Início Notícias Mercados

Novo luxo chinês

Na sequência de anos de domínio, que a posicionaram como o maior mercado de artigos de luxo à escala mundial, a China enfrenta um novo conjunto de desafios, impostos pela desaceleração da economia e transformação contínua dos hábitos de consumo.

A conjugação de um abrandamento económico, um novo e mais exigente consumidor e uma unidade anticorrupção significa que a China não é mais um mercado de crescimento constante e confiável para as marcas de luxo. De acordo com dados resultantes de uma pesquisa realizada pela Bain & Co, em 2000, os consumidores chineses representavam menos de 2% do consumo mundial de artigos de luxo pessoais.

No final do corrente ano, esse número será superior a 30%. O aumento vertiginoso diminuiu acentuadamente nos últimos dois anos: em 2014, o mercado de luxo da China encolheu pela primeira vez e a Bain & Co prevê que o mesmo aconteça este ano. O declínio no crescimento é, em grande parte, o resultado do combate à corrupção por parte do Partido Comunista Chinês, que pôs fim ao costume local de presentear com bens de luxo dispendiosos os funcionários bem conectados. «Os bons tempos para as marcas de luxo na China terminaram. Eu não sei quando voltarão, talvez nunca mais», sustentou Jiang Shan, CEO e fundador da Prowon Consulting, no evento FT Business of Luxury Summit, que teve recentemente lugar no Mónaco.

Shan acredita que isto não se deve apenas à lei anticorrupção implementada, mas também à transformação dos desejos do cliente de luxo chinês. Explicou que a exposição às preferências estrangeiras – particularmente ocidentais – estimulou a transformação do gosto dos chineses, afastando-os da ostentação de riqueza, rumo a um novo foco na discrição e qualidade.

«A nova geração de consumidores de luxo – com idades entre os 25 e os 34 anos – amadureceu. Eles abdicaram dos logos; já não querem exteriorizar a sua riqueza. Gostam dos designers chineses e de marcas europeias interessantes como Stella McCartney e Rick Owens», apontou. Stefano Canali, diretor da marca de moda masculina de luxo Canali, concordou que os gostos chineses estão a mudar, o que sugere que não foi apenas a lei anticorrupção a causa da alteração do padrão de consumo de produtos de luxo. «Os compradores chineses estão muito mais focados em comprar para si mesmos e não para outras pessoas», explicou aos delegados na conferência. «São, também, agora muito mais exigentes: querem saber muito mais sobre o que estão a comprar e porque devem gastar o seu dinheiro nesses bens», acrescentou.

David Tang, fundador da marca de moda Shanghai Tang, acredita que esta mudança se concentra na faixa etária dos 25 aos 40 anos de idade, que não são apenas, cada vez mais, exigentes no que diz respeito aos seus gostos, mas também mais conhecedores do meio digital. A maior exposição a sites internacionais de comércio eletrónico e a comparação de preços on-line significam que esta faixa demográfica tem uma compreensão mais profunda dos preços e preferência por descontos em relação às gerações anteriores de consumidores. «Nós, chineses, exigimos descontos.

Adoramo-los!», afirmou Tang. «Os descontos equivalem a lealdade, que equivale a descontos para os consumidores chineses. Dê-lhes um desconto e eles vão sentir-se especiais. Vão ser leais». Tang acrescentou que até mesmo os clientes chineses mais afluentes procuram valorizar o seu dinheiro atualmente, sugerindo que é elegante vangloriar-se sobre encontrar o melhor preço. Tang destacou inda um dos desafios mais pertinentes enfrentados pelas marcas de luxo globais que operam no mercado chinês: o facto de os clientes chineses já não comprarem bens de luxo em ambiente doméstico. «O retalho de luxo ocidental na China está a desaparecer rapidamente.

Os clientes viajam cada vez mais para o exterior para comprar para amigos e familiares com o melhor preço», justificou. Devido aos elevados impostos nacionais e a uma maior mobilidade internacional, 60% dos bens de luxo chineses são agora comprados fora do país, apontou. Apenas no ano passado, 107 milhões de chineses, que habitam o território continental, viajaram para o exterior, despendendo mais de 129 mil milhões de dólares. Muitos destes são agentes “daigou”, que viajam para o exterior, tendo por objetivo a compra de artigos de luxo, que depois transportam para território chinês e vendem on-line, de forma a evitarem os impostos de importação elevados.

Tang referiu que Hong Kong e Paris estão entre os destinos mais populares para os agentes “daigou” – no ano passado, a França introduziu um visto de emissão rápida, concluído em 48 horas, resultando num aumento de 61% dos vistos concedidos aos visitantes chineses face ao ano anterior. Johann Rupert, presidente do grupo Richemont, afirmou-se otimista, expressando confiança no potencial futuro do mercado chinês. «As leis limitadoras não vão impedir os chineses afluentes de comprarem bens de luxo», admitiu na sua intervenção. «Os consumidores chineses são inteligentes, trabalham imenso, poupam o seu dinheiro e, quer estejam a comprar em Londres, Paris ou no Japão, vão procurar sempre as melhores ofertas», concluiu.