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Nicarágua a dobrar

Os principais produtores de têxteis e calçado da Nicarágua esperam duplicar a sua dimensão no decorrer dos próximos três anos, num momento em que esta nação da América Central tenta responder à crescente procura por parte de marcas de vestuário americanas.

«Queremos duplicar as vendas e a produção», anunciou Norberto Aquino, gestor de produção da empresa americana New Holland Apparel, que dispõe de uma unidade de produção na Nicarágua, assim como várias outras instalações nas Honduras.

A empresa, que produz vestuário desportivo para a Under Armour e a Nike, também está a negociar uma potencial joint-venture, dedicada à produção de sintéticos, com o fornecedor peruano Hialpesa, que poderá materializar-se este ano, acrescentou Aquino.

Procura elevada
Num momento em que as marcas dos EUA e de outros pontos do mundo continuam a procurar oportunidades de sourcing mais próximas, na América Central e na América do Sul, Aquino espera que os negócios acelerem. Neste momento, a procura é de tal forma elevada que a empresa aumentou gradualmente a produção da Nike para 50.000 unidades, face a cerca de 15.000. A unidade de produção, gerida sob a premissa de qualidade com “zero defeitos”, arrecadou também, recentemente, um projeto-piloto que fornecerá 45.000 peças de vestuário para a Adidas em novembro.

A New Holland Apparel introduziu 20 linhas de produção este ano, tendo como objetivo, principalmente, acomodar as novas encomendas de t-shirt básicas da Under Armour, para a qual é o segundo principal fornecedor da região. Em resultado, contratou 150 novos trabalhadores, aumentando o seu número para 1.500. A empresa, que produz agora 450.000 peças de vestuário por ano, também adquiriu, recentemente, 500 novas máquinas de costura e quatro novas máquinas de bordar, bem como um novo dispositivo de etiquetagem para a Nike, revelou Norberto Aquino.

Em consequência dos salários extremamente baixos (o salário mínimo de um trabalhador é de 157 dólares por mês), as unidades de produção da Nicarágua produzem por um valor 30% inferior ao das unidades hondurenhas da New Holland Apparel. Os custos operacionais são equivalentes, devido aos preços mais elevados da energia na Nicarágua.

A New Holland Apparel exporta 80% da sua produção para os EUA, vendendo também para a América do Sul e Europa. Produz, na sua maioria, peças de vestuário de poliéster e elastano.

Calçado tecnológico em destaque
A Tecshoes, uma empresa brasileira que fabrica calçado Clarks principalmente para os EUA, mas também para exportação europeia, planeia, ambiciosamente, duplicar os pares de calçado produzidos para 5,5 milhões em 2020.

A empresa, pertencente ao grupo brasileiro Aniger, está a analisar a Nicarágua como um potencial destino de uma nova unidade, pretendendo entrar no mercado do calçado desportivo, anunciou o diretor-geral, Leandro Winter.

Este ano, está a trabalhar para atingir uma produção de 2,5 milhões de pares de sapatos de conforto para a marca britânica. Assim que a produção atingir os 3 milhões, atingindo a capacidade total de Manágua, a empresa pretende aumentar a sua capacidade de produção com uma nova fábrica, a construir num local não revelado, que irá produzir 3 milhões de pares de sapatos de desporto e calçado vulcanizado. Outros planos preveem a instalação de uma unidade de acabamentos de couro e borracha nas instalações atuais.

Leandro Winter explicou que a Tecshoes espera atrair outras marcas de calçado para o sourcing na Nicarágua e que esse esforço poderá envolver trazer alguns dos principais clientes da Aniger, incluindo a New Balance, a Nike, a Quicksilver, a Recife, a Roxy e a DC.

«Esses são clientes interessantes e tivemos algumas visitas», afirmou Winter, acrescentando que a Aniger fabrica, principalmente, sapatos dessas marcas para o mercado brasileiro.

Como parte do processo de ampliação da fábrica, que o gestor de qualidade da unidade, Roberto Kickow, descreveu como uma «metamorfose», a empresa procura melhorar o fluxo de produção e efetuar outras ações de menor escala num armazém em expansão, onde cada linha produz 8.000 a 9.000 sapatos por dia, custando entre 70 e 80 dólares.

A Tecshoes importa couro acabado do Brasil e da Argentina, termoplásticos do Uruguai e materiais básicos provenientes da China para abastecer a sua fábrica, que foi inaugurada no outono de 2011, mediante um investimento de 10 milhões de dólares.

Vantagem competitiva
Winter revelou que a Aniger transferiu a produção para a Nicarágua após a valorização do real brasileiro ter enfraquecido a sua competitividade. No entanto, ao mapear a América Central, sublinhou que o país foi escolhido entre outras nações devido aos baixos salários e ambiente económico e político estável.

«Uma das principais questões que consideramos foi a economia estável e estrutura de baixos custos», apontou Leandro Winter. «Além de ser competitiva a nível regional, a Nicarágua oferece estabilidade e segurança», acrescentou.

Winter adiantou que o país tornou-se, progressivamente, tão eficaz em termos de custos como a China, com alguns preços de calçado em linha com o país asiático.

A produção de calçado vulcanizado na Nicarágua, um membro do bloco de livre-comércio DR-CAFTA – Acordo de Comércio Livre entre a República Dominicana e a América Central, que engloba os EUA – é, também, muito vantajosa, uma vez que este tipo de calçado paga um imposto de 37,5% quando entra nos EUA proveniente da China.

O governo da Nicarágua conseguiu, ainda, negociar acordos coletivos de trabalho a cinco anos, acrescentando estabilidade aos fabricantes, segundo Winter.

Escassez de matérias-primas
Existem, porém, desafios, principalmente a escassez de matérias-primas, como plásticos, sintéticos e outros têxteis técnicos que obrigam as unidades de produção a recorrerem a importações dispendiosas.

«Não há capacidade para produzir matérias-primas e é necessário um grande investimento», sustenta Leandro Winter, que acrescentou, contudo, que a indústria se começa a desenvolver, pelo que a aquisição de investimentos e de outros financiamentos deverá ser facilitada.

A Nicarágua necessita, também, de infraestruturas de transporte e logística adicionais – algo que o Grande Canal interoceânico, o projeto de 276 quilómetros que ligará os oceanos Atlântico e Pacífico, com um investimento de 50 mil milhões de dólares, deverá trazer.

Atualmente, a Tecshoes, e muitos outros, exporta através dos portos de Cortes nas Honduras e Limon na Costa Rica. «Se construírem um novo porto na Nicarágua será ótimo», destacou Winter, embora afirme não saber o suficiente sobre o controverso projeto para comentar.

Aquino, porém, mostrou-se mais otimista, acrescentando que o antecipado porto atlântico poderia implicar uma economia de pelo menos 10% para a indústria têxtil e de vestuário nacional. «Seria uma grande vantagem. Proporcionaria uma economia de logística e de tempo enorme», sustentou.

Hoje em dia, expedir peças de vestuário através das Honduras é dispendioso e complicado, frequentemente sujeito a atrasos burocráticos. Habitualmente, os contentores que saem de Manágua numa quarta-feira chegam aos EUA na segunda-feira, uma viagem de quatro dias que poderia demorar um a dois dias na Nicarágua.

Custos energéticos elevados
Roberto Gutierrez, diretor-geral da empresa americana de shapewear Cupid, que produz 10 milhões de peças em Manágua, concorda que serão necessários grandes investimentos para construir uma cadeia de abastecimento de sintéticos, acrescentando que a empresa importa materiais, como poliamida e Lycra, dos EUA. Afirmou, no entanto, que os preços da energia devem descer consideravelmente. «O governo deve ponderar diferentes alternativas para melhorar os custos de energia», referiu.

O governo admitiu, recentemente, que os preços da energia são os mais elevados da América Central, embora esteja concentrado em reduzi-los e expandir a sua capacidade em energias renováveis.

Gutierrez acrescentou que o corte dos preços da energia (que aumentaram 38% desde que o Presidente Ortega assumiu o cargo, em 2007) pode ser um motor de mudança para a indústria, assim como a criação de melhores programas e institutos de formação profissional, valorização dos empresários e reforço dos conhecimentos da indústria da moda do país.

A Cupid espera, também, aumentar a produção, em 10% ao ano nos próximos três anos. Gutierrez indicou que a empresa, que vende a sua marca Cupid no Wal-Mart e detém linhas de private label no JC Penney, Sears e Soma, está igualmente à procura de uma nova localização para a qual possa transferir as operações de corte, abandonando o seu atual local em Manágua, expandindo as suas linhas de produção modulares e lineares.