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Ideias para o futuro

Numa sociedade polarizada, as reações são cada vez mais emocionais e defensivas e os avanços tecnológicos criam oportunidades mas também receio entre os consumidores, pela falta de privacidade e manipulação da informação. Este ano, contudo, será o primeiro em que novos conceitos vão impulsionar a mudança.

À medida que a nossa sociedade fica cada vez mais polarizada, sobretudo desde as eleições nos EUA e do voto no Brexit em 2016, as preocupações com questões como a mudança climática e a disparidade económica deverão levar-nos a reagir de uma forma emocional, reflexa e defensiva. Mas nos próximos meses será tempo de responder – de ter mais consideração, de ter tempo para pesar o impacto e os efeitos a longo prazo das nossas decisões em simbiose com toda a gente e com tudo o que nos rodeia, acredita o gabinete de tendências WGSN.

O envolvimento, através de informação, conhecimento, curadoria e crítica de valor vai tornar-se essencial para responder ativamente a desafios disruptivos, ajudando os consumidores a repensar, reimaginar e regenerar.

Coletivamente, as marcas, os consumidores e os designers vão criar um ecossistema de mudança no qual as respostas de cada indivíduo aos atuais sistemas “estragados”, como a crescente procura dos consumidores por produtos sustentáveis, vai catalisar uma nova era de mudança circular.

Design educado

Com as marcas a aderirem cada vez mais à ideia dos utilizadores se tornarem coautores na conceção e desenvolvimento de produtos, casos extremos, como deficiências sensoriais e cognitivas, irão tornar-se em oportunidades de design.

Pesquisas mostram que um em cada quatro adultos americanos tem uma deficiência que impede grandes atividades no dia a dia, por isso os designers podem aprender com estes utilizadores para criarem produtos e serviços acessíveis a todos, integrando gradualmente valores funcionais e médicos como qualidades secundárias.

Los Angeles IDEO

Desde 2017, a equipa de design da rede social Pinterest tem-se focado em alargar o acesso a pessoas com incapacidades visuais, colaborando com um grupo de teste de cegos para avaliar e ter feedback do processo de redesign da plataforma. A equipa criativa está a transformar a participação numa estratégia fundamental.

«Quando o procedimento de design inclui indivíduos com diversas capacidades e background, as falhas dos produtos e ambientes existentes muitas vezes tornam-se catalisadores de avanços no design«, aponta o Pinterest.

O design educado vai também impulsionar a evolução de como a conveniência pode ser incorporada em atividades fundamentais para permitir igualdade de acesso, desde vestir-nos ao direito ao voto.

Em 2018, o município de Los Angeles pediu à consultora IDEO para repensar a experiência de voto para as eleições presidenciais de 2020. O resultado foi uma cabine de voto modular que responde de forma intuitiva às necessidades dos eleitores, desde os que têm dificuldades visuais aos idosos pouco familiarizados com a tecnologia.

Capitalismo colaborativo

Incapaz de se adaptar às necessidades complexas da sociedade, em rápida mudança, os modelos tradicionais de operação na economia e governação mundial estão a cair.

Vê-se um crescente interesse em modelos alternativos, igualitários e inclusivos de propriedade e administração cívica, que se vai desenvolver num modelo de capitalismo colaborativo – onde a justiça, cooperação e descentralização serão valores fundamentais.

Os utilizadores, armados com avanços extraordinários na tecnologia descentralizada, vão tornar-se cada vez mais donos parciais dos negócios que produzem os bens que eles consomem.

O modelo de copropriedade está a ser aplicado também ao local de trabalho. Em 2018, a cadeia de supermercados Waitrose & Partners, uma empresa baseada no modelo de propriedade pelos funcionários, pediu à consultora londrina Pentagram para redesenhar a sua identidade visual, com ênfase na qualidade democrática da marca.

Com esta nova paisagem económica, o papel das marcas vai ser reavaliado e vai tornar-se mais relevante para a comunidade social que as usa.

