canalizados para o online, que é bastante importante para mim.

Como vê hoje a moda nacional?

Acho, sobretudo, que a moda portuguesa evoluiu muito, a nova geração tem condições que nós não tínhamos há uns anos – Internet, redes sociais… Eu sou do tempo em que não existia isso. Por outro lado, hoje vivemos numa correria brutal por causa disso.

Sente necessidade de abrandar?

Acho que todos tentamos sempre abrandar um bocadinho, não é só a questão da idade. Esta coisa da pandemia obrigou-nos muito a pensar.

A pandemia mudou-o enquanto designer?

Sim. Acho que as coisas que me aconteceram ao longo da minha vida obrigaram-me sempre muito a tentar parar um bocado para pensar. Fui obrigado a pensar com doenças, com pandemias, com esta coisa da guerra, com a areia que anda no ar, com tudo. Acho que nos obriga a pensar o que é isto, o que é que se passa, como é que vou resolver? Nós, portugueses, conseguimos resolver, somos muito bons a fazer isso. Somos um povo criativo e esta nova geração é muito criativa também, porque aprendeu um pouco com isso.