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No meio está a virtude

Num momento em que renomadas marcas de luxo mundiais apelam a uma diminuição do valor dos arrendamentos ou optam por encerrar espaços comerciais nos principais destinos de compras de Hong Kong, os retalhistas convencionais preenchem as lacunas deixadas.

Em Hong Kong, as marcas de luxo extravagantes dão lugar a nomes mais comuns. As marcas que apelam a um mercado mais amplo estão a beneficiar do valor declinante dos arrendamentos, instalando-se em alguns dos locais de retalho mais cobiçados de Hong Kong.

«A queda assinalada no segmento de relógios e joias, bem como no sector de luxo, está a abrir caminho para a expansão das marcas de fast-fashion», disse Tom Gaffney, diretor de retalho da Jones Lang LaSalle Inc.

O fabricante de bolsas de luxo Coach Inc. inaugurou a sua loja flagship de quatro andares no coração do distrito central de Hong Kong, acompanhada de grande pompa, em junho de 2008. Em agosto, a empresa terminou discretamente o seu contrato mensal de arrendamento de 723.000 dólares e a Adidas prepara-se para ocupar o seu lugar – pagando 23% menos de arrendamento, de acordo com o Colliers International Group Inc.

Este não é um caso isolado. A Russell Street, em Causeway Bay, que apresentava os valores de arrendamento mais dispendiosos do mundo, até ser superada pela Fifth Avenue nova-iorquina há um ano, vive atualmente uma grande transformação. O espaço anteriormente ocupado pela casa de relojoaria e joalharia Emperor Watch & Jewelry Ltd., surge agora associado ao retalhista de cosméticos Bonjour Holdings Ltd. No espaço contíguo está a rival Colourmix Cosmetics Co., que ocupa, atualmente, o espaço deixado vago pelo relojoeiro suíço Jaeger-LeCoultre.

Declínio das rendas

As rendas dos espaços de retalho começaram a diminuir após a ocorrência de manifestações contra o governo chinês, diminuindo o atrativo da cidade, até então um paraíso de compras para os turistas provenientes da China continental, a par de uma economia em desaceleração e campanhas de austeridade e anticorrupção implementadas por Pequim, que inibiram os consumidores chineses de efetuarem compras de bens de luxo. A venda de relógios e joias foram as mais atingidas, tendo diminuído, em comparação anual, no decorrer dos últimos 11 meses.

«Os hábitos de compra estão a mudar; há alguns anos atrás, não era incomum ver residentes do continente a entrarem em relojoarias e pedirem dez relógios Rolex», disse Marcos Chan, diretor de pesquisa para Hong Kong, Taiwan e Macau do CBRE Group Inc. «Agora, raramente vemos as pessoas a adquirirem um sequer».

Embora as marcas de luxo estejam a abandonar os espaços de retalho à face das principais ruas de comércio, mantêm a sua presença em centros-comerciais de luxo, nos quais as rendas mensais são mais baixas, uma vez que os proprietários recebem, também, uma parcela das receitas das vendas, como parte do pagamento devido pelo inquilino.

Esta desaceleração deve-se, também, ao facto dos consumidores chineses, que representam 10% do turismo mundial e mais de 25% dos gastos de luxo, preterirem Hong Kong, em benefício da Europa, Coreia do Sul e Japão, atraídos por moedas mais fracas e procedimentos de aquisição de visto facilitados. Uma vaga de reações negativas face aos turistas continentais também prejudicou o potencial atrativo de Hong Kong, disse Chan.

Jones Lang antecipa uma diminuição acrescida de 10% das rendas em 2016, que se segue a uma queda de 20% a 30% assinalada no decorrer deste ano, a par da libertação de 18.000 metros quadrados de espaço para arrendamento em Queen’s Road, um dos principais destinos de compras da cidade, até 2018.

A escassos metros de uma das mais movimentadas estações de metro de Hong Kong, na região de Central, a marca de moda de baixo custo Folli Follie, com base em Atenas, inaugurou uma loja em meados de outubro, depois da saída do retalhista de relógios de luxo Carlson.

A Hennes & Mauritz AB está, também, a tirar proveito da queda das rendas para expandir a sua presença. No dia 30 de outubro inaugurou uma flagship de quatro andares, a sua maior loja no continente asiático, em Causeway Bay.

«Parte da nossa estratégia de expansão passa por alcançar um acordo vantajoso e competitivo», disse Magnus Olsson, gestor da região da Grande China para a marca sueca, recusando-se a divulgar detalhes sobre os valores do arrendamento. «Se não estivéssemos satisfeitos, não teríamos inaugurado o espaço».

Helen Mak, diretora-sénior de serviços de retalho da Colliers, revelou que, embora o nível superior de serviço de Hong Kong continue a atrair turistas, estes estão à procura de uma experiência de compras diferente nas ruas de compras da cidade. «No passado, quatro em cada cinco lojas vendiam relógios Rolex», disse. «No futuro, um turista espera encontrar uma maior variedade de lojas de retalho em Hong Kong».