Liderança progressiva

Os funcionários e os consumidores vão pressionar as empresas, tanto privadas como públicas, para dar à sociedade as ferramentas e oportunidades para prepararem um futuro melhor, desde responder às desigualdades e discriminação até combater a ameaça do desemprego através da automação.

Ohio State University

O Edelman Trust Barometer de 2019 concluiu que 76% dos 33 mil inquiridos de 27 países acreditam que os CEO devem liderar a sociedade para o progresso, um aumento de 11 pontos em comparação com 2018. «As pessoas têm baixa confiança de que as instituições sociais vão ajudá-las a navegar num mundo turbulento, por isso estão a voltar-se para uma relação crítica: o seu empregador», indica o relatório.

Neste novo cenário, o lucro estará inexoravelmente ligado ao propósito e o propósito vai encontrar expressão e confirmação em ações com significado. «Empresas que cumprem o seu desígnio para com os stakeholders colhem as recompensas a longo prazo. As empresas que o ignoram tropeçam e caem», explica Larry Fink, presidente do conselho de administração do grupo de investimento BlackRock.

Tecplomacia

Os governos, assim como os líderes tecnológicos e think tanks, estão a gizar políticas digitais internacionais para contrariar os desafios colocados pelo aumento do poder político da tecnologia.

Esta estratégia digital mundial vai ter a transparência, ética e direitos dos utilizadores como prioridades absolutas, focando-se na redefinição da relação entre o sector público e o privado através da diplomacia digital.

Estão a emergir novos representantes, como Casper Klynge, nomeado primeiro embaixador tecnológico da Dinamarca em 2017 para defender os interesses do país em Silicon Valley, ou David Martinon, embaixador francês para ciberdiplomacia e economia digital, responsável por criar um código de conduta no ciberespaço para empresas tecnológicas e instituições governamentais.

Os utilizadores vão exigir, cada vez mais, uma maior transparência, procurando novas ferramentas para avaliar a qualidade da tecnologia que consomem.

«Para as marcas, serem precisas e justas nas plataformas online e nos dispositivos digitais será a norma», sublinha o WGSN.

Em escolas e universidades, uma nova geração de especialistas em tecnologia será educada para a humanidade e a responsabilidade. Fei Fang, professora assistente na Escola de Ciências da Computação da Universidade Carnegie Mellon, em Pittsburgh, ensina “inteligência artificial para o bem social”, onde os estudantes podem aprender como expandir as aplicações da tecnologia inteligente além do lucro, em resposta a problemas mundiais como os cuidados de saúde e a privacidade.

Cognição emocional

A cognição emocional é uma categoria da computação inteligente capaz de detetar, processar e reagir aos padrões emocionais do utilizador. Muitas vezes adotada no âmbito das pesquisas de marketing e política, a tecnologia afetiva usa uma combinação de análise facial, de voz e de linguagem escrita com software de aprendizagem para operar.

Em 2018, uma equipa de investigadores da Ohio State University, nos EUA, publicou uma teoria de que as emoções humanas se expressam através de «mudanças subtis no fluxo sanguíneo» e, por isso, são detetáveis através da cor. A descoberta permitiu à equipa criar algoritmos capazes de identificar as emoções humanas através de padrões coloridos com uma precisão superior a 90%.

Os inputs emocionais vão mudar o valor de interações com base em dados para experiências com informação emocional, permitindo às marcas envolver-se de forma íntima e individual com os consumidores.

Neste cenário em rápida evolução, as marcas e os reguladores públicos, assim como os designers, vão cooperar para determinar os impactos da inovação, criando novos códigos para manter a confiança e a privacidade dos consumidores.

Dados controlados

Em novembro e dezembro de 2018, o fundo de inovação finlandês Sitra comissionou um estudo em quatro países (Finlândia, Holanda, França e Alemanha) para medir e investigar o nível de confiança em fornecedores digitais entre os utilizadores. Concluiu que uma das barreiras mais difíceis à progressão da economia com base em dados é a falta de confiança dos consumidores, com um em cada três inquiridos a preferir não usar serviços online por este motivo.

