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«Num espaço de dois ou três meses passámos muitas metas»

Aos 92 anos, a Riopele quer continuar na linha da frente na produção têxtil. Apesar da instabilidade nos mercados, José Alexandre Oliveira, presidente do conselho de administração, prevê que 2019 termine com crescimento e, para preparar já hoje o futuro, reabriu um escritório em Nova Iorque e está a renovar o parque de máquinas.

José Alexandre Oliveira

Em Paris, onde foi um dos exemplos de inovação e sustentabilidade da indústria portuguesa, a empresa liderada por José Alexandre Oliveira mostrou a sua capacidade – 180 toneladas de fio e 700 mil metros de tecido por mês –, a sua verticalidade e, sobretudo, o seu empenho em estar na vanguarda da sustentabilidade. As metas traçadas para 2024 neste âmbito estão a ser antecipadas e, atualmente, as matérias-primas “verdes” estão já em maioria. A isso junta-se a produção de energia fotovoltaica, que tem permitido aumentar as credenciais ecológicas dos processos. Os investimentos da empresa, que emprega 1.100 pessoas, não deverão, contudo, ficar por aqui.

Que expectativas tem a Riopele em relação ao evento de Paris?

Espero que estas cinco empresas possam dar um empurrão que ajude a indústria têxtil e vestuário nacional. Temos cada vez mais de pensar que já não há segredos e que se conseguirmos estar juntos e estarmos bem juntos, seremos cada vez mais fortes, criamos mais massa de potencial para os clientes.

Uma das áreas em foco na apresentação foi a sustentabilidade. Que trunfos possui a empresa nesta área?

Consumimos cada vez menos água e também reutilizamos cada vez mais a água – três ou quatro vezes mais em algumas operações. A Riopele também acabou de inaugurar um mega num campo de fotovoltaicos.

Quanto foi investido em energia fotovoltaica?

Essa resposta é mais fácil quando se investe um mega, que é o que estamos autorizados. Posso fazer o que quiser, mas há uma componente restritiva – para ser rentável, tenho que, na fase em que estou parado, meter a energia na rede. E isso é que ainda não me é autorizado. A mim e a ninguém, acho eu. Por isso, não fazendo contas ao terreno, que já era da empresa, investimos cerca de 800 mil euros.

Com esse investimento, que percentagem de energia utilizada é solar?

Muito pouco. A Riopele é uma empresa relativamente grande, somos 100% verticais, vamos desde a fiação à peça confecionada, fazemos todos os passos do processo e, por isso, temos um consumo de energia substancial. E trabalhamos três turnos, ou seja, 24 horas por dia.

E em termos de sustentabilidade dos produtos?

Para mim, é sobretudo a parte do produto que está em causa. Temos a nossa marca Tenowa, que tem como frase-chave “Rebirth of Textiles”. Destruímos o tecido e voltamos a construi-lo. A marca nasceu há dois anos e agora está a vender – há dias esteve na fábrica um grupo americano que ficou impressionado com o processo que temos e acharam que devia fazer qualquer coisa nos EUA, para mostrar.

Neste momento, quanto representa os produtos sustentáveis nas vendas da Riopele?

Para a Riopele, após a edição da Première Vision Paris em setembro, as coisas têm sido muito rápidas. Eu terei dito, no passado, que em 2024 queria a empresa toda sustentável, mas num espaço de dois ou três meses passámos muitas metas. Não contava poder hoje garantir que tudo o que estou a fiar na empresa atualmente já é só com matéria-prima sustentável: poliéster reciclado e viscose. Antes comprava-se um fardo de poliéster e era um derivado do petróleo. Hoje, esse poliéster vem das nossas garrafinhas de água. Não sou eu, é o meu fornecedor que se encarrega disso, e por isso é que disse que vai mais depressa do que pensava, porque ele também foi pressionado. Já a viscose vem da madeira e também é considerada hoje sustentável – é a EcoVero, uma marca registada da Lenzing, e eles fazem o rastreio. De um momento para o outro, as coisas evoluíram muito depressa.

Então todas as matérias-primas que usam são já amigas do ambiente?

Sim. Ainda falta a parte química, que já deu passos grandes, mas ainda não está no mesmo patamar. Está a andar, mas não está totalmente. Temos que dar muita ênfase à parte da sustentabilidade. Para nós foi um projeto que começámos há cerca de cinco anos e que, cada vez mais, está a ter eco. Em tecidos, já efetuamos vendas de milhares de metros. Quando uma pessoa consegue faturar milhares de metros e ter já alguns produtos consagrados na sustentabilidade, isso dá uma satisfação enorme. Há clientes para quem é importante, há outros para quem ainda não é relevante. Mas o essencial é estar já apto a fazer as coisas como devem ser.

