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No mapa do vestuário

A Tanzânia pretende colocar o continente africano na rota do sourcing do vestuário mundial, desenvolvendo uma série de políticas destinadas a fomentar o investimento de produtores e compradores, suportadas pela ambição de vir a ser a escolha preferida em África.

Com apenas duas empresas têxteis estrangeiras a beneficiarem do estatuto de isenção de taxas alfandegárias, aplicado às exportações de vestuário para os EUA sob a Lei de Crescimento e Oportunidade para a África (AGOA), a Tanzânia está ainda a criar as bases da sua indústria. No entanto, este país do leste africano está já a fazer progressos, com as exportações para os EUA no ano passado a ultrapassarem as da Etiópia pela primeira vez.

As expedições de vestuário provenientes destes dois países eram equiparáveis em 10,3 mil milhões de dólares em 2013, mas as exportações da Tanzânia aumentaram 68% em 2014, fixando-se em 17,5 milhões de dólares, enquanto as da Etiópia apenas cresceram 16% para 12 milhões de dólares. Em termos de volume, o mesmo aconteceu, com a Tanzânia a crescer em 47% para 15,5 milhões de metros quadrados equivalentes, enquanto a Etiópia derrapou 5% para 6,9 milhões.

«Espero que consigamos manter esse crescimento, atraindo investimento de fábricas de vestuário internacionais, e se elas se fixarem com o fabrico de malhas e tecidos, isso seria ainda melhor. Esse é o nosso objetivo», revela Tim Armstrong, diretor da promoção para o investimento da Unidade de Desenvolvimento Têxtil (TDU na sigla inglesa) na Tanzânia. «Existe grande interesse pela Tanzânia», afirma, acrescentando que expandir a indústria como forma de disponibilizar um maior leque de opções através de várias fábricas, «atrairá os grandes compradores; por isso precisamos de agir».

Atuando no contexto do Ministério da Indústria e do Comércio da Tanzânia, a TDU é apoiada pela organização britânica Gatsby Charitable Foundation e tem como objetivo inicial prestar apoio à indústria existente, tendo recentemente ampliado o seu âmbito de atividade, atraindo e providenciando acompanhamento a novos investidores que optam por se fixar no país. A unidade desenvolveu, também, programas de treino para os operadores, supervisores e técnicos da indústria têxtil e vestuário, para que as empresas possam rapidamente formar uma força laboral competente.

Registos têxteis
A Tanzânia é conhecida por ser um dos maiores produtores africanos de algodão, com o rendimento médio das culturas para os últimos três anos a totalizar 275.700 toneladas, das quais 70% são exportadas depois de parcialmente processadas.

No entanto, o país tem uma longa história na produção de têxteis e vestuário que remonta a 1966, incluindo uma forte presença chinesa. Apesar da vaga de privatizações de fábricas estatais na década de 1990, apenas recentemente a indústria recebeu o investimento de que necessitava, à medida que as empresas locais aproveitam o vasto mercado doméstico e potencial de exportação nacional. Simultaneamente, a economia da Tanzânia testemunha agora um período de rápida transformação.

«A África como um todo está a atrair muita atenção, especialmente da parte da China», refere Armstrong, admitindo ainda que «o nosso objetivo é alcançar as Maurícias e o Quénia e promover a Tanzânia como um ponto de origem no fabrico de vestuário, com o potencial para integrar a produção de fios, malhas e tecidos. O nosso foco principal é criar postos de trabalho e assegurar massa crítica na indústria».

Existem atualmente cerca de 16 grandes fábricas na Tanzânia, das quais quatro ou cinco exportam para fora da Comunidade da África Oriental (EAC na sigla inglesa). Duas delas são empresas de produção de vestuário estrangeiras.

“Melhor destino de investimento”
Armstrong pretende transmitir a mensagem de que a Tanzânia é «o melhor destino para investir em África. Dispõe de custos laborais razoáveis, grandes quantidades de algodão e fio disponíveis localmente, um porto, infraestruturas, acesso inigualável ao mercado regional e internacional mas, acima de tudo, estabilidade, com o mesmo partido no poder desde 1960».

Um dos trunfos do país é a construção de um megaporto e zona industrial em Bagamoyo, avaliados em 11 mil milhões de dólares, que estão a ser desenvolvidos pela China Merchants Holdings International, um dos maiores operadores de portos a nível mundial. A primeira fase do projeto deverá estar concluída em 2017, com uma expansão programada para as décadas seguintes, totalizando uma potencial capacidade de 20 milhões de contentores por ano, o que faz deste o maior porto da costa leste de África. A TDU espera criar um pequeno cluster de vestuário e estabelecer um pacote governamental coordenado para investidores têxteis.

«Os custos principais da indústria do vestuário são os custos indiretos dos atrasos», indica Armstrong, «porque se não entregar dentro do tempo, arrisca um cancelamento ou custos adicionais de expedição aérea».

No que diz respeito aos países concorrentes, o responsável destaca que, enquanto alguns países africanos apresentam uma base de custos laborais mais baixa – a da Tanzânia ronda atualmente os 60 a 70 dólares por mês –, no país não existe o risco de imposição repentina de um salário mínimo. Armstrong acredita que «é melhor começar com um salário mínimo razoável, como o que nós temos na Tanzânia, e não haverá um grande aumento no futuro».

Estratégia de exportação
À semelhança de outros países subsarianos, as exportações de vestuário provenientes da Tanzânia rumo aos EUA beneficiam de acesso livre no âmbito do AGOA. Porém, o país tem acesso semelhante aos mercados da União Europeia sob o Acordo de Parceria Económica (EPA na sigla inglesa) com a Comunidade da África Oriental, assim como com os mercados do sul do continente, através de associações da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral.

O Senado americano aprovou recentemente a extensão do AGOA por 10 anos. Armstrong destaca, ainda, outro benefício do EPA estabelecido com a União Europeia, já que uma vez ratificado, não expirará, significando que os países não irão perder o acesso ao mercado europeu à medida que o seu estatuto económico melhora.

Estando focados na construção de uma nova indústria de vestuário, a Tanzânia começará também com uma indústria “limpa”, sem problemas de conformidade instalados e poderá saltar diversas etapas de desenvolvimento, mantendo a estabilidade dos custos desde o primeiro momento.

«É a escolha da pessoa inteligente para investir a longo prazo no segmento do vestuário e em África e é um lugar atraente para se viver e fazer negócios, num ambiente político e social estável», aponta. Armstrong considera ser «a melhor localização global para a fabricação de vestuário em África».