Início Notícias Retalho

Natal não ameniza instabilidade na Next

As ações da retalhista britânica aumentaram 6%, a 3 de janeiro, depois de reveladas “vendas fortes” registadas no período que antecedeu o Natal, alicerçadas no online. Porém, antecipam-se tempos difíceis para a gigante do Reino Unido, tendo em conta a incerteza do Brexit.

A gigante britânica da moda, que gere uma rede de mais de 500 lojas no Reino Unido e na Irlanda e cerca de 200 lojas em cerca de 40 países estrangeiros, anunciou ter registado «vendas fortes» nas três semanas que antecederam o Natal, bem como uma semana positiva na pausa letiva, no final de outubro, que compensaram as «dececionantes» vendas de novembro. Os resultados também deram nota da mudança contínua para o mundo digital. No período entre 28 de outubro e 29 de dezembro, as vendas online – que incluem o Next Directory – cresceram 15,2% (os analistas previam uma subida de 10%), enquanto as vendas nas lojas físicas diminuíram 9,2% (os analistas esperavam que baixassem quase 13%), em relação ao período homólogo. De um modo geral, as vendas totais aumentaram 1,5% nesse mesmo período.

Olhando para 2018 na sua totalidade, a retalhista estima registar lucros de 723 milhões de libras (cerca de 800 milhões de euros), 0,6% abaixo da estimativa de 727 milhões de libras. A descida é justificada, segundo a Next, pelo aumento de vendas de produtos sazonais, como presentes personalizados e produtos de beleza, que têm uma margem mais reduzida de lucro do que a gama de vestuário. A retalhista admite também ter sido afetada pelo incremento dos custos operacionais, associados ao incremento das vendas online. Porém, estima-se que haverá uma subida nas vendas a preços totais, de 3,2%, em linha com a previsão de setembro.

Olhando para o próximo ano, a Next antecipa que as vendas a preço total irão crescer 1,7%, em consonância com a performance da segunda metade do atual ano fiscal – com as vendas nas lojas físicas a diminuírem 8,5% e as vendas online a subirem 11%. Os lucros do grupo antes de impostos deverão baixar 1,1% em termos anuais, para 715 milhões de euros. A Next dá nota, no entanto, que quaisquer estimativas feitas em janeiro «contam com um alto valor de incerteza, tendo em conta a instabilidade deste ano no que toca à performance da economia britânica, depois do Brexit, o que faz com que as previsões sejam particularmente difíceis», escreve a WGSN.

A mudança para o online

Os analistas concordam, de um modo geral, que a diminuição das vendas nas lojas físicas estão de acordo com as expectativas, tendo em conta a luta entre estas e o comércio online. «A mudança contínua para o online, com dinâmicas de competitividade mais agressivas e uma confiança do consumidor mais baixa, acabaram por afetar as vendas nas lojas físicas», nota Richard Lim, diretor-executivo da consultora Retail Economics, citado pelo Just-style.com. «De um modo geral, num contexto onde há grandes descontos, os lucros dos retalhistas vão continuar a sofrer uma pressão intensa, à medida que as margens de lucro diminuem cada vez mais. Para muitos, a subida dos custos fixos, associados à gestão de um grande portefólio de lojas físicas, vai inibir o investimento na necessidade de atrair clientes. Simultaneamente, com a balança das vendas a continuar a pesar mais para o lado online, o crescimento dos custos variáveis vai pressionar os modelos de negócio tradicionais», avisa Lim.

De igual modo, Lee Lucas, diretor da britânica Fashion Retail Academy, refere que «os hábitos de compra podem estar a mudar, mas o mundo da moda está a esforçar-se, com as vendas online a mais do que compensarem algum declínio nas lojas físicas. Esta tendência de compensação também parece estar a fortalecer-se anualmente, com números ainda mais robustos do que em 2017, onde o tempo frio foi a justificação para o aumento das vendas online. A onda das compras de última hora este ano, tanto na Next como na John Lewis, pode dever-se parcialmente a uma meteorologia mais previsível, mas os milhares de pessoas que fizeram fila e acamparam, no Boxing Day, à espera da abertura da Next, são um sinal promissor para as lojas físicas dos retalhistas», considera.

Entretanto, Manu Tyagi, sócio da Infosys Consulting, destaca que, embora a Next esteja a dar conta de uma subida nas vendas online, «o cenário para o comércio online não é tão positivo quanto esperávamos», ressalva. «No ano passado, a Asos – uma das maiores retalhistas online de moda – emitiu um “aviso de lucro”. Evidentemente, o sentimento geral dos consumidores é de cautela, provavelmente devido às preocupações acerca da economia e a situação ameaçadora do Brexit, que tem impactado, e continuará a impactar, os hábitos de consumo. Do lado positivo, os retalhistas estão a voltar à luta com novas lojas e promoções mais fortes para atrair os clientes. A John Lewis, por exemplo, registou vendas recorde na Black Friday e aumentou as vendas anuais durante a semana de Natal. O comércio de rua do Reino Unido está longe de estar morto – e as vendas nas lojas físicas ainda são mais do que as vendas online. Embora os números possam dar a ideia de que as vendas nas lojas físicas estão a diminuir, é importante não olhar apenas para o valor nominal. As compras nas lojas físicas estão a reinventar-se. Os que se estão a adaptar às preferências dos novos consumidores vão sobreviver e ser bem-sucedidos. Os que não se adaptarem vão arriscar ficar para trás, à medida que entramos numa nova era para o comércio», defende Manu Tyagi.