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Next apanhada pela tormenta

O negócio da retalhista britânica de moda foi afetado pela transferência do consumo para o lazer, mudanças no canal de compra e desvalorização da libra no seguimento do Brexit, o que levou a Next a registar uma queda dos lucros, a primeira em oito anos.

As condições de negócio foram «desafiantes» para a Next no ano fiscal de 2016, uma situação que irá manter, com a retalhista britânica a esperar «um ano difícil» em 2017, como já tinha anunciado no início do ano (ver Next antecipa um 2017 difícil).

Os investidores e analistas esperavam uma declaração pouco positiva da Next e, por isso, o anúncio dos resultados não foi uma surpresa. A gigante do retalho revelou a primeira queda nos lucros anuais em oito anos, provocada por uma descida das vendas, com Simon Wolfson, CEO, a confirmar que «estes ventos contrários deverão ser sentidos de forma mais acentuada no nosso negócio de retalho, já que as vendas continuam a migrar da high street para as compras online».

A retalhista mencionou ainda uma «mudança sectorial», com os consumidores a afastarem-se da moda. Numa declaração aos acionistas, Simon Wolfson afirmou que os dados mais recentes do consumo «mostram o aumento do consumo em bares, restaurantes e entretenimento em comparação com vestuário na high street no quarto trimestre de 2016. Acreditamos que estes números demonstram a continuação da tendência para o consumo em experiências em vez de coisas», embora tenha acrescentado que espera que a mudança seja uma tendência e não uma situação permanente.

Uma situação que vai ao encontro da perspetiva dos analistas. Emily Stella, analista sénior de retalho na GlobalData, confirma, citada pelo just-style.com, que «a retalhista enfrentou vários desafios no último ano: tempo errático, o aumento dos custos de importação com a desvalorização da libra e o Next Directory a ser afetado pelo aumento da concorrência dos pure players online como a Asos e a Boohoo. Sem falar de uma mudança mais geral de afastamento das compras de roupa em favor dos gastos em lazer».

Para o futuro, contudo, avançou o CEO da Next, «temos as nossas prioridades bem claras», acrescentando que «vamos continuar a focar-nos em melhorar o produto, marketing, serviços, lojas e controlo de custos da empresa».

A retalhista de moda registou uma queda de 3,8% nos lucros brutos, para 790,2 milhões de libras (cerca de 912,5 milhões de euros) no ano até ao final de janeiro – a primeira queda desde 2008/2009 no pico da crise financeira. Os números ficaram, no geral, em linha com as expectativas dos analistas. Os lucros líquidos baixaram de 666,8 milhões de libras para 635,3 milhões de libras.

As vendas do grupo ficaram estagnadas em 4,1 mil milhões de libras. Pela negativa, as vendas nas lojas Next Retail desceram 2,9%, apesar do investimento de 161 milhões de libras em novas unidades, uma vez que as vendas a preço total caíram 4,6%, levando a uma queda de 1,3% nas vendas totais da unidade.

A Next confirmou ainda ter aumentado os preços em 4% em média no primeiro semestre e advertiu que os mesmos vão manter-se sob pressão devido ao aumento dos custos causado pela desvalorização da libra no seguimento da votação no Brexit.

Pela positiva, as vendas online – a unidade Next Directory – aumentaram 4,2%, com as vendas a preço completo a subirem 3,6% (+1,2% no Reino Unido e +18,5% no estrangeiro), impulsionadas pela continuação do crescimento do negócio de marcas e pelo sucesso no comércio eletrónico no estrangeiro.

As operações do Directory também beneficiaram durante o ano da convergência dos sites do Reino Unido e estrangeiros, o que permitiu o lançamento mais rápido de novas funcionalidades e conteúdos em todos os websites.

A Next anunciou que vai aumentar o investimento em 11 milhões de libras este ano para desenvolver os seus serviços e capacidades online. As principais características incluem o lançamento da Next Unlimited, que permite que os consumidores paguem 20 libras por ano para terem entregas gratuitas no dia seguinte em qualquer sítio do Reino Unido e Irlanda do Norte. A retalhista destacou ainda que vai continuar a desenvolver as operações no estrangeiro este ano e espera que as vendas relacionadas aumentem 15% a câmbios constantes.

Segundo revelou, os seus centros internacionais (na China, Rússia e Alemanha) estão a «funcionar bem» e começou agora a fornecer o negócio na Polónia a partir do centro alemão, «um serviço que se irá estender a 14 países à volta durante o ano».

Ao mesmo tempo, o negócio de marcas Label vai acrescentar novas insígnias, sobretudo através da Lipsy, a marca de moda jovem que registou um aumento das vendas de 22%, para 90,6 milhões de libras, apesar de quedas nas vendas por grosso.

Apesar das dificuldades que antevê, Simon Wolfson espera «alguma melhoria no segundo trimestre e uma melhoria mais acentuada na segunda metade do ano. Isto, claro, está sujeito a que não haja mais deterioração no ambiente externo à medida que o ano avança».