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Nova era na China

O colossal sector industrial chinês está, neste momento, a experimentar custos mais elevados dentro de portas, a lidar com uma concorrência mais barata e a sofrer com uma desaceleração da economia global. Mas o negócio continua em crescendo para aqueles capazes de se adaptar.

Em 1997 a KTC, produtora premium de sportswear, estava como muitas outras empresas de vestuário chinesas que operavam em larga escala. Marcas de vestuário como a Adidas – apenas um dos muitos clientes da empresa – colocavam encomendas de milhões de peças na fábrica localizada em Heshan, uma pequena cidade fora de Guangzhou.

Fundada no final da década de 1970 pelo aventureiro austríaco Hans Kremmel, com a ajuda do parceiro chinês Luo Shineng, a KTC acompanhou de perto a vaga de reformas económicas desencadeada por Deng Xiaoping. As reformas do ex-líder chinês abriram o país ao comércio internacional e impulsionaram a metamorfose da China para “fábrica do mundo”.

Nos últimos 25 anos, a quota da China na produção industrial global subiu de 3% para quase 25% em valor, e se forem consideradas as cadeias de aprovisionamento que as empresas chinesas conduzem em todas a outras partes da Ásia, esse número aumenta para quase 50%, de acordo com dados divulgados pelo The Economist.

Quando se trata de produção industrial global de moda, a participação da China é ainda maior. Produzindo 60% do calçado e exportando mais de 43% do vestuário do mundo, o Império do Meio tornou-se indispensável para designers, marcas e retalhistas da fast fashion ao luxo.

Mas, como muitos outros sectores da indústria transformadora, a indústria chinesa enfrenta atualmente importantes desafios, como os elevados custos de produção e o aumento dos salários, a concorrência dos centros de aprovisionamento mais baratos na Ásia e África e, ainda, a desaceleração económica global.

Numa altura em que o governo chinês está a introduzir políticas para regular a economia do país, desde a produção até aos serviços, e criar um ambiente padronizado mais sólido, não há dúvida de que a produção da China está sob pressão. Para empresas como a KTC, no entanto, a turbulência recente simplesmente apressou uma evolução que já estava em curso.

Inovação, especialização e atualização

Os fabricantes chineses estão a tornar-se cada vez mais avançados em termos de tecnologia e inovação. Enquanto alguns encontram o sucesso através da diversificação, outros estão a subir na cadeia de valor com uma estratégia e oferta mais especializada. Ao investir em melhorias tecnológicas, em vez de economias de escala, uma nova geração está já a produzir menos unidades, mas com margens de lucro mais elevadas.

«Agora é sobre como nos transformarmos numa fabricante de boutique. Então, em vez de vários milhares de estilos, estamos a falar de uma quantidade de 20 peças por estilo atualmente», referiu Gerhard Flatz, diretor de operações da KTC, que recentemente começou a colaborar com designers emergentes na Europa, como a coleção cápsula que produz para Yang Li. A KTC deixou de produzir para gigantes como a Adidas há 10 anos, à medida que se foi afastando do mercado de massas do sportswear.

Ao concentrar-se num tipo de vestuário técnico, em roupa atlética especializada e na performance, Flatz tem atraído clientes como as marcas Rapha, Mammut, Mustang Survival, Gore Running e insígnias de vestuário de nichos como o montanhismo, o trekking, vela, esqui, desportos equestres e extremos.

«Temos que ir em direção a uma espécie de microeconomia na produção, longe daquelas extensas linhas de confeção. A nossa maior sala de amostras tem atualmente apenas 2.000 pessoas», revelou Flatz, acrescentando que a produção anual da empresa se situa nos cerca de dois milhões de peças de vestuário.

E, porque empresas como a KTC se estão a deslocar no sentido de uma quota restrita do mercado, há menos concorrentes que podem suplantar o seu know-how especializado. Uma vez que o negócio está agora sustentado na experiência e não tanto no volume de vendas, a empresa é capaz de investir mais tempo e dinheiro em questões como a conformidade, produtividade, transparência e sustentabilidade.

