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Novos modelos de negócio têm de ser sustentáveis

Ter atenção ao planeta e às pessoas será essencial para que os negócios, atuais e futuros, possam prosperar em sintonia com a sociedade, de acordo com os intervenientes no painel Novos Modelos de Negócio.

Giusy Bettoni

 

Numa intervenção na iTechStyle Summit onde a arte e a cultura assumiram papel principal, José Teixeira, presidente do conselho de administração do DST – um grupo português envolvido em engenharia e construção, energias renováveis, telecomunicações, imobiliário e investimento de capital de risco – focou a necessidade de questionarmos o status quo que orienta o mundo empresarial. «O que temos de fazer nas nossas indústrias, nomeadamente nesta, é um movimento atonal [igual ao que aconteceu na música] na hierarquia das nossas decisões, onde as prioridades sejam todas questionadas, onde olhemos para o mundo e consigamos prever em que sentido é que ele deve girar», afirmou.

Segundo José Teixeira, «o processo como produzimos o que consumimos tem mesmo de ser descontinuado», especialmente tendo em conta que «se olharmos para o consumo dos nossos recursos, em junho já gastamos tudo o que tínhamos para gastar no ano inteiro».

A sobreprodução é, de resto, um problema que precisa de ser rapidamente abordado. «Todos os dias vemos isso e é um grande desafio para esta economia, nomeadamente para a economia do têxtil. Somos invadidos com produtos que não precisamos. Todos os dias o mercado trabalha para nos oferecer coisas que não precisamos para rigorosamente nada», apontou o presidente do conselho de administração do DST, que citou o envio de vestuário usado de países desenvolvidos para mercados mais pobres, que acaba, muitas vezes, em aterros ao ar livre e a poluir praias.

José Teixeira

Por outro lado, embora haja indicadores que mostram uma melhoria nas condições mundiais, «a pobreza extrema não está a diminuir, está muito longe da erradicação», que é o primeiro dos Objetivos para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. «Não podemos ter este modelo de consumo que temos, porque não conseguiremos acabar com a pobreza extrema dessa maneira», sublinhou José Teixeira, que apelou a um regresso aos valores básicos da Humanidade. «A globalização é positiva, mas que se globalize o que é bom – se se globalizar regimes autoritários, consumos acima do expectável, isso de certeza não vai resultar numa coisa boa», afirmou, salientando que «hoje existe um mercado global, existe um governo da globalização invisível, que tem um impacto incrível na atividade, no consumo, mas que ninguém elegeu. Temos de ter aqui o tal sistema atonal para romper com este intervalo entre a riqueza e a pobreza».

Uma nova relação social

O empresário citou o Novo Bauhaus Europeu, um projeto que introduz uma dimensão cultural e criativa no Pacto Ecológico Europeu a fim de demonstrar de que modo a inovação sustentável se pode traduzir em experiências concretas e positivas no dia a dia. «É uma nova relação entre as partes sociais. Não estamos a falar apenas da estética, do design, das coisas que comunicamos e colocá-las bonitas. É importante as coisas serem bonitas. Mas falamos da beleza das relações sociais, da beleza dos acionistas com os administradores, dos administradores com os seus trabalhadores, dos trabalhadores com os seus subalternos, de uns com os outros. É procurar essa ideia do bem, da verdade e da beleza», resumiu José Teixeira.

Este lado mais social, nomeadamente com a inclusão de minorias, é fundamental para o sucesso das empresas, acredita o presidente do conselho de administração do DST. «Temos de introduzir nas empresas uma coisa que já deu dois prémios Nobel: a economia comportamental. Uma economia que procure introduzir a sociologia e a neurociência nas decisões, absolutamente central, não menosprezar isto na conceção do nosso modelo estratégico, na relação que vamos estabelecer com os nossos parceiros», indicou.

Uma plataforma diferenciadora

Já Giusy Bettoni, fundadora e CEO da C.L.A.S.S., centrou a sua intervenção da apresentação da plataforma que criou em 2007 e que se foca em «ativar a importância de empresas que produzem de forma responsável», com preocupações com o seu impacto no ambiente e no oceano. «Devia já ser algo normal, mas às vezes não é fácil», assumiu.

A plataforma, que introduziu há cerca de cinco anos uma loja online pensada para estudantes, designers e marcas que pretendam explorar as mais recentes inovações de empresas que produzem de forma sustentável – uma lista onde se inclui a portuguesa Tintex –, lançou ainda recentemente a The Reclothe’s Platform em parceria com a Fashion 4 Development, com o propósito de ajudar a promover e comunicar as plataformas e as tecnologias da cadeia de aprovisionamento disponíveis atualmente para retalhistas, marcas, comunicação social, designers emergentes e todos os envolvidos na indústria. «O objetivo principal é alimentar uma mudança profunda na indústria para melhor», reforçou Giusy Bettoni.