Quais são os principais mercados de exportação da empresa?

Os principais mercados são Espanha, Alemanha, França, Itália, Suécia, Dinamarca,… Diria que a Europa toda. Depois há os EUA, há muitos anos, e, há cerca de quatro ou cinco anos, começámos a exportar muito bem para a Coreia do Sul, Japão e China. Estamos satisfeitos com os mercados que temos.

Como sente o mercado em geral?

Após seis anos muito interessantes, efetivamente 2019 pode-se achar que é um ano com uma situação mais comedida em termos dos clientes. Mas não é o caso da Riopele. Nós, graças ao trabalho que temos feito sistematicamente e dentro de uma política de aproximação ao cliente, temos clientes muito fidelizados. Vamos tentando passar um bocado este momento mais parado do mercado.

Que medidas tem procurado implementar para isso?

As medidas são as mesmas que temos tomado nos últimos nove anos, em que o importante para nós é estarmos sempre atualizados, sempre com tecidos e desenvolvimentos de produtos, em que o mercado reconhece não só a qualidade, mas também a criatividade da Riopele. E quando estamos conscientes de um trabalho de casa bem feito, teremos que esperar que as coisas vão correr bem.

Mas que mercados revelam maior apetência?

Os mercados europeus são os que temos de estar mais atentos a tudo que se passa, porque são mercados que, cada vez mais, nos obrigaram a ter um conhecimento muito grande do que o cliente pretende. Depois, os outros mercados são também relevantes nessa parte, mas aí diria que ainda há uma certa margem para crescer, nomeadamente nos mercados asiáticos e nos EUA.

Os EUA são uma aposta forte?

Sim, criamos agora nos EUA um escritório próprio em Nova Iorque. Tivemos, há mais de 10 anos, um escritório, depois resolvemos fechá-lo e agora estamos a reabri-lo. Estamos a cobrir o mercado já a partir desse novo escritório, é uma nova filosofia que estamos a implementar. Estávamos já muito presentes na Costa Oeste e também na Costa Este, e agora vamos percorrer o país todo. Uma coisa é ser a empresa, outra coisa é termos um intermediário. Por isso passamos a ter pessoas da empresa a viver lá e a ir lá permanentemente. De igual modo, a vantagem dos aviões agora do Porto contribui para isso.

Há outros mercados onde gostaria de adotar essa estratégia?

Já temos em Espanha, em França,… Talvez em Inglaterra, que já tivemos há mais de 20 anos. Aí também iremos para essa modalidade. Fora da Europa ainda não, são mercados com características diferentes.

Estão previstos novos investimentos?

Este ano houve uma grande feira em Barcelona, a ITMA, e começámos, evidentemente, a preparar essa feira desde o início do ano. Realizámos os investimentos que achamos que eram convenientes para dar mais qualidade e, sobretudo, mais flexibilidade à empresa. Estamos a tentar que a idade média da maquinaria da Riopele seja, no máximo, quatro anos, o que é espetacular. É uma empresa nova.

Quando deverá ficar concluído esse investimento?

Já não necessito muito tempo. Na fiação deveremos fazer alguma coisa, será talvez o maior investimento. A parte de tinturaria já está feita e a de acabamentos já está praticamente feita – investimos muito em acabamentos nos últimos três anos. E ao nível da tecelagem também está praticamente feito.

No total, de que valor estamos a falar?

Arredondando, deve andar perto dos 30 milhões de euros nos últimos seis ou sete anos.

Como correram os primeiros nove meses para a Riopele?

Há claramente uma paragem, não posso fugir a uma realidade que me atrapalha, isto é, uma redução do consumo, e há este conflito dos EUA com a China e outras instabilidades no mundo que transportam alguma preocupação – não é só para o têxtil, é para todos os sectores. No caso particular da Riopele, relativamente ao ano de 2019, as coisas, para já, estão bem. Estamos a fechar o mês de setembro, outubro está assegurado, novembro também está praticamente assegurado, por isso diria que as coisas estão bem encaminhadas.

Será este um ano de estabilização?

Não. Há, quase de certeza, um pequeno crescimento, mas é um crescimento feito há cinco meses atrás. A segunda metade do ano está mais lenta. Em 2018, o volume de negócios foi cerca de 74,5 milhões de euros, mas acredito que vamos ter, este ano, um ligeiro aumento face a isso.

Depois do evento em Paris, poderá seguir-se um evento noutro local, por exemplo, nos EUA?

Não sei. Quer dizer, podem seguir-se momentos em que a Riopele avance comercialmente com eventos próprios. Agora, no âmbito desta iniciativa, estou com o grupo, vou com o grupo.