Pivot IA

Para aproveitar todo o potencial dos serviços e inteligência artificial com base em dados, vai emergir um novo modelo administrativo – um paradigma que vai aproveitar a inovação para dar o controlo ao utilizador.

A ênfase vai ser colocada no poder dos consumidores para compreender e regular os seus dados pessoais, reestabelecendo a confiança com ferramentas que dão informação e permitem a gestão de dados.

Tecnologia humanizada

Com os dispositivos digitais a tornarem-se praticamente uma extensão do corpo e mente das pessoas, vai surgir uma necessidade de reavaliar a aparência e o toque da tecnologia.

As qualidades mais quentes do design serão usadas para permitir aos dispositivos interagir de forma orgânica, aberta e intuitiva com os utilizadores, imitando as relações humanas.

No Cannes Lion 2018, Angela Ahrendts, vice-presidente sénior da Apple, afirmou que «a Apple está no negócio humano, é o nosso trabalho humanizar a tecnologia», destacando a ideia que o verdadeiro poder da inovação está nas interações entre a tecnologia e a humanidade.

As marcas de tecnologia vão tornar-se cada vez mais ferramentas de experiências sociais, desde o serviço ao consumidor empático a dispositivos que captam memórias íntimas e aplicações que permitem aos utilizadores ultrapassar restrições físicas e mentais.

Informação de valor acrescentado

Os consumidores estão a procurar novas ferramentas para se envolverem com a realidade à sua volta.

As aplicações digitais e os dispositivos online vão permitir-nos compreender a informação, em vez de a gerir, permitindo-nos separar o relevante do irrelevante e avaliar o valor correto das notícias que consumimos regularmente.

Triennale di Milano

Na publicação La Condizione Neomoderna, de 2017, Francesco Mordacci, diretor do departamento de filosofia da Universidade San Raffaele, em Milão, explica que à medida que novas realidades se desenvolvem, os humanos sentem cada vez mais a necessidade de as compreender através de novas ferramentas e categorias e «este processo é definido como conhecimento, rigorosamente separado da mera informação».

O conhecimento é um processo cognitivo baseado em experiências humanas, como fatos aprendidos, informação social ou histórias, e filtrado pelas capacidades humanas. «Experienciar informação, sem a influência indesejada de terceiros, vai tornar-se uma prioridade», aponta o WGSN. Novos formatos de serviços de informação vai emergir, como o primeiro pivot de notícias, que se estreou na China em 2018.

Design restaurativo

O futuro da sustentabilidade é regenerativo. Práticas criativas vão desenhar reparações através de objetos, ambientes, serviços e sistemas, com o objetivo de recuperar o equilíbrio ecológico que a evolução humana alterou.

A XXII edição da Triennale di Milano, que decorre até 1 de setembro, tem como tema “Broken Nature: Design Takes on Human Survival”, um desafio aos criativos internacionais para darem a sua visão sobre questões essenciais do nosso tempo.

Em 2018, o Royal College of Arts de Londres e o Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN) criaram o “Grande Challenge”, uma colaboração entre cientistas, investigadores e estudantes de diversas áreas criativas para desenvolver respostas inovadores de design aos problemas ambientais.

Água no futuro

O sexto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU afirma que o «acesso universal e igualitário a água acessível e segura» para todos os países em todo o mundo é uma prioridade fundamental para o futuro.

David Hertz

A capacidade de gerir este recurso precioso de forma sustentável e eficiente vai tornar-se essencial, sobretudo tendo em conta o crescimento da população mundial. Um estudo de 2018 sobre a água realizado pelas Nações Unidas prevê que em 2050 a procura por água potável vá aumentar em cerca de 30%.

Neste cenário desafiante, vai ser necessário encontrar novas soluções para repensar e reimaginar a nossa relação e consumo de água.

Uma equipa liderada pelo arquiteto americano David Hertz desenvolveu uma tecnologia capaz de recolher água potável a partir do ar, imitando o processo de formação de nuvens. O sistema, que é eficiente em termos energéticos, é capaz de produzir mais de 2.000 litros de água por dia.