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Negócio da China

Dadas as vicissitudes da cadeia de aprovisionamento têxtil e vestuário mundial, a China adota uma nova estratégia que pretende combater o que os especialistas chineses descrevem como a nova normalidade.

«O “novo normal’ implica a aceitação de taxas de crescimento mais lentas na economia chinesa, a par de uma espiral de custos que escapam ao controlo», explica Zhang Tao, secretário-geral do Subconselho da Indústria Têxtil (CCPIT, na sigla inglesa), a Câmara de Comércio da Indústria Têxtil (CCOIC, na sigla inglesa).

Tao aponta os crescentes custos de produção e de mão-de-obra na indústria têxtil e vestuário chinesa – os salários têm aumentado ao longo dos anos, de um salário mensal de dois dígitos para quase 700 dólares mensais, praticados atualmente – como as causas da «perda da vantagem competitiva na produção em massa». Os custos aumentaram drasticamente e excedem atualmente aqueles praticados em muitos outros países do sudeste asiático, incluindo Malásia, Filipinas, Indonésia e Vietname.

No entanto, apesar da China importar têxteis e vestuário do Bangladesh, Paquistão e outros países, as exportações destes produtos continuam a dar grande contributo para o comércio externo da China, com os Estados Unidos, União Europeia e Japão a figurarem entre os principais mercados do país. Além disso, muitos exportadores do sudeste asiático importam tecidos fabricados na China, exportando-os novamente depois de transformados em produto acabado.

No ano passado, a China processou cerca de 10 milhões de toneladas de algodão, 60% do qual foi cultivado localmente. O restante foi importado de países, incluindo os EUA, Índia e Paquistão.

Procura decrescente

De acordo com os dados divulgados pelo CCPIT, o valor total das exportações chinesas de têxteis e vestuário, de janeiro de 2015 a maio de 2015, foi de apenas 30 mil milhões de dólares, com os EUA a representarem cerca de 16,4 mil milhões de dólares nesse período. Em contrapartida, em 2014, o valor total das exportações de têxteis e vestuário alcançou os 300 mil milhões de dólares.

O secretário-geral do CCPIT revela que a procura de têxteis e vestuário por parte dos Estados Unidos está a recuperar, mas a um ritmo mais lento face ao esperado. «É difícil para os fornecedores de produtos de baixa qualidade encontrar procura nos EUA, devido à concorrência acérrima e autocontenção do consumidor americano. No entanto, o mercado dos EUA é muito mais resistente e mais forte do que o da União Europeia e do Japão. Porém, a recuperação não se tem revelado tão vigorosa, de acordo com o feedback que recebemos, e os compradores não estão a encomendar tanto como costumavam fazer», acrescenta.

Num momento em que os mercados tradicionais aparentam estar, cada vez mais, saturados, os exportadores chineses procuram também pastos mais verdes noutros lugares, particularmente nos mercados emergentes da América do Sul, incluindo o Brasil, com uma população de 300 milhões, e na Rússia, embora esta última se debata com as sanções recentemente impostas. Zhang Tao afirma que o mercado africano se começa também a abrir às exportações chinesas.

Locais de produção alternativos

Para contrariar o forte aumento dos custos de produção e mão de obra, a China considera novas zonas de produção, exteriores às suas fronteiras – migração que se concentrava normalmente na produção de vestuário, excluindo a produção têxtil. «A produção de tecido não exige mão de obra intensiva, mas a produção de vestuário exige. As empresas chinesas estão preocupadas com o aumento dos custos laborais e uma forma de se manterem competitivas nos mercados mundiais passa pela deslocação da produção para locais de baixo custo», explica.

Porém, no contexto desta mudança de paradigma, prossegue Tao, as empresas chinesas ponderam a criação de bases de produção completas nos mercados que pretendem servir. Para esse fim, as empresas têxteis chinesas têm adquirido ativos industriais, como unidades de produção nos Estados Unidos.

