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«No vestuário temos um duplo aumento dos custos»

A subida dos preços das matérias-primas e dos salários tem afetado duplamente a indústria de vestuário portuguesa, na perspetiva de César Araújo, presidente da ANIVEC, que salienta ainda a importância de medidas de apoio do Governo à atual crise e à internacionalização das empresas.

César Araújo

Embora esteja a sentir menos, pelo menos de forma direta, o aumento da fatura energética do que os seus homólogos do têxtil, a indústria de vestuário nacional está igualmente a ser afetada pela crise que está a impulsionar o preço das matérias-primas e dos transportes, afirmou o presidente da ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário, Confecção e Moda. Em entrevista ao Portugal Têxtil durante a Première Vision Paris, onde acompanhou a visita do Secretário de Estado da Economia, João Neves, César Araújo abordou ainda outras questões prementes para este sector, desde a escassez de mão de obra – e potenciais caminhos para a solucionar – às investidas que a associação tem feito em Bruxelas em áreas como a sustentabilidade e o apoio às empresas.

O aumento dos custos, nomeadamente das matérias-primas, dos transportes e da energia, está a afetar em especial a indústria têxtil, mas também a atividade da indústria de vestuário. Que medidas defende a ANIVEC para apoiar o sector neste momento de grande adversidade?

É preciso ver que o têxtil e o vestuário são dois sectores distintos, mas que estão fortemente interligados. Quando o aumento da eletricidade ou do gás se reflete na têxtil, é uma questão de seis/sete meses para termos esse efeito no custo da matéria-prima. No vestuário temos um duplo aumento dos custos, porque somos mão de obra intensiva e menos capital intensivo. Primeiro, pela via do aumento das matérias-primas e depois pelo aumento do custo dos salários. Neste momento, a crise das matérias-primas, a crise energética e a crise alimentar são piores do que o covid. Com o covid houve estímulos direcionados ao apoio social, agora é o mercado a funcionar. Só que o mercado está maluco, está de tal maneira desregulado que é muito difícil prevermos o que vai acontecer amanhã. O cliente não quer pagar estes aumentos e, por isso, temos que criar sinergias entre todos. Conheço empresas que estão a reduzir o seu horário de trabalho para não perder os clientes, porque o aumento do custo energético, quer da eletricidade, quer do gás, é de tal maneira elevado que elas perdem menos se trabalharem menos. Mas o objetivo é não perder os clientes, porque se isso acontecer, depois não conseguem reativar a sua atividade e todo o sector é penalizado e sofre. Por isso, vamos tentar, juntamente com o Governo, ver as medidas e os apoios que possam ser aplicados, não só no vestuário, mas noutros sectores – temos trabalhado muito com outras associações, somos solidários com elas e lógico que as medidas que propomos também vão ao encontro do que as associações de outros sectores pedem.

Que outros desafios se colocam hoje às empresas de vestuário?

Neste momento, o mais importante é ter uma presença física nas feiras, porque com esta crise, o não estar fisicamente, pode prejudicar a nossa imagem. A nossa maior preocupação é que as nossas empresas estejam presentes nos eventos e que mostrem a garra que tem Portugal. Na Première Vision estiveram 64 expositores portugueses, podíamos ter mais, mas também é preciso ver se existem verbas para poderem estar mais. Não podemos estar numa feira destas há mais de 15 anos e de repente dizer: “não há orçamento e durante duas ou três estações não vimos”. Isso é prejudicial, porque depois já não conseguimos estar presentes. Por isso, qualquer plano ou medidas de estímulo que o Governo tenha, tem que ser a longo prazo e não podem ter intervalos.

Uma das questões que mais preocupa a indústria de vestuário, e que tem vindo a ser largamente debatida, é a escassez de mão de obra. Que soluções aponta a ANIVEC para esta problemática?