Offshores e sourcing

Os produtores de tecido e de vestuário chineses tornaram-se o mais profundamente enraizados nas cadeias de aprovisionamento do Sudeste Asiático, construindo, adquirindo ou assinando parcerias com unidades de produção em localizações como o Vietname, Myanmar e Camboja, enquanto conseguem parcerias estratégicas no Bangladesh e Indonésia. A KTC, por exemplo, tem uma fábrica satélite em Laos.

A ITV chinesa tem vindo também a expandir-se para destinos cada vez mais longínquos. Algumas empresas têm alegadamente feito fortuna no Médio Oriente através das Qualified Industrial Zones localizadas em estados vizinhos de Israel, como a Jordânia, onde ganham acesso livre ao mercado americano. Fábricas chinesas como a Keer têm deslocalizado as suas unidades de fiação e tecelagem para estados norte-americanos, como Carolina do Sul, onde o algodão é relativamente acessível.

Segundo dados compilados pela Cyrus Yu, as empresas chinesas também estão a espalhar-se para vários países africanos. Empresas de calçado como Huajian e Hazan operam na Etiópia e na Nigéria, respetivamente, enquanto empresas têxteis, como a Jiangsu Lianfa, estão a entrar no Quénia, Uganda e Tanzânia.

Mais produtividade e melhor qualidade

Apesar de toda esta atividade no estrangeiro, os especialistas continuam confiantes de que nem as filiais internacionais, nem os concorrentes internacionais irão comprometer a posição dominante da China a curto prazo. «O maior país de aprovisionamento da Li & Fung ainda é a China e representa 47% do nosso sourcing», afirmou Rob Sinclair ao portal The Business of Fashion.

Rob Sinclair é o responsável de operações da LF Sourcing, uma divisão do gigante Li & Fung. A empresa administra cadeias de aprovisionamento globais para algumas das maiores marcas e retalhistas do mundo da moda através de uma rede de 15.000 fornecedores em 40 países. «Vamos admiti-lo, os chineses criaram uma infraestrutura para a cadeia de aprovisionamento que é incrível. Agora a questão é quem mais no mundo pode copiá-la. Acho que, francamente, não há ninguém capaz de se aproximar, por causa da verticalidade que existe na China. Eles têm algodão, fiação, tingimento, experiência têxtil, tudo», advogou Sinclair. A China está continuamente a desenvolver quer o hardware, quer o software necessários para as suas rápidas e sofisticadas cadeias de aprovisionamento.

«Como marca, pedem-nos para expedir nove vezes por ano e fazê-lo de forma rápida, por isso, para mim, o fator mais importante na escolha de uma fábrica – além da qualidade e o relacionamento – é a velocidade com que o produto chega ao mercado, minimizando os custos de expedição», apontou Wen Zhou, diretor executivo da 3.1 Phillip Lim, a marca de moda sediada em Nova Iorque que é inteiramente fabricada na China.

Tecnologia, automação e robótica avançada estão agora a contribuir para a capacidade da China na manutenção de um preço competitivo. «Estão a atenuar os aumentos dos custos ao fazerem as coisas de forma mais inteligente e melhor», explicou Sinclair. «É possível ir a várias fábricas na China e ver italianos e vários outros técnicos e especialistas europeus que trabalham dentro destas instalações. Eles abraçaram isso. E este cenário não é visto na Índia ou no Bangladesh, nem em outros países», acrescentou.

Em última análise, as maiores vantagens que muitos citam em relação à supremacia da indústria chinesa são as suas capacidades e produtividade. De acordo com o Global Manufacturing Competitiveness Index 2016 da Deloitte, a China continua a estar no topo. Embora a empresa de auditoria preveja que os EUA possam ultrapassar a China nos próximos cinco anos, o país vai continuar a ofuscar a maioria dos países asiáticos que atualmente competem por uma fatia maior do bolo da produção. A Índia, o Vietname e a Malásia vão revelar-se mais competitivos mas, quando isso acontecer, a China deverá estar já noutro patamar.