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«Não vendemos produto nem serviço – vendemos valor»

O diretor-geral da Lectra para Portugal e Espanha, Rodrigo Siza Vieira, dá conta das novas soluções da multinacional de origem francesa, que entraram oficialmente no mercado português a 1 de janeiro e prometem colocar as empresas portuguesas mais perto da nova realidade digital.

Rodrigo Siza Vieira

Os desafios da digitalização e a forma como as empresas estão a encarar o novo paradigma da indústria 4.0 foram, aliás, os temas abordados no debate “Digitalização na indústria têxtil – a transformação” promovido pela Lectra no último dia de novembro.

O debate, que juntou empresários e especialistas no Palácio da Bolsa, no Porto, tomou o pulso à situação atual, aos desafios e aos potenciais benefícios da integração tecnológica, da automatização dos processos e da economia digital na indústria têxtil e vestuário.

No final do debate, Rodrigo Siza Vieira falou com o Jornal Têxtil também sobre o estado do sector e as expectativas de evolução nesta área.

Como vê a ITV nacional em matéria de digitalização?

Acho que há muito a fazer, mas sinto que as empresas estão motivadas para a mudança. Por outro lado, estão sensíveis, mas não com a escala que isto pode ter. Há grandes oportunidades neste processo, mas também há grandes riscos. Agora julgo que a capacidade de resiliência, que a nossa indústria já mostrou tantas vezes, de inovação e de criação faz com que possamos estar otimistas para a transformação digital.

Acredita que vai ser um desafio ainda maior do que a globalização?

Podemos olhar para este processo de transformação de vários pontos de vista. Um é sobretudo o dos processos industriais e essas são transformações importantes mas que não tenho dúvidas que a nossa indústria, generalizando, esteja capaz de as fazer. Depois há os processos ligados à supply chain e aí há obstáculos que são internos e muitas vezes dos próprios clientes, que têm dificuldade em abrir, por exemplo, a porta dos seus dados aos fornecedores. Parece-me que a grande transformação se deveria dar no quebrar das barreiras tradicionais entre os diferentes agentes desta cadeia de aprovisionamento. E isso pressupõe, naturalmente, a disponibilidade e a capacidade para criar relações que permitam abrir a porta aos dados. Quanto mais próximo, em termos de acesso à informação, mais aqueles que estão a montante da cadeia de fornecimento conseguem responder melhor e mais rápido e antecipar mudanças. E depois, finalmente, são as relações dos próprios consumidores com o retalho e com a indústria. A digitalização também tem um peso muito grande neste processo, nomeadamente quando há uma tendência para o comércio eletrónico crescer. Isto vai trazer, por um lado, um paradigma diferente para todas estas empresas da cadeia de fornecimento, porque quanto mais comércio eletrónico, mais fácil é haver acesso aos dados desses clientes. Se há uma cadeia verdadeiramente integrada, a indústria consegue responder mais rápido e melhor a outra tendência crescente, a personalização de produtos, que faz parte inevitavelmente da indústria 4.0.

De que forma tem a Lectra abordado essa questão da personalização?

A Fashion On Demand é uma solução que acreditamos ser uma revolução na indústria, porque é a primeira solução integrada que responde a duas tendências da indústria 4.0. Por um lado, tal como indica o nome, permite responder à personalização e à moda feita por pedido. Por outro lado, há a automatização total dos processos – são soluções inteligentes, integradas, que permitem agir e reagir com pouca intervenção humana.

Paulo Vale, Susana Costa, Rodrigo Siza Vieira, Alcindo Lima e Fernando Ribeiro

Quais são as peças-chave da Fashion On Demand?

A máquina de corte é parte de um processo completo que permite integrar pedidos de clientes, matérias-primas e gerar automaticamente a ordem de fabrico a partir dessas duas informações.

Pode ser adaptada aos sistemas de corte que as empresas têm?

Não. É uma solução nativa, que inclui também uma opção de leitura de motivos, que é espetacular porque consegue-se ver o corte de motivos ser ajustado quase à mesma velocidade de corte em tempo real. A única interrupção no processo é quando tem que mudar o tecido. E permite séries mais pequenas ou séries únicas

Fizeram testes em Portugal?

Fizemos em vários países, mas Portugal não fez parte. Esta solução é, de resto, resultado de um processo de pesquisa e desenvolvimento que tem quatro anos. Passaram-se quase 18 meses desde as primeiras soluções-piloto a funcionar em produção – é uma solução testada. Naturalmente, sendo uma solução nova, há cuidados a ter. Trabalhámos neste processo com vários clientes-piloto, mas não temos todas as matérias-primas validadas, por exemplo.

Que potencial reconhece a essa solução para o nosso mercado?

Julgo que existem várias áreas e vários modelos de negócio que facilmente incorporam uma solução deste tipo. Desde logo porque quando falamos do “made to mesure” mas também do “made to order”, que faz parte desta Fashion On Demand, ou da customização em massa – tudo isso são modelos de produção que se incorporam nesta tecnologia, desde os clientes que fazem já a produção contra pedido de clientes até à produção de protótipos, por exemplo. E a confeção à medida também. Por isso chamámos Fashion On Demand, porque encaixa em qualquer um destes três grandes modelos.

Que análise faz do ano em termos de produtos apresentados pela Lectra em Portugal?

Enquanto 2019 vai ser um ano de lançamentos comerciais, a começar com a Fashion On Demand, 2018 foi mais um ano de teste em produção das nossas soluções. Por exemplo, as soluções Quick Nest e Quick Estimate, que vão estar disponíveis no mercado português a muito curto prazo, também tiveram mais de um ano de teste em ambiente de produção. São soluções que permitirão uma flexibilidade maior às empresas na área da marcada automática, que terão acesso a um serviço que lhes permite gerir picos de atividade e variações de necessidades da utilização de um software – isto associado a uma maior capacidade de processamento e, em consequência, a uma maior eficiência também no aproveitamento de matéria-prima.

Paulo Vaz, João Oliveira, José Costa, José Ferreira e Rodrigo Siza Vieira

É fácil compreender que a capacidade de processamento que se tem disponível numa solução alojada na cloud é maior. E, finalmente, do ponto de vista da equação financeira, também permite gerir melhor a capacidade de investimento das empresas e ligar essa capacidade de investimento diretamente ao retorno que têm destas soluções. Por outro lado, o acesso aos softwares tradicionais em modo de subscrição mudou o nosso próprio modelo de negócio, mas também tem vantagem para as empresas: ajuda-as a gerir, de maneira mais flexível, o seu investimento e as suas necessidades de disponibilização de softwares.

Como está calendarizado o lançamento dessas soluções para o nosso país?

A Fashion On Demand é lançada oficialmente em dezembro e as outras soluções em modo de subscrição serão lançadas a partir de 1 de janeiro. Quando falamos de transformação digital, não estamos a falar só para os nossos clientes. A transformação da nossa oferta tem de ser feita, porque queremos ter serviços, tecnologias e a respetiva experiência que responda aos desafios dos clientes. Esses desafios não são sempre os mesmos, vão mudando ao longo do tempo e para sermos capazes de responder a eles também temos que ter as nossas equipas aptas a fazê-lo. Uma simples mudança de um modelo de venda de software em modo licença perpétua, para software as a service”, é uma alteração muito profunda que implica riscos para a empresa e que têm de estar acautelados. Por isso é que uma mudança destas não se faz de um dia para o outro. São esses aspetos que temos vindo a preparar, é ainda claramente um work in progress, não só nas soluções propriamente ditas, mas também na preparação das nossas equipas para sermos capazes de responder às necessidades e desafios que os clientes nos vão apresentando.

Que desafios se colocam a si enquanto diretor-geral da Lectra para Portugal e Espanha nesta nova era tecnológica e digital? 

Primeiro é a questão da “geração grisalha”. Uma empresa como a Lectra não constrói um novo roteiro estratégico porque lhe apetece. Fá-lo porque percebe que há alterações nos desafios que se põem aos clientes, nos seus modelos de negócio, nos seus modelos de produção, etc. Isso é originado na nossa visão por quatro grandes tendências, uma das quais é a geração millenial. Já começamos até a ver, embora de forma indireta, a geração Z também a impactar nisso. Portanto, o paradigma do consumo muda e toda a cadeia de valor muda em consequência. É evidente que alguém na casa dos 50 anos, nesse aspeto, terá mais dificuldades em compreender essa transformação do que alguém na casa dos 30. Mas é evidente que alguém que está na casa dos 50 anos tem outra experiência que lhe permite estar, por definição, mais preparado para a transformação e a mudança. Para mim, enquanto responsável da Lectra, esse é o maior desafio. Exige hoje, como aliás sempre exigiu, o estar em permanente atualização, em estudo contínuo – faz parte do trabalho. Não julgo, apesar de ser uma transformação mais visível e mais impactante, que seja mais difícil do que outras que fizemos no passado mas, nomeadamente do ponto de vista técnico e tecnológico, exige talvez uma capacidade diferente de todos, não é só minha. Eu tenho que ter mais atenção para ver se a equipa, no seu conjunto, está preparada para isso. Por outro lado, o próprio modelo de negócio, ao transformar-se, também é um desafio diferente. Mas acho que todos nós – esta é uma equipa muito fiel à Lectra – temos um tempo médio de vida nas empresas bastante alargado. Já passamos por tantas mudanças que não há razão para pensar que não vamos ser capazes de fazer esta evolução também. Se há característica cultural nossa, enquanto povo, é esse balanço, que às vezes é quase um paradoxo, de sermos conservadores, por um lado, e, por outro, tão capazes de inovar e de nos transformarmos. Mas é assim que somos enquanto sociedade e enquanto indústria. E faz parte da nossa riqueza, tenho a certeza disso.

Tem um leitmotiv que resuma a sua filosofia de gestão?

Tenho muitos, mas o principal é conseguir garantir o sucesso da Lectra através do sucesso dos nossos clientes. Tentamos sempre propor valor aos nossos clientes. Não vendemos produto nem serviço – vendemos valor.

Como correu 2018 para a Lectra Portugal?

Foi um ano mais uma vez de crescimento. É difícil termos crescimentos a dois dígitos todos os anos, mas crescemos e devemos ficar com um volume de negócios na casa dos 11 milhões de euros. Isto porque o nosso principal cliente, que é a indústria têxtil e vestuário, está numa fase de estabilização. Já não estamos previsivelmente numa fase de crescimento. O crescimento não é infinito. A nossa inovação é marcada pela evolução dos desafios dos nossos clientes. É tão simples quanto isso. Quando lançamos uma nova versão, não é porque alguém dentro da pesquisa e desenvolvimento teve uma ideia brilhante e resolveu fazer uma coisa fechada no seu quarto escuro. É porque sentimos que o mercado necessita disso.