A indústria é muito diversificada e, por isso, a posição da ANIVEC abrange várias coisas. Portugal tem vários caminhos: tem o caminho do mercado nacional, com as empresas que querem só produzir no mercado nacional, e depois temos outras empresas que, para não perderem clientes, vão focar-se na internacionalização industrial, isto é, vão subcontratar a países terceiros – e ainda bem que Portugal tem Marrocos e Tunísia, porque é um fornecimento de proximidade. O importante é que Portugal não perca esse conhecimento e essa dinâmica. Para as empresas que produzem dentro de Portugal, podem trazer imigrantes, embora haja aqui um problema enorme que é a habitação. Não se pode trazer mão de obra estrangeira sem que haja um plano nacional, mas esse plano nacional não parte da empresa A, B ou C. Tem que haver um plano nacional delineado pelo Governo, porque tudo tem que funcionar pelas regras. Quando um imigrante vem, ele é livre de circular e, desde que cumpra as regras, tanto pode estar a trabalhar na indústria, como na agricultura – é um plano nacional que deve ser delineado pelo Governo e tem que haver vontade política para que isso aconteça.

Na sua perspetiva, qual será o papel da automatização e da digitalização na evolução do sector?

A robotização e a digitalização são coisas diferentes. A robotização vai fazer o quê? Vamos deixar de ter costureiras para ter operadoras de costura, deixamos de ter cortadores para ter operadoras de corte. Só que temos um problema em Portugal: temos um sector tradicional e, devido à sua longa tradição, os próprios edifícios das empresas estão desadequados. Precisamos agora de investir em edifícios inteligentes porque, hoje em dia, uma máquina dessas, com maior automatismo, não é uma máquina de costura – estamos a falar de máquinas com três metros de comprimento, dois metros de largura. O próprio layout da fábrica tem que ser alterado. Mas a digitalização e a robotização já estão a acontecer. A pandemia veio acelerar a digitalização, as pessoas já estão muito mais abertas a fazerem tudo através do computador, as próprias reuniões por videoconferência, as vendas online, tudo isso está a acontecer em passo acelerado. Por isso, é uma questão de mais ano, menos ano, não muitos, para que estas realidades possam fazer parte do nosso quotidiano.

Enquanto empresário da indústria de vestuário, que operações vê que possam, num futuro próximo, ser automatizadas ou robotizadas?

João Neves e César Araújo

Muitas delas. A inteligência artificial vai ajudar na organização do trabalho. Hoje fazemos a organização do trabalho muito manual, no futuro não. No futuro vamos assimilar todos os processos produtivos antes e projetar de uma forma muito mais harmoniosa e eficiente. Tudo isso vai acontecer. Eu, como empresário, além de investir na robotização e na digitalização, quero criar o maior atelier industrial do mundo, feito por pessoas para pessoas. Made by hand é aquilo que eu quero fazer na Calvelex. Mas o que eu quero fazer na Calvelex é uma questão de estratégia, o caminho que eu quero fazer, porque a Calvelex tem uma história muito grande para contar – sou a quarta geração de alfaiates. Isso não quer dizer que outras empresas não façam, e bem, um caminho diferente daquele que eu quero fazer.

Mas acredita que as parcerias entre empresas podem ter um papel relevante no futuro desta indústria?

Toda a gente sabe que eu sou um grande defensor das empresas com músculo. A globalização veio alterar a forma como nos relacionamos e temos que ter músculo. Cada vez mais faz sentido termos parceiros que se complementam. Num projeto que reuniu a Calvelex, a Paulo de Oliveira, a Polopiqué, a Riopele e a Twintex, estas cinco empresas não são concorrentes, complementam-se. E quando vamos em grupo aos mercados, já somos respeitados: “ah, Portugal!”. Toda a gente que me conhece sabe que sou um grande defensor das parcerias, ninguém trabalha isoladamente. E Portugal não pode dar-se ao luxo de ficar a meio do caminho, este caminho é para ser traçado. Lógico, que há várias parcerias. Nós começámos as parcerias a fazer produtos das empresas para mostrar aos clientes e agora temos esta parceria para chegarmos aos clientes e vendermos o que o cliente quer. Aos olhos do mundo continuamos a ser pequenos, mesmo todos juntos somos pequenos, mas temos uma voz mais ativa na Europa e no mundo.

Um dos temas quentes da atualidade é a sustentabilidade e as medidas que estão a ser preconizadas pela UE nesta matéria. Como é que a ANIVEC olha para essas mudanças anunciadas: serão um obstáculo ou uma oportunidade para a indústria de vestuário em Portugal?

