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Nas rendas da Chanel

Desde que Kate Middleton se casou num vestido com rendas da produtora Sophie Hallette, este sector da indústria têxtil francesa tem vindo a desfrutar de particular popularidade.

A renda francesa como tema tem ocupado tanto as passerelles, em marcas como Valentino, Dior e Céline, como as notícias, analisa o The New York Times.

Nos bastidores, porém, a realidade é bem menos feliz. A Desseilles e a Codentel, duas das empresas de rendas mais antigas nas cidades francesas de Caudry e Calais, espremidas pela concorrência da Ásia e incapazes de cumprir com as leis laborais francesas, declararam falência este ano.

O Holesco, o grupo que detém a Sophie Hallette, tentou adquirir a Desseilles, mas no mês passado, perdeu-a para a empresa chinesa Yongsheng Holdings. Por isso, quando chegou a hora de fazer uma oferta pela Codentel, o grupo trouxe reforços.

Na semana passada, a Chanel, numa tentativa apresentada como altruísta pela identificação e preservação do clássico trabalho artesanal francês, assumiu uma participação minoritária no Holesco. E na segunda-feira, o juiz do tribunal de comércio em Boulogne-sur-Mer reconheceu o Holesco como novo dono da Codentel. O grupo garante os postos de trabalho a todos os 36 funcionários,e vai fazer um investimento estratégico total de 1,03 milhões de euros.

«Foi uma solução francesa para um problema francês: a necessidade de proteger o nosso savoir-faire», afirmou Romain Lescroart, presidente da Sophie Hallette. Lescroart representa a terceira geração a gerir a produtora de rendas, que foi fundada em 1887 e comprado pelo seu avô. A Sophie Hallette tem 300 trabalhadores, uma faturação anual na ordem dos 30 milhões de euros e fornece marcas como Saint Laurent, Dolce & Gabbana, La Perla e Ralph Lauren.

Depois da decisão, Bruno Pavlovsky, presidente das atividades de moda da Chanel, disse, em comunicado, que «para a Chanel, a aquisição de participações no capital da empresa significa a oportunidade de acompanhar a Sophie Hallette à medida que se desenvolve e perpetua a indústria de rendas em França. A decisão do tribunal em favor da Sophie Hallette está positivamente inscrita nesta abordagem».

Não obstante, a Sophie Hallette não fará parte do programa Métiers d’Art da Chanel, grupo de pequenas empresas como a especialista em bordados Lesage, a chapeleira Michel, a fabricante de flores de seda Guillet e a produtora escocesa de malhas de caxemira Barrie Knitwear. Estas são propriedade de uma subsidiária da Chanel, a Paraffection, e o designer Karl Lagerfeld realiza um desfile especial com o seu trabalho uma vez por ano.

Lescroart revelou que o investimento da Chanel representa menos do que 25% da empresa. No entanto, a relação com o Holesco está totalmente alinhada com a estratégia da casa de moda em manter o artesanato local.

Embora a Chanel tenda a enquadrar tal investimento como um gesto altruísta, esta não foi uma atitude livre de desinteresse. Na verdade, a casa fundada por Coco Chanel é uma das cinco principais clientes da Sophie Hallette.

O comunicado da Chanel refere ainda que «o objetivo desta colaboração é preservar o sector histórico da renda, o orgulho e a herança rica da região de Calais e Caudry. Também pretende assegurar que esta experiência excecional e o valor inestimável das Leavers, estas máquinas de 200 anos que são fundamentais para a criação de rendas extremamente finas, com a própria certificação (Dentelle de Calais-Caudry®), essencial para as procuras de alta-costura e design criativo, permaneçam em França».