Início Arquivo

Novos desafios enfrentam-se com determinação

Representando a quinta geração da família à frente dos destinos da Fábrica do Castanheiro, o administrador Alberto José Costa, fez ao Jornal Têxtil (JT) uma breve análise da situação da ITV nacional. Mostra-se preocupado e aponta vários factores que justificam a sua preocupação, quer em termos internacionais, como a liberalização do comércio, o alargamento da União Europeia e a diminuição drástica da componente industrial na economia europeia, quer em termos nacionais, como a baixa produtividade, relacionada com o baixo nível de formação e elevada média etária dos operários e a falta de confiança generalizada no sector, que dificulta a acção e o investimento dos empresários ligados à ITV. O JT não poderia deixar de questionar o empresário quanto às novas medidas anunciadas pelo governo para promover a competitividade da ITV nacional. «Numa atitude realista, vou esperar para ver… Relativamente à questão dos novos projectos de apoio à criação de marcas, acho louvável, mas não é a solução. Não nos podemos esquecer que por cada marca lançada com sucesso, existem dezenas ou centenas de tentativas fracassadas. Quanto à diplomacia económica, apesar de recear a inércia que por vezes caracteriza o sector, creio que é uma medida que se for concretizada na prática e debaixo dum estratégia correcta, pode trazer um valor acrescentado de grande interesse. Mas as acções têm de ter objectivos bem definidos e passíveis de serem mensuráveis e avaliados», declarou. Para garantir o futuro da empresa, Alberto José Costa salientou que a estratégia adoptada passa por um enorme esforço de modernização e automatização das diferentes áreas da empresa, nomeadamente a fiação, a tinturaria, a confecção e a expedição, no sentido de elevar os índices de produtividade. «Paralelamente, apostamos numa tentativa de diversificação dos segmentos de mercado e estamos sempre atentos a novas oportunidades. Além das feiras internacionais mais comuns, como a Heimtextil, participamos recentemente e pela primeira vez em duas feiras internacionais, que poderão trazer resultados interessantes no futuro. Uma delas foi a Texbo, feira de têxteis-lar em Salzburg, com óptima penetração no mercado austríaco e no sul da Alemanha e outra foi uma feira dedicada ao sector de hotelaria em Barcelona. É evidente que também temos tido experiências que depois se revelaram pouco consistentes. Uma delas foi a participação na Textilhome, em S. Paulo, organizada pela Exponor. Verificamos que actualmente o mercado brasileiro ainda é muito difícil e desistimos deste projecto», explicou o administrador da empresa. Como forma de fazer face à concorrência “via preço”, a deslocalização da produção é uma estratégia que está no horizonte da empresa, há já cinco anos. «Quando falamos de deslocalização da produção para países do chamado terceiro mundo, não falamos em montar empresas de raíz nesses países mas, actuar em regime de parceria com empresas locais, que nos parece ser o modelo mais interessante e menos arriscado. Nestes moldes, já fizemos uma tentativa na Tunísia para a produção de artigos básicos a um preço muito mais competitivo mas, a estratégia não resultou e abandonámos a ideia. No entanto, a empresa tunisina manteve uma óptima relação comercial connosco, sendo actualmente nosso cliente. A tentativa em Marrocos foi abandonada quase de imediato, porque o nível tecnológico das empresas marroquinas é ainda muito baixo. Neste momento estamos a equacionar a hipótese do Paquistão, com a cedência dos nossos teares mais antigos para serem instalados numa fábrica local e com cedência de know-how. No entanto, estamos conscientes que o processo de deslocalização para países como o Paquistão, mesmo em regime de parceria, é longo e complicado, essencialmente devido ao choque cultural inevitável. Mas o facto da Fábrica do Castanheiro existir há mais de cem anos, é a prova que nunca ficámos parados, à espera de soluções milagrosas. Nesta linha e apesar dos tempos difíceis que atravessamos, temos de procurar soluções para as dificuldades e novos caminhos possíveis», conclui Alberto José Costa. A Fábrica do Castanheiro, localizada em Guimarães, faz parte do grupo de empresas da ITV pioneiras em Portugal, uma vez que existe desde 1854, mantendo-se sempre dentro da mesma família e dentro do mesmo segmento. Com 60 trabalhadores, a actividade inicial estava centrada na tecelagem e fabricava panos , colchas admascadas e atoalhados em linho e em algodão. Em 1882, o fundador António da Costa Guimarães, denotando uma excelente visão estratégica, estava consciente da importância crescente que o sector viria a desempenhar como actividade económica. Assim, enviou um colaborador para Manchester, que constituía o grande centro tecnológico têxtil, para estudar e adquirir conhecimentos técnicos na área da tecelagem. Também participou em diversas exposições, nacionais e internacionais, obtendo prémios pela qualidade dos seus produtos. Além de trabalhar para o mercado interno, já exportava para o Brasil. Com a segunda geração, dá-se o grande crescimento da Fábrica do Castanheiro, com a ampliação da tecelagem e a criação da unidade de fiação. Em1950 inicia-se um novo período de grandes transformações na empresa. Nas últimas décadas foi desencadeado um processo de modernização, especialização e racionalização da produção, com uma constante adaptação aos novos modelos de gestão e às exigências acrescidas do mercado, indispensável para não perder competitividade. A produção centra-se nos artigos em felpo, para um segmento médio/alto. Os principais produtos são toalhas, roupões confeccionados e panos para cozinha. É uma empresa vertical com fiação, tinturaria, tecelagem e confecção. Só subcontrata a área dos bordados. Tem 350 trabalhadores e apresentou em 2002 um volume de negócios de 11 milhões e 500 mil euros, em que a exportação representou 75%. O mercado mais importante é a União Europeia (UE), com especial incidência na Alemanha, França e Espanha e Inglaterra. A Suíça, o Canadá e Israel também têm um peso significativo. Criaram uma marca própria, a Castanheiro, que representa cerca de 50% da produção, com uma grande penetração nas grandes superfícies. Da restante produção, cerca de 1/3 corresponde a private label, com um design totalmente desenvolvido pela empresa.