Só será uma oportunidade se a Europa impuser as mesmas regras aos países terceiros com quem a Europa se relaciona. Não podemos pôr muita pressão à indústria europeia e legislar, legislar e legislar e, depois, permitir que empresas como a Shein consigam introduzir aqui blazers a 20 euros, que a gente sabe que aquilo tem que ser trabalho escravo e não cumpre com nenhuma ética, nem social, nem ambiental. A Europa tem que aplicar aos países terceiros com que se relaciona as mesmas medidas que aplica às empresas europeias.

Enquanto industrial da confeção e presidente da ANIVEC, como vê a obrigatoriedade de reciclar o vestuário até 2025?

Há aqui um período em que a moda não foi desenhada para ser reciclada. Os produtos têm que ser reciclados, os componentes têm que ser reciclados, se eu fizer um casaco que não é pensado para ser reciclado, é mais difícil que seja reciclado. 2025 é uma data muito apertada, seria preferível ter dado uma janela maior, ter feito um plano estratégico mais alargado, porque o problema não é a Europa. 85% ou mais dos produtos de vestuário consumidos na Europa têm proveniência terceira e esses não cumprem nada. Temos que exigir que cumpram, mas é exigir na entrada, porque se não conseguirmos controlar a entrada, não vamos controlar, nem podemos taxar.

Como tem a ANIVEC procurado defender os interesses da indústria do vestuário junto das entidades em Bruxelas?

Temos três ou quatro áreas que vincamos e estamos a fazer caminho para conseguir conquistar medidas adequadas, entre elas o Sistema de Preferências Generalizado (SPG), a caracterização das PME – que é importante, porque Portugal precisa de ter empresas com músculo para competir a nível global –, a forma como a Europa trata os países terceiros, para que cumpram as mesmas exigências, e o apoio ao desenvolvimento das indústrias e das marcas no espaço europeu. Defendemos que devemos ter empresas estimuladas e apoiadas para desenvolver marca própria, porque o caminho da marca própria tem que começar já. Quando entrarmos em força na digitalização, o que é que vai acontecer? Vai ser do produtor ao consumidor e, se as fábricas não tiverem marca, não vão poder fazer esse caminho.

Em termos de negócios e exportações, que balanço faz do primeiro semestre do ano para a indústria do vestuário?

Está a correr bem. Mas não queremos alarmar pela positiva, porque pode estar a correr bem porque havia uma baixa de stocks, os clientes nesta fase precisam de stocks para vender, até fizeram compras antecipadas, e pode haver aqui um arrefecimento. Até ao final do ano, vamos sentir como é que o mercado reage. Como trabalhamos um ano à frente, em dezembro estaremos a projetar as compras de outono-inverno do próximo ano e aí vamos ter uma perspetiva se a crise se vai acentuar ou se a retoma vai realmente ser uma realidade. Temos aqui muitos fatores, como a guerra, que podem trazer o aumento da inflação e, isso sim, provoca uma retração do consumo, porque o consumidor vai ter que pagar mais por produtos essenciais, como alimentação e habitação, e isso pode fazer com que haja uma retração do consumo da moda.

Muitos especialistas falam de uma certa tendência para o nearshoring e para o reshoring. Essa tendência tem-se sentido junto das empresas de vestuário portuguesas?

Há muita produção que está a voltar por vários fatores, seja porque a cadeia de aprovisionamento colapsou ou porque o cliente quer comprar menos e mais rápido. Mas é preciso esperar para ver se a sustentabilidade vai forçar o aprovisionamento de proximidade ou se a sustentabilidade é mais um chavão. Temos que analisar se esta volta à Europa tem a ver com uma mudança de compras, de comportamento ou se é uma necessidade pontual pela falta de transportes ou porque o aumento dos custos de transporte é elevado. Até ao final do ano teremos uma perspetiva melhor.

Que expectativas tem para o resto do ano para o sector do vestuário?

2021 foi um ano em baixa, por isso acredito que 2022 tem que ser o começo da retoma e que 2023 tem que ser um ano excelente.