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No futuro, a maioria dos têxteis vão ser têxteis técnicos»

No âmbito da temática dos têxteis técnicos que começámos ontem a desenvolver, Mário de Araújo, director do Departamento de Engenharia Textil da Universidade do Minho, elucida o Jornal Têxtil neste novos conceitos, refere a importante revisão curricular nesta matéria e o papel da universidade na produção dos têxteis do futuro. Jornal Têxtil – Começamos por apresentar aos leitores os Têxteis Técnicos… Mário de Araújo – É de facto um tema muito actual. A indústria têxtil encontra-se a jusante da indústria das fibras, e fornece materiais à base de fibras para uma série de aplicações em várias indústrias que lhe estão a jusante, como a construção civil, os têxteis lar, o vestuário, a industria automóvel, a dos artigos sanitários, da saúde, a indústria da defesa ou a aeronáutica. Tradicionalmente o vestuário e os têxteis lar tinham um peso muito significativo na produção total do sector, mas hoje os têxteis técnicos representam cerca de 50% ou mais da aplicação dos materiais fibrosos nos países industrializados. É uma área em crescimento. JT – É um fenómeno relativamente recente? MA – Não é tão recente como isso. Se olharmos para a indústria automóvel, os pneus são produtos já bem antigos, assim como alguns componentes dos interiores dos automóveis ou os filtros, por exemplo. JT – Mas o crescimento exponencial deste fenómeno surge há 10, 15 anos? MA – Talvez…Mas desde cedo se nota que alguns destes materiais, como os compósitos concorrem com os materiais mais convencionais- os metais, aços, etc – só que com inúmeras vantagens. São muito mais leves e têm a mesma ou maior resistência mecânica, e pode-se desenhar a anisotopia destes materiais, isto é, podem-se desenhar diferentes propriedades em direcções diferentes, o que não é possível com os metais. Para além disto, não oxidam. JT – Tem ideia da proporção de produção de têxteis técnicos, em termos de produção têxtil global? MA – Nos países mais industrializados cerca de 50% do consumo de fibras vai para a produção dos têxteis técnicos, mas no futuro a maioria dos têxteis vão ser “têxteis técnicos”. JT – Ainda não há uma definição de têxteis técnicos, mas o que diferencia os têxteis técnicos dos outros têxteis é a sua aplicação? MA – Tradicionalmente, os têxteis técnicos são têxteis de aplicação não convencional, sendo o vestuário e os têxteis lar as aplicações normais. A classificação padrão é esta. JT – No futuro se todos os têxteis passam a ser técnicos….é necessário que haja um grande desenvolvimento tecnológico no sector? MA – Basicamente no futuro os têxteis serão muito mais técnico até no vestuário, porque certamente que os aspectos funcionais serão muito mais importantes do que eram até aqui. Ter um casaco extremamente leve e fino, que proteja das intempéries, é um produto bem mais técnico do que um casaco convencional que pesa uns “quilos” nas costas das pessoas. Os têxteis funcionais são materiais que são concebidos para melhorar a função para o qual o têxtil é concebido. Ter um sobretudo que é fino, leve e protege do frio é sinal que foi concebido a pensar na funcionalidade e no conforto. Ter uma t-shirt que consegue manter o conforto termo-fisiológico do utilizador, por ex. um desportista, em que o tecido da t-shirt pode ser concebido de forma a que todo o suor seja absorvido por uma camada externa sem que ele sinta o suor envolvido neste processo ou qualquer descida de temperatura do corpo. Podemos também produzir “o impermeável ideal” com um conjunto de tecidos ou camadas, sendo o tecido externo impermeável ao ar e à chuva mas que deixa passar o vapor de água do interior para o exterior. O tecido externo tem que ser muito apertado e tem que ser constituído por fibras hidrófobas, que não absorvem água ou então por uma membrana hidrófoba que respire (com microporos). Depois terá que haver uma camada intermédia que faça a protecção ao frio (isolamento térmico activo ou passivo) e um tecido interior (forro) que seja pouco áspero, que deslize bem para vestir e tirar com facilidade. Este é um sistema têxtil funcional. O funcional passivo (ex. bolsas de ar) seria de primeira geração e o funcional activo (ex. PCM) de uma segunda geração, ou seja, um têxtil inteligente. Quando falamos de têxteis inteligentes, falamos mais dos materiais que reagem a um estímulo externo. Por exemplo, se está mais frio ou mais calor o têxtil compensa em termos de temperatura de forma a manter o corpo a uma temperatura constante. Assim, para tecidos mais avançados, utilizaríamos os PCM – Phase Change Materials, que são materiais que mudam de fase por acção do calor, utilizando-se o calor latente para aquecer ou arrefecer o corpo. Esta capacidade permite manter a temperatura do corpo constante pois ao passar de sólido para liquido, como preciso de calor para derreter, vai buscar o calor ao corpo e este acaba por ficar mais frio. Ao passar de liquido para sólido acontece o contrário, libertando calor para o corpo e este acaba por aquecer. Estes sim, são um exemplo de têxteis inteligentes. Estes materiais estão a ser produzidos na Universidade do Minho para uma temperatura de conforto de 28ºC e o objectivo é manter essa temperatura quer esteja calor ou frio. JT – Têm conseguido uma união entre os estudos que são feitos a nível académico e o que as empresas procuram? MA – Há muitas empresas que estão interessadas nisto. Por exemplo, há uma empresa que faz edredões que está a trabalhar neste tipo de tecido com mudança de fase, quantas vezes a meio de noite acordamos a transpirar… Estamos igualmente a desenvolver palmilhas para manter sempre os pés à mesma temperatura, isto é, quentes no Inverno e frescos no Verão. De qualquer forma, julgo que há empresas, sobretudo pequenas e especializadas, que estão bastante interessadas. Já as grandes estão mais interessadas em grandes quantidades. Tal fará sentido por se tratar de nichos de mercado. Mas também existem empresas estrangeiras interessadas e se Portugal conseguir vender ciência e tecnologia como valor acrescentado do artigo têxtil, tanto melhor! JT – Qual é o papel da Universidade do Minho em termos de têxteis técnicos? MA – A Universidade do Minho tem hoje uma Unidade de Prototipagem de Materiais Fibrosos, que inclui 3 fases: simulação, fabrico e ensaio. Temos um gabinete de simulação, que nos permite fazer o projecto do material de acordo com as especificações do cliente. Temos as principais tecnologias de fabrico: tecelagem, malhas de teia e trama, não-tecidos e entrançamento. Temos essas tecnologias todas em pequena escala para fazer amostras. Depois temos uma unidade de ensaio para verificar se esses materiais estão de acordo ou não com a especificação. Estes materiais desenvolvidos por nós podem ser para qualquer aplicação, com três áreas de especialização: propriedades mecânicas, propriedades térmicas e permeabilidade/ difusão. Estas três são fundamentais, os aspectos mecânicos, a transferência de calor e a transferência de massa. Nós entendemos que os materiais fibrosos são importantes para resolver problemas de resistência e de permeabilidade. Apostamos muito na transferência de calor e na permeabilidade à água e ao vapor, de acordo com a necessidade do cliente. JT – Será porventura um processo demorado e complicado… MA – Estamos aqui a falar em projectos que se desenvolveram ao longo dos últimos dois ou três anos e cuja tecnologia já se encontra suficientemente madura para ser transferida com relativa facilidade para as empresas. Neste momento já estamos a pensar noutros projectos para os próximos dois ou três anos. Obviamente que registamos patentes. No ano passado registámos mais de 10 e este ano já temos mais alguns registos de p