Esta é uma reversão do mecanismo de sourcing em massa da produção têxtil e vestuário, deslocando-o do que era então um local de produção de baixo custo. A produção de têxteis na China já não é rentável para muitos fabricantes, tanto internacionais como locais, que optam agora por abandonar o território chinês. Além do aumento dos salários e dos custos de energia, a produção na China envolve também custos logísticos mais elevados e exige que as empresas lidem com quotas governamentais relativas ao algodão importado, criando uma grande incerteza junto dos fabricantes.

“Made in the USA” por empresa chinesas

O cenário e os players do sector estão também a mudar, afirma Tao. Se no passado se assinalou um enorme interesse por parte de muitos produtores americanos pela procura de produtos acessíveis provenientes da China, é o fabricante chinês que agora migra para os Estados Unidos, pretendendo aí sediar a sua produção.

A perspetiva das empresas chinesas prende-se com o seguinte: enquanto os custos laborais nos EUA são muito mais elevados, os níveis de produtividade são também muito superiores, nivelando ou até mesmo reduzindo os custos finais. Outras regalias dos fabricantes chineses, que optam por estabelecer-se nos Estados Unidos, surgem sob a forma de preços de energia substancialmente menores, preços de algodão competitivos, incentivos fiscais atribuídos pelos governos locais e, claro, uma redução nos custos de transporte. Em acréscimo, existe a oportunidade de capitalizar a etiqueta “made in America”, que é cada vez mais popular.

Paralelamente, a tendência de produzir os bens no mercado onde estes serão vendidos é atrativa para muitas empresas chinesas, que são movidas pela perspetiva de um mercado de livre comércio Trans-Pacífico, que resultaria da aprovação da Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla original). O acordo, liderado pelos EUA, incluirá todas as principais economias da região, com exceção da China. E o receio de serem excluídos do TPP levou diversas empresas chinesas a estabelecerem uma base nos Estados Unidos.

Os custos de produção de fio na China têm crescido acentuadamente, aumentando até 30% em comparação com os custos praticados nos Estados Unidos, de acordo com a Federação Internacional dos Produtores Têxteis. No entanto, os fabricantes chineses não se estão apenas a deslocar para os EUA, fixando-se também noutros países asiáticos de baixo custo, em particular no Bangladesh, Índia e Vietname.

As empresas chinesas reconhecem diversas vantagens resultantes da sua presença nos Estados Unidos. Alguns expositores chineses na recente edição da feira Texworld USA, que decorreu em Nova Iorque, afirmaram que muitas empresas chinesas encontraram no território americano um local de produção atrativo, que oferece acesso livre e direto ao enorme mercado dos EUA. Até ao momento, as empresas chinesas fizeram um investimento superior a 45 mil milhões de dólares em novos projetos e aquisições nos Estados Unidos, com a maior parte desse investimento a concentrar-se nos últimos cinco anos.

O impacto da inauguração de novas unidades de produção ou revitalização daquelas já existentes é notório nos EUA. O estado da Carolina do Sul, por exemplo, saudou a chegada da Keer, que veio empregar trabalhadores de fiação e tecelagem demitidos depois da Springs Industries ter encerrado a sua fábrica – em tempos, uma das maiores do mundo.

Recentemente, a empresa têxtil chinesa Legend Athletic Wear inaugurou a sua primeira unidade de produção nos EUA, em Cincinnati, no estado do Ohio. A empresa é a subsidiária americana de uma empresa têxtil australiana, com sede em Xangai. A Legend foi fundada pelo casal de coproprietários Tan Kek Looi e Min Qi em 2005. De 2005 a 2012, as vendas da empresa cresceram de 84 mil para 1,8 milhões de dólares.

A Autoridade de Taxas de Crédito do Ohio concedeu benefícios fiscais à Legend, que prevê a criação de 80 postos de trabalho a tempo inteiro até ao final de 2018, assim como a obtenção de mais de 2 milhões de dólares em receitas. Além de criar novos empregos, a Legend planeia investir mais de 1,4 milhões de dólares na sua nova fábrica. Há sinais de que os proprietários pretendem estabelecer a marca Legend nos Estados Unidos e lançá-la, posteriormente, na China.

Com uma estratégia de diversificação geográfica, a Legend e outros fabricantes chineses, procuram contornar as pressões resultantes da inflação de preços galopante sentida